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Estado de Minas

Kobane levará tempo para se recuperar, após fuga dos jihadistas


postado em 28/01/2015 19:07

"Queremos voltar, mas para onde?", perguntam-se os sírios refugiados na Turquia.

Embora o fim da batalha de Kobane tenha reanimado o desejo de retorno, os combates causaram tantos danos, que esses sonhos parecem longe de se concretizar.

Para muitos habitantes forçados ao êxodo, a euforia causada na segunda-feira com a vitória das forças curdas sobre os jihadistas foi de curta duração.

Rapidamente, os primeiros depoimentos dos que cruzaram a fronteira revelaram a magnitude da destruição em Kobane, ao longo de quatro meses e meio de confrontos. Por sua intensidade, muitos comparam a situação ao cerco da cidade russa de Stalingrado durante a Segunda Guerra Mundial.

"Todas as casas foram destruídas nos combates entre o YPG (Unidades de Proteção do Povo Curdo, na sigla em inglês) e o Daesh (Estado Islâmico)", lamenta Ahmad Kemri, de 60 anos, diretor de um dos liceus da cidade, refugiado na Turquia.

"E os ataques aéreos acrescentaram mais dano à devastação", apontou, lembrando dos inúmeros ataques lançados contra alvos jihadistas pelos aviões da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

Kemri ainda não pretende voltar para a Síria. Até o momento, esse professor de Matemática viveu refugiado em um modesto pensionato de Suruç. Agora, ele se prepara para se mudar com a família para um acampamento, que acaba de ser aberto pelas autoridades turcas nos arredores da cidade.

Uma de suas companheiras, Cemile Hasan, de 36 anos, tampouco é otimista sobre as perspectivas de retorno a seu país, quatro meses depois da fuga precipitada frente ao avanço dos combatentes do EI.

"Nossa pátria é nosso bem mais precioso, mas, nas condições atuais, é impossível contemplar um regresso", disse ela, contendo as lágrimas.

Nômades

"Sinceramente, estaria contente, se pudéssemos voltar no prazo de um ano. Mas sou otimista ao dizer isso, pois seria preciso reconstruir tudo", afirmou Cemile, que lamenta sua condição "nômade".

Por enquanto, a fronteira entre a Turquia e a Síria continua fechada. A gendarmeria e o Exército turcos fazem patrulha ao redor do posto fronteiriço de Mursitpinar, em frente a Kobane, para dissuadir os eventuais candidatos ao retorno.

"Não deixamos nenhum refugiado voltar até nova ordem", declarou um funcionário da Afad, a agência do governo turco encarregada das situações de urgência.

Na terça-feira, as forças de segurança turcas usaram gás lacrimogêneo e jatos d'água para dispersar grupos de manifestantes que se aproximavam da fronteira, aproveitando-se de uma manifestação de milhares de curdos pela vitória.

A situação do lado sírio ainda é muito instável, alega o lado turco.

Nesta quarta, houve combates nas cidades ao redor de Kobane, onde os aviões da coalizão bombardearam alvos jihadistas.

Mesmo que os turcos abram a fronteira e os milicianos curdos garantam sua segurança, Stera Hussein, de 29 anos, admitiu que pensará duas vezes. "Não sei se podemos confiar no YPG", desabafa Stera. "Eles nos enganaram uma vez, e quase pagamos com nossas vidas", completou.

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