Jornal Estado de Minas

Resultados de necropsia em corpo de promotor argentino apontam para suicídio

Alberto Nisman acusou a presidente Cristina Kirchner de acobertar Irã, no caso do atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires, que deixou 85 mortos e 300 feridos. Nisman deveria comparecer perante o Congresso, nesta segunda-feira, para explicar sua denúncia

AFP
O promotor Nisman, de 51 anos, acusou Kirchner, Timerman e outros funcionários de terem tramado uma manobra para acobertar o Irã por seu suposto envolvimento no atentado contra a AMIA - Foto: Marcos Brindicci/Reuters
Os resultados preliminares da necropsia feita no corpo do promotor argentino, Alberto Nisman, encontrado morto em seu apartamento com um disparo na têmpora direita, apontam para a hipótese de suicídio, informou nesta segunda-feira o Ministério Público. Nisman, havia acusado a presidente Cristina Kirchner de acobertar o Irã no caso do atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires.

"O decano do necrotério judicial comunicou à representante do Ministério Público que, na morte de Nisman, não houve intervenção externa", informou em um comunicado a promotora Viviana Fein, encarregada da investigação da morte do colega. Fein afirmou que espera mais exames para descartar qualquer outra hipótese.

Uma fonte do Instituto Médico Legal explicou à Infojus Noticias, site de informação do Ministério da Justiça, que a necropsia determinou que "a única lesão encontrada no corpo de Nisman é a que produziu sua morte: um projétil de arma de fogo que entrou na região parietal-temporal direita, o que se conhece vulgarmente como têmpora".

O corpo "não tinha lesões prévias" e o chumbo do projétil encontrado na necropsia está sendo analisado por especialistas em balística, acrescentou a fonte.

Mais cedo, o secretário argentino de Segurança, Sergio Berni, tinha informado que a morte de Nisman, encontrado no domingo junto a uma arma em seu apartamento, parecia um suicídio.

A morte foi anunciada no mesmo dia em que Nisman deveria comparecer perante o Congresso para explicar sua denúncia contra Kirchner e o chanceler Héctor Timerman. "A morte de Nisman não tem absolutamente nada de normal", declarou o secretário-geral da Presidência, Aníbal Fernández, dizendo-se chocado.

Kirchner determinou nesta segunda-feira que sejam tornadas públicas as informações da inteligência relacionadas com a investigação do atentado, solicitadas por Nisman na semana passada.

Israel lamentou a morte do promotor, qualificado como um "corajoso jurista", e pediu que a Argentina prossiga com a investigação do caso. O óbito também foi lamentado por organizações judaicas argentinas, como a AMIA, Daia e o Centro Simon Wiesenthal.

O promotor Nisman, de 51 anos, acusou na quarta-feira Kirchner, Timerman e outros funcionários de terem tramado uma manobra para acobertar o Irã por seu suposto envolvimento no atentado contra a AMIA que deixou 85 mortos e 300 feridos em 1994. Naquele dia, Fernández, em nome do governo de Kirchner, considerou a denúncia ridícula.

A promotora Viviana Fein confirmou a morte do promotor por arma de fogo calibre 22, encontrada junto ao seu corpo em um apartamento de Puerto Madero, em Buenos Aires. O cadáver do promotor foi encontrado por sua mãe, contactada pelos seguranças de Fernández - 10 agentes da polícia - que alertaram a família diante da falta de resposta a telefonemas no domingo.

Nisman havia sido designado em 2004 por Néstor Kirchner como promotor especial para o caso AMIA, um ano após a anulação de um julgamento por irregularidades na investigação.

A denúncia

Nisman, divorciado de uma juíza e pai de duas filhas, interrompeu suas férias na Espanha e viajou à Argentina na semana passada para divulgar sua controversa denúncia. O promotor pedia que Kirchner fosse indagada por ter favorecido, em 2013, a assinatura de um Memorando de Entendimento entre Argentina e Irã para poder interrogar os acusados em um terceiro país e avançar em um caso estancado há 20 anos.

A acusação de Nisman foi o último de uma série de confrontos entre funcionários de alto escalão e a justiça argentina sobre o esclarecimento deste atentado.
Além da investigação, o promotor solicitou um embargo preventivo de bens no valor de 200 milhões de pesos (23 milhões de dólares) de Kirchner, de Timerman e de outros funcionários.

Segundo o promotor, a posição do governo de Kirchner obedecia ao seu interesse pelo petróleo iraniano para restabelecer relações comerciais de Estado a Estado. O governo rejeitou a denúncia do promotor, chamando-o de mentiroso, e atribuiu a atuação de Nisman a uma operação dos serviços de inteligência.

O presidente da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), ONG que conta com a adesão de 140 instituições judaicas do país, disse que "voltou a explodir a bomba do caso AMIA", e considerou esta morte uma catástrofe. Já Israel expressou sua tristeza pela morte do promotor e pediu à Argentina que prossiga com a investigação do caso.

"O Estado de Israel expressa sua profunda tristeza pela trágica morte do promotor especial que investigava o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), Alberto Nisman", afirmou o porta-voz da chancelaria israelense, Emmanuel Nahshon, em um comunicado.

"Nisman, um corajoso jurista e combatente da justiça, trabalhou com grande determinação para identificar os executores e autores do ataque", acrescenta o texto.

Ameaças e Assassinato

A deputada opositora Patricia Bullrich afirmou que "um promotor morto antes de dar um relatório ao Congresso em um caso onde há terrorismo internacional me parece de uma enorme gravidade". A deputada disse ter falado no sábado com Nisman três vezes e ele mencionou que havia recebido várias ameaças.

Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, declarou que era um assassinato, que esta morte era previsível e não reconheceu a versão do suicídio. Para sua audiência desta segunda-feira o promotor solicitava que seu comparecimento ocorresse em particular, mas parlamentares governistas exigiam que a audiência fosse pública e transmitida pela televisão.

No Twitter várias hashtags com palavras-chave do ocorrido apareciam entre as mais populares nesta segunda-feira, enquanto #Nisman e #CFKAsesina - as iniciais do nome da Presidente - se impunham entre os seguidores desta rede social.

Acusação vil

O governo argentino rejeitou a denúncia "vil" do procurador. A assinatura de um memorando de entendimento com o Irã aumentou a tensão nas relações entre o governo de Kirchner e a comunidade judaica, integrada por 300.000 membros, a maior da América Latina.

O governo defendeu o acordo bilateral com o Irã para investigar os acusados de planejar o ataque. Cinco ex-funcionários iranianos, entre eles um ex-presidente, atuais ministros e líderes religiosos locais têm ordens de captura internacional da Interpol a pedido da justiça argentina..