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Evo Morales em busca de vitória esmagadora para governar Bolívia sem oposiçãoOposição a Evo Morales recua até em antigos redutosLibéria vai processar homem que levou ebola para os EUAEvo Morales é reeleito na Bolívia para terceiro mandato com mais de 60% dos votos Evo Morales deve ser reeleito no 1º turno em eleições da BolíviaEleição presidencial na Bolívia termina com Morales como favoritoJerjer Justiniano, embaixador da Bolívia em Brasília, atribui a aprovação do chefe de Estado às políticas sociais de seu governo e à simpatia da população com o primeiro presidente de origem indígena – mais de 60% dos bolivianos são descendentes de povos nativos. "Morales é um político bem-sucedido, que representa a juventude e tem forte identificação com o povo", descreve.
Além do importante componente étnico, o quadro econômico boliviano conspira a favor do mandatário. Sob a tutela de Luis Alberto Arce, ministro da Economia desde 2006, a Bolívia manteve uma política fiscal organizada, beneficiada pelo alto preço das commodities exportadas pelo país – como soja, gás e minerais. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o país crescerá 5,4% em 2014, acima da taxa de 1,3% projetada para o conjunto da América Latina.
A nacionalização do setor de hidrocarbonetos proporcionou que a entrada de recursos oriundos do setor energético nos cofres públicos subisse de US$ 673 milhões, em 2005, para US$ 855 bilhões em 2013, segundo dados da estatal YPFB. "Morales deu muita sorte com o aumento da demanda por commodities. Ele teve uma folga fiscal que fez com que seu governo mantivesse a estabilidade econômica e desse conta das políticas de compensação social", avalia Alberto Pfeifer, especialista em integração latino-americana e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (Gacint-USP).
Pfeifer ressalta que Morales amenizou o discurso refratário aos investimentos estrangeiros, observado no início da jornada como presidente. "Isso deve atrair o retorno dos investimentos. Temos uma combinação bastante favorável à Bolívia e a Morales, que deve ter mais cinco anos de governo estável."
Redutos opositores A aproximação com o setor privado foi outro elemento que o ajudou a conquistar apoio em antigos redutos oposicionistas. Sondagens indicam que Morales deve ter desempenho positivo nas províncias de Santa Cruz de La Sierra, Tarija, Pando e Beni, que formam a chamada "meia-lua". José Blanes, sociólogo e diretor do Centro Boliviano de Estudos Multidisciplinares (Cebem), relata que o presidente e seus correligionários fizeram "esforços para neutralizar a oposição" nessa região. "O governo realizou grandes obras de infraestrutura em Santa Cruz e manteve diálogo com os empresários", ressaltou.
Blanes e Pfeifer concordam que a oposição está fragmentada e se mostra incapaz de articular uma frente propositiva. "Tanto do lado governista quanto na oposição existem apenas caudilhos, e essa campanha mostrou a dificuldade dos partidos em apresentar propostas programáticas. As pessoas vão votar em pessoas das quais mal conhecem as propostas", critica Blanes.
Morales também deve conquistar maioria absoluta no Congresso. Embora o presidente descarte o interesse por um quarto mandato, Blanes acredita que Morales tentará introduzir uma cláusula na Constituição que permita outra reeleição. O especialista, porém, observa que a queda de braço deve prosseguir nas eleições para prefeitos e governadores, marcadas para março de 2015. Ele acredita que essas disputas serão mais acirradas devido à força de líderes regionais e a problemas locais.
PERFIS
Evo Morales
Movimento ao Socialismo (MAS)
Eleito primeiro presidente indígena da Bolívia
em 2005, Evo Morales chegou ao poder com um discurso indigenista e antiamericano. Ex-líder sindical dos plantadores de coca e aliado de líderes esquerdistas regionais – como o falecido presidente venezuelano Hugo Chávez e o atual mandatário do Equador, Rafael Correa –, ele promoveu a nacionalização da indústria de hidrocarbonetos, que ajudou a financiar políticas sociais e de distribuição de renda. Em 2009, foi reeleito com 64% dos votos.
Samuel Doria Medina
Unidade Democrata (UD)
Acionista da Sociedade Boliviana de Cimento, principal produtora do setor, Samuel Doria Medina enfrenta Morales nas urnas pela terceira vez. Em 2005 e em 2009, obteve 7,8% e 5,6% dos votos, respectivamente. Conservador, Medina tenta convencer o eleitorado de que sua experiência como administrador de empresas o gabarita para comandar o país. Apesar de aparecer em sondagens eleitorais com apenas 18% das intenções de voto, ele insiste que esses dados são incorretos.
Ruídos na relação com Dilma
Apesar das afinidades de discurso político entre os governos de Evo Morales e Dilma Rousseff, o Brasil está há mais de um ano sem embaixador na Bolívia. A ausência de um representante brasileiro em La Paz se relaciona aos desdobramentos da crise provocada pela fuga do senador boliviano Roger Pinto, trazido ao Brasil pelo diplomata Eduardo Saboia, em 24 de agosto do ano passado. O incidente provocou a queda do então ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota. Apesar de o Itamaraty ter indicado antes do incidente um substituto para o embaixador Marcel Biato – que estava em férias e se preparava para deixar a missão em La Paz –, a nomeação do novo embaixador continua "em exame" na Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado.
Documentos da CRE indicam que o embaixador Raymundo Santos Rocha Magno foi indicado para o posto na Bolívia em 19 de agosto de 2013. Após o incidente, porém, o então relator do processo, senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), fez um requerimento de informação, solicitando ao Itamaraty informações sobre as correspondências trocadas entre o MRE e a embaixada em La Paz durante os 452 dias que Roger Pinto passou abrigado na representação brasileira. O gabinete do presidente da comissão, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), informou ao Estado de Minas que o caso se encontra "sobrestado". O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) assumiu a relatoria e deve reiterar o pedido de esclarecimentos. Segundo o Itamaraty, não houve avanço na questão.
Pinto pediu asilo ao Brasil alegando ser perseguido por apontar vínculos entre o governo boliviano e o narcotráfico. Sem o salvo-conduto do governo boliviano, que lhe permitiria deixar a embaixada brasileira e seguir para o aeroporto, Saboia, então encarregado de negócios da missão brasileira, decidiu trazer o senador ao Brasil. Escoltados por fuzileiros navais, Pinto e Saboia percorreram 1.600 quilômetros em um carro da embaixada brasileira, sem conhecimento da cúpula do MRE.
Além da crise doméstica, que levou à queda de Patriota, o caso provocou mal-estar entre os dois governos. Na semana passada, Evo Morales se manifestou sobre a distância entre ele e a presidente Dilma, que não fez visita de Estado à Bolívia durante seu mandato. "Não sei se foi por falta de tempo, mas o companheiro Lula visitou a Bolívia várias vezes. Dilma nunca veio, mas confio muito nela", afirmou Morales ao canal Unitel. (GFV)