Gabriela Freire Valente
Brasília – O governo americano anunciou ontem a formação de uma coalizão internacional para “destruir” o grupo extremista sunita Estado Islâmico (EI), que proclamou um “califado” nas áreas que controla em território da Síria e do Iraque. A iniciativa para desmantelar os jihadistas foi acertada à margem cúpula da Otan, no País de Gales, entre chanceleres de 10 países. Embora tenha defendido o ataque aos extremistas, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, descartou o envio de tropas à região ocupada pelo EI. “Essa é a linha vermelha para todos”, afirmou.
Além dos EUA, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, França, Itália, Polônia e Turquia concordaram em unir forças contra o grupo, que professa uma vertente radical do islã sunita. Em Teerã, o aiatolá Ali Khamenei, líder do regime islâmico do Irã, onde predomina a corrente muçulmana xiita, deu aval para a coordenação com os EUA de ações contra o EI, mas Washington rejeitou uma aliança explícita. O presidente Barack Obama manifestou confiança na coalizão internacional e destacou o “avanço na direção certa”. “Vamos persegui-los, como fazemos com o que resta da Al-Qaeda. Podemos desmantelar essa força que assumiu o controle de um grande território para que não possa chegar até nós”, declarou.
A coalizão deve apresentar um plano de ação dentro de duas semanas, segundo Kerry, a tempo para a Assembleia Geral da ONU, em 16 de setembro. Os 10 países devem coordenar apoio militar às forças iraquianas e curdas, medidas para deter o fluxo de combatentes estrangeiros, contra-ataque ao financiamento dos jihadistas, ajuda humanitária e uma campanha para denunciar a ideologia do EI.
Embora Washington descarte enviar de tropas ao Iraque, de onde retirou o contingente de combate no fim de 2012, o cientista político Leonardo Paz, coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), observa que a presença de britânicos entre os combatentes do EI motiva uma ação direta do Reino Unido. “Eles são os que têm mais intenção de ir a campo, pois há uma preocupação grande sobre o retorno (dos jihadistas). Eles têm percebido que o plano do EI vai muito além da Síria e do Iraque: há uma ameaça de ataque à Europa e aos EUA”, adverte. O presidente francês, François Hollande, também se mostrou aberto a uma resposta militar aos extremistas, e o governo canadense anunciou o envio de conselheiros militares ao Iraque.
As forças curdas e milícias xiitas encontraram 35 cadáveres na cidade de Sulaiman Bek, ao norte de Bagdá, retomada na segunda-feira dos jihadistas. Ataques em várias regiões do Iraque deixaram pelo menos 17 mortos ontem. Na cidade de Al-Ashara, na província síria de Deir Ezzor, centenas de pessoas realizaram um breve protesto contra a presença do Estado Islâmico na região. Os manifestantes enterravam oito civis, mortos na véspera por ataques da aviação síria contra posições dos extremistas na cidade e o funeral se converteu em protesto. Os jihadistas, porém, prenderam um jovem e o executaram em praça pública, o que inibiu a manifestação.
Abatido líder somali
A Casa Branca confirmou ontem a morte de Ahmed Abdi, líder do grupo terrorista Al-Shabab, que atua na Somália. Abdi, que era conhecido como “Godane”, foi alvo de um ataque aéreo americano no país africano, realizado na segunda-feira. A eliminação do dirigente extremista foi considerada por Washington uma “importante perda simbólica e operacional para a mais importante facção da rede Al-Qaeda na África”. A aviação bombardeou uma área onde estavam reunidos vários comandantes dos islamitas somalis, incluindo o líder do grupo. Abdi, de 37 anos, era uma das 10 pessoas mais procuradas no mundo pelas autoridades americanas. No comando do grupo desde 2008, ele liderou ataques a bomba dentro e fora da Somália, incluindo o ataque suicida que matou 67 pessoas em um shopping do Quênia.
