O presidente russo, Vladimir Putin, causou a ira do governo de Kiev ao visitar a Crimeia nesta sexta-feira, em uma nova demonstração de força, enquanto a Ucrânia sofre com a violência, com mais de 20 mortos em confrontos na cidade de Mariupol (sudeste).
Sessenta insurgentes armados atacaram a sede da polícia local, indicou o ministro do Interior ucraniano, Arsen Avakov, em sua página no Facebook. Ele informou que 20 separatistas e um policial foram mortos nos confrontos. Um jornalista da AFP no local relatou ter visto o prédio da polícia bastante danificado e parcialmente em chamas, além de dois corpos cobertos.
Ao mesmo tempo, Putin participou em Sebastopol, base histórica da frota russa do Mar Negro, das celebrações do Dia da Vitória contra os nazistas, em 1945, celebrada em 9 de maio na ex-URSS. Kiev denunciou uma "flagrante violação da soberania da Ucrânia", o que prova que "a Rússia não quer buscar uma solução diplomática".
Os Estados Unidos, na linha de frente contra a Rússia nesta crise, também denunciaram uma visita que só servirá para "exacerbar as tensões". O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, lembrou, por sua vez, que a Aliança não reconhece "a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia".
O presidente russo, chegou durante a tarde à Crimeia após a tradicional parada militar na Praça Vermelha em Moscou, para sua primeira visita à península do sul da Ucrânia, anexada em março à Rússia depois da chegada ao poder de pró-ocidentais em Kiev. Ele considerou que esta anexação "confirma a sua fidelidade à verdade histórica". Ressaltando que a Rússia respeita os direitos e os interesses de outros países, ele declarou que esta ação atendia "aos próprios interesses legítimos".
Revista da frota militar
Antes de discursar à multidão, Putin passou em revista cerca de dez navios militares russos no porto de Sebastopol e felicitou, com um megafone, as tripulações, que responderam com gritos, segundo imagens da televisão russa. Em seguida, um desfile aéreo mobilizou dezenas de aeronaves, incluindo bombardeiros que sobrevoaram a cidade.
A chanceler alemã, Angela Merkel, lamentou esta semana o anúncio do desfile na Crimeia, enquanto as regiões do leste da Ucrânia, onde Kiev e o Ocidente acusam Moscou de incitar o separatismo, mergulham na violência.
Na Ucrânia, as comemorações foram mais discretas. Em Kiev, uma breve cerimônia foi realizada em um parque da cidade na presença do primeiro-ministro, Arseni Yatseniuk. "Há 69 anos combatemos com a Rússia o fascismo e nós vencemos. Hoje, a Rússia lançou uma guerra contra a Ucrânia", declarou Yatseniuk, pedindo que Moscou "pare de apoiar terroristas que matam civis na Ucrânia".
Putin adotou na quarta-feira um tom mais conciliador e pediu o adiamento do referendo sobre a independência no leste da Ucrânia, previsto para domingo, mas os separatistas decidiram manter esta consulta.
Kiev não voltará atrás
Em Donetsk, uma unidade da Guarda Nacional ucraniana foi surpreendida por manifestantes e militantes pró-russos armados. Houve uma breve troca de tiros que deixou dois feridos. Os militares ucranianos bateram em retirada, segundo pró-russos que preferiram não se identificar. O Ministério Público ucraniano anunciou a abertura de uma investigação após a morte de um padre ortodoxo, atingido com oito tiros em um posto de controle dos insurgentes na região.
Em uma conversa por telefone nesta sexta, o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, pediu que o seu colega americano John Kerry pressione as autoridades ucranianas para que "parem com as operações" no leste do país, segundo um comunicado do ministério russo.
Já o governo ucraniano reiterou na quinta-feira que não tem a intenção de renunciar à restauração da ordem no leste. Em 2 de maio, as novas autoridades lançaram uma operação militar que já resultou em dezenas de mortes. Em Slaviansk, reduto rebelde pró-russo, tiros e explosões foram ouvidos durante a noite. Três blindados, um deles com a bandeira russa, foram visto nesta manhã no centro da cidade. Os separatistas desejam deixar a direção da insurreição sob o comando de Igor Strelkov, que, segundo os serviços de segurança ucranianos, é um coronel do serviço de espionagem russo.
Strelkov lidera atualmente a milícia em Slaviansk e foi "proposto como comandante de todas as forças de 'autodefesa' da importante região mineradora do Donbass", anunciou o governador autoproclamado de Donetsk, Pavlo Gubarev. Strelkov, de 43 anos, nega ser um coronel russo, mas, de acordo com autoridades ucranianas, seu nome verdadeiro é Igor Guirkin, e ele teria deixado Moscou em fevereiro para cruzar a fronteira.
A tensão continua forte na Ucrânia com a aproximação da eleição presidencial antecipada de 25 de maio, que deve permitir a eleição de um sucessor de Viktor Yanukovych. O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, é esperado segunda-feira em Kiev para expressar o apoio da União Europeia à Ucrânia antes da eleição.
Também há questões econômicas em jogo.