Os insurgentes armados pró-Moscou passaram à ofensiva nesta segunda-feira no leste da Ucrânia e pediram a ajuda de Vladimir Putin contra o governo pró-europeu de Kiev, que busca uma solução política e apelou à ONU.
Diante de ataques, aparentemente coordenados, realizados desde sábado por ativistas pró-russos e grupos de homens armados em uniformes sem identificação, o país de 46 milhões de habitantes é mais do que nunca ameaçado por uma secessão entre o leste de língua russa e o centro e oeste voltados para a Europa.
O Kremlin anunciou que o presidente russo recebeu "muitos pedidos" de ajuda das regiões do leste ucraniano e que observa a situação com "muita preocupação".
Sinal desta tensão, Washington denunciou uma provocação contra um de seus navios no Mar Negro por um caça-bombardeiro russo.
E os presidentes americano Barack Obama e francês François Hollande expressaram sua "preocupação com os últimos episódios de violência" na Ucrânia.
No terreno, apesar de Kiev anunciar uma "grande operação antiterrorista" para recuperar o controle, centenas de manifestantes pró-russos atacaram e tomaram as sedes da polícia e da prefeitura de Gorlivka, cidade de 250.000 habitantes na província de Donetsk, que faz fronteira com a Rússia.
Nenhuma atividade militar ucraniana foi observada nas diferentes partes da região até o momento.
Em Slaviansk, cidade símbolo das recentes tensões onde grupos armados pró-russos ocuparam no sábado edifícios da polícia e dos serviços de segurança, a situação permanece sob o controle dos insurgentes.
Um de seus líderes, Vyatcheslav Ponomarev, apelou diretamente ao presidente russo, Vladimir Putin, que mobilizou 40.000 soldados na fronteira, de acordo com a Otan, e prometeu defender "a todo custo" as populações russas da ex-URSS.
"Pedimos à Rússia para nos proteger e não para permitir o genocídio do povo de Donbass (leste da Ucrânia). Pedimos ao presidente Putin que nos ajude", declarou.
Em frente à prefeitura de Slaviansk é possível observar uma dúzia de homens armados, vestindo o mesmo uniforme e com ar muito profissional. Outros, a bordo de caminhões militares, fortalecem as defesas em torno da cidade, com equipamentos de guerra, baterias anti-aéreas e anti-tanques.
No centro da cidade, mil pessoas se reuniram, prometendo permanecer no local até que haja um referendo sobre a anexação à Rússia.
Os pró-Moscou exigem a anexação, ou pelo menos uma "federalização" da Constituição da Ucrânia para dar mais poderes às regiões.
Pela primeira vez, o presidente interino da Ucrânia, Olexander Turchynov, aceitou nesta segunda-feira a possibilidade de um referendo para determinar o status político do país, como resposta às tensões com o leste pró-Moscou.
A mudança inesperada aconteceu poucas horas depois do fim do prazo do ultimato apresentado por Turchynov aos separatistas para que entregassem as armas e abandonassem os prédios públicos ocupados no sudeste do país.
"Nos últimos dias se falou muito sobre um referendo nacional. Não somos contrários à celebração de um referendo em toda a Ucrânia que, se o Parlamento decidir, poderia acontecer no mesmo dia das eleições presidenciais", declarou Turchynov durante uma reunião de líderes dos grupos políticos no Parlamento.
"Tenho certeza de que a maioria dos ucranianos se pronunciará a favor de uma Ucrânia indivisível, independente, democrática e unida", completou o presidente interino.
Mas, ao contrário da sugestão do presidente ucraniano sobre um possível referendo nacional, os manifestantes separatistas exigem consultas locais, que teriam mais chances de resultados favoráveis.
"Guerra contra seu povo"
Turchynov também convidou a ONU a unir-se à "operação antiterrorista" do exército no leste do país.
"Nós receberemos sua ajuda para realizar uma operação conjunta antiterrorista no leste da Ucrânia, onde insurgentes pró-russos, alguns armados, tomaram o controle de prédios públicos em várias localidades", declarou Turtchynov durante uma conversa telefônica com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, segundo a presidência.
Este apelo tem poucas chances de ser seguido, já que a Rússia tem direito de veto da ONU.
Neste sentido, Moscou ordenou que as autoridades de Kiev, no poder após a revolta que derrubou no final de fevereiro o regime pró-russo, pare "a guerra contra (seu) próprio povo".
Uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a pedido de Moscou, foi realizada no domingo sem resultados.
Os ocidentais acusam Moscou de instigar os distúrbios, citando semelhanças com o que ocorreu em março na Crimeia, anexada à Rússia após a intervenção de grupos armados russos.
Moscou rejeita, por sua vez, toda responsabilidade pela escalada da tensão.
Esta tensão promete comprometer as negociações previstas para quinta-feira em Genebra entre Estados Unidos, UE, Rússia e Ucrânia, para tentar encontrar uma solução à pior crise desde o fim da Guerra Fria.
Em Luxemburgo, os ministros europeus das Relações Exteriores acusaram a Rússia pela escalada da tensão, enquanto uma reunião poderia ser organizada na próxima semana para endurecer as sanções contra Moscou.
Os ministros concordaram ainda com um empréstimo de um bilhão de euros a Kiev, à beira da falência, que também obteve uma garantia de crédito dos Estados Unidos no valor de um bilhão de dólares.
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