Reunido com o Conselho de Segurança, o chefe do Kremlin respondeu às primeiras represálias com uma provocação: anunciou que abriria uma conta no banco Rossiya, listado como alvo nas sanções americanas, como gesto de solidariedade aos correntistas, privados do uso dos cartões. O ministro das Finanças, Anton Siluanov, foi menos confiante ao comentar a notícia de que a agência de classificação financeira Fitch estuda rebaixar a nota da Rússia, seguindo indicação da Standar & Poor’s. “É possível que tenhamos de desistir de pedir dinheiro emprestado no exterior e reduzir em parte o crédito interno”, disse.
Putin chegou a ser sarcástico quando se referiu às restrições impostas a personagens do círculo mais íntimo do Kremlin, que tiveram bens congelados e não terão visto para viajar aos EUA ou à Europa. “Deveríamos nos distanciar deles”, zombou o presidente, em declaração feita para parlamentares e transmitida pela tevê. “Eles nos comprometem”, acrescentou. Para o professor de direito internacional Amos Guiora, da Universidade de Utah, as sanções ocidentais mostram uma “posição impenetrável do presidente russo em relação a Barack Obama e ao Ocidente”.
Enquanto a anexação da Crimeia se consumava, o primeiro-ministro da Ucrânia, Arseniy Yatseniuk, assinou a parte política do acordo de integração com a UE. O documento abre caminho para que Kiev se torne membro do bloco, mas não garante que a associação seja concluída a curto prazo. O acordo foi rejeitado pelo presidente deposto, Viktor Yanukovich, que em novembro anunciou uma pausa no processo, provocando a onda de protestos que culminou na sua fuga para a Rússia. No início do mês, a UE prometeu a Kiev uma ajuda de 11 bilhões de euros, dos quais 1,6 bilhão poderá ser desbloqueado em breve.
A notícia coincidiu com o alerta do premiê russo, Dmitri Medvedev, que lembrou à Ucrânia uma dívida de US$ 16 bilhões para com Moscou – e disse que o valor não será ignorado. Yatseniuk argumentou que o prejuízo de Kiev com a anexação supera largamente o que é cobrado pela Rússia. Segundo a agência Interfax, o premiê estima que a perda da península custará “centenas de bilhões de dólares” aos cofres públicos ucranianos, por causa das nacionalizações.
Novas instalações militares da Ucrânia foram tomadas por forças russas, deixando soldados e oficiais desnorteados. O porta-voz do Ministério da Defesa ucraniano na Crimeia, Vladislav Seleznev, lamentou a falta de apoio. “Por três semanas, mantivemos a defesa, mas, sem a ajuda da Ucrânia, praticamente todas as bases foram tomadas”. Segundo Seleznev, apesar de o governo ter anunciado o recolhimento de suas forças, não há “nenhuma orientação específica de Kiev para a retirada”.
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