Um raro bate-boca em público explodiu nesta terça-feira entre a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Congresso americano, que deveria, na verdade, monitorar seu trabalho, com o chefe da agência negando categoricamente as acusações de espionagem sobre o Senado.
Hoje, a CIA voltou a ser centro de um escândalo político nos Estados Unidos, acusada de violar a Constituição ao revistar os computadores de vários senadores que investigavam um extinto programa secreto de interrogatórios.
O diretor da CIA, John Brennan, rejeitou categoricamente as acusações da presidente da Comissão de Inteligência do Senado, a senadora Dianne Feinstein.
"Nada pode estar mais longe da verdade", frisou Brennan, em um evento no Council on Foreign Relations, um prestigioso think tank americano. "Não faríamos isso", garantiu, referindo-se ao objeto da denúncia.
Brennan também conversou com a rede NBC News: "a questão está sendo administrada de uma maneira adequada, sendo vista pelas autoridades certas, e os fatos virão à tona".
Os comentários de Brennan foram feitos pouco depois de Feinstein iniciar um duro ataque público à CIA e denunciar no Senado as supostas atividades da agência.
"Tenho sérias preocupações que a busca da CIA possa ter violado o princípio de separação de poderes inscrito na Constituição americana, incluindo a liberdade de expressão e de debate", declarou Feinstein, em plenária no Senado.
"Pode ter violado o marco constitucional vital para uma supervisão eficaz por parte do Congresso das atividades de Inteligência, ou qualquer outra função governamental", acrescentou.
"Solicitei desculpas e um reconhecimento de que essa busca da CIA nos computadores (...) era inadequada", disse Dianne, acrescentando que "não recebi nenhum dos dois".
O discurso de Feinstein representou uma pausa em suas relações normalmente cordiais com a comunidade de Inteligência, a qual defendeu em diferentes ocasiões.
As declarações da senadora foram motivadas pelas denúncias de autoridades não identificadas à imprensa. Segundo essas fontes não reveladas, funcionários do Congresso teriam levado documentos sigilosos sem a devida autoridade para fazê-lo, o que deflagrou a investigação. Feinstein rejeitou as acusações.
Na Casa Branca, o porta-voz do presidente Barack Obama, Jay Carney, desconversou, afirmando que o caso é alvo de investigação de um inspetor-geral independente da CIA e foi encaminhado para o Departamento de Justiça.
"Não posso comentar sobre alegações que estão sob análise", afirmou.
Carney disse que a Casa Branca leva as preocupações de Feinstein muito a sério, mas também tem plena confiança em Brennan.
- Documentos desaparecidos -
O caso remonta a vários anos. Em 2009, a Comissão de Inteligência iniciou uma investigação sobre o programa de interrogatórios violentos da CIA, incluindo a técnica chamada "submarino".
Investigadores da comissão foram habilitados com acesso a um prédio de alta segurança, na Virgínia, próximo de Washington, e a mais de 6 milhões de documentos entregues pela CIA. Segundo um acordo entre o Senado e a agência, eles poderiam fazer a consulta em computadores protegidos, aos quais a CIA não deveria ter acesso.
Em 2010, mais de 900 páginas com documentos particularmente importantes desapareceram dos memorandos protegidos dos investigadores, relatou Feinstein. A senadora contou que, depois de reclamar com a Casa Branca, os documentos foram fornecidos novamente.
Em dezembro de 2012, a Comissão aprovou, a portas fechadas, um relatório devastador de mais de 6.300 páginas chamado "Informe sobre a tortura". No documento, os investigadores concluíram que a técnica foi um "terrível erro" e não contribuiu para seguir a pista de Osama bin Laden.
Entre os documentos "sensíveis" desaparecidos havia alguns referentes a um memorando secreto divulgado pelo diretor anterior da CIA Leon Panetta. Segundo a comissão, o texto contradizia a posição oficial da CIA sobre os interrogatórios.
"Em 15 de janeiro de 2014, o diretor da CIA, (John) Brennan, pediu uma reunião de emergência para me informar (...) que, sem notificação prévia, ou aprovação, o pessoal da CIA esteve bisbilhotando - essas foram as palavras de Brennan - os computadores da Comissão no prédio externo", contou a senadora, explicando que a operação compreendia os discos rígidos que continuam o trabalho interno da comissão e sua comunicação interna.
O inspetor-geral da CIA transmitiu o caso ao Departamento americano da Justiça, um movimento que Feinstein descreveu como "um esforço potencial para intimidar" seus funcionários.
De acordo com a senadora, o relatório sobre a tortura poderá ser "desclassificado" parcialmente este mês, depois da autorização da Casa Branca.
A organização American Civil Liberties Union aplaudiu Feinstein por sua "necessária e histórica defesa do princípio constitucional de separação de Poderes".
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