Jornal Estado de Minas

Maduro acusa Uribe de incitar violência

Presidente venezuelano diz que ex-dirigente da Colômbia está por trás dos protestos, que chegam ao 13º dia, e anuncia plano

Jorge Macedo - especial para o EM

Caracas – “O ex-presidente colombiano Alvaro Uribe está por trás das manifestações opositoras na Venezuela e de um dos meios de comunicação internacionais que divulgaram os protestos que deixaram três mortos”, afirmou ontem o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

“Já mandei uma mensagem muito clara (...) para esse canal de notícias (o colombiano NTN24), onde, por trás, está a mão de um fascista inimigo da Venezuela, Alvaro Uribe”, discurou ele, a milhares de simpatizantes reunidos no Centro de Caracas, que registrou ontem duas marchas, sem registro de violência: de opositores e partidários do governo.

Apoiadores do governo saíram às ruas de Caracas na "Grande Marcha pela Paz e Juventude" - Foto: Leo Ramirez/AFP “Alvaro Uribe está por trás, financiando e dirigindo esses movimentos fascistas”, frisou Maduro, ao se referir aos protestos estudantis que completam hoje seu 13º dia nas ruas e que deixaram três mortos, mais de 60 feridos e pelo menos 100 detidos, na quarta-feira. Naquele dia, enquanto manifestantes encapuzados protagonizavam incidentes na Zona Leste de Caracas, o sinal da emissora colombiana NTN24 foi tirado das companhias DirectTV e Movistar, que o transmitem na Venezuela. Maduro disse que a decisão foi tomada por seu governo. O NTN24 deu ampla cobertura aos eventos, o que, nas palavras do presidente venezuelano, buscavam apenas gerar “medo, perturbação e ódio” para promover um golpe de Estado.
Ontem, opositores e partidários do governo se reuniram em distintas praças de Caracas e outras cidades venezuelanas, um dia depois de Maduro anunciar um plano para conter a violência no país, que inclui o desarmamento da população, maior vigilância policial e “normas claras para a televisão”.

Vestidos de branco em sua maioria e com bandeiras da Venezuela, cerca de 3 mil opositores protestaram na tarde de ontem, em Mercedes, luxuosa região comercial de Caracas, lotando uma praça e as avenidas próximas.  “Antes não saíamos às ruas por causa da insegurança, agora saímos para protestar e nos matam. Os jovens não têm fé nem esperança, não podemos conseguir um trabalho, e se temos um, não dá para ter uma vida digna”, disse à Agência France Presse Issac Castillo, de 27 anos, da Universidade Andrés Bello.

Os opositores de Maduro também ocuparam ruas e avenidas da capital com cartazes em mãos - Foto: Juan Barreto/AFP No Centro, milhares de simpatizantes de Maduro, em sua maioria vestidos de vermelho, ganharam várias praças durante o dia, ao ritmo de tambores. O protesto governista, com enormes bandeiras nacionais e imagens do herói nacional Simón Bolívar e do presidente Hugo Chávez, foi convocado “pela paz e contra o fascismo”.
 Desde o começo do mês, Caracas e outras cidades da Venezuela são cenário de protestos de estudantes e opositores do governo para denunciar a insegurança, a inflação e a escassez de produtos.
Na noite de quinta-feira, manifestantes foram dispersados por guardas nacionais com gás lacrimogêneo e jatos de água depois de bloquearem duas movimentadas avenidas.

Na sexta-feira, eles entraram em confronto com soldados no município de Chacao, na região de Caracas. Integrantes do protesto, que reuniu cerca de 1 mil, a maioria estudantes, tentaram bloquear uma estrada, quebraram vidros de lojas e picharam prédios públicos. Segundo o prefeito de Chacao, Ramón Muchacho, adversário político de Maduro, duas pessoas foram baleadas, e vários casos de asfixia foram atendidos nos hospitais locais.

PACIFICAÇÃO
Na sexta-feira à noite, Nicolás Maduro anunciou um plano de pacificação contra a violência na Venezuela, que registra uma das maiores taxas de homicídios no mundo. O plano apresentado inclui o desarmamento da população, maior vigilância policial e “normas claras para a televisão”. “São 10 linhas de ação que devem confluir na construção da paz e de uma autoridade pública com capacidade de proteger de verdade (...) Convoco todas as forças políticas, todos os governadores e prefeitos, todos os cidadãos”, afirmou Maduro em um discurso feito em Calvário, Oeste de Caracas.

O plano inclui “o início de uma nova cultura comunicacional para a paz” que, segundo Maduro, estabelecerá “normas claras para todas as televisões venezuelanas, a cabo e aberta”, disse, sem dar detalhes. O plano buscará, ainda, melhorar o sistema de vigilância policial e desarmar a população. Sobre isso, a opositora Mesa da Unidade Democrática exigiu do governo o desarmamento dos "grupos ilegais armados" do chavismo, a propósito das denúncias feitas sobre sua presença com armas de fogo nas manifestações estudantis de quarta-feira. Por outro lado, Maduro assegurou que as prisões venezuelanas, cenários de choques constantes entre bandos armados de presos que lutam pelo controle interno, serão incorporadas ao plano com a "conversão de todos os estabelecimentos carcerários em oficinas de trabalho, produção e educação obrigatórios".

Outra das linhas anunciadas foi a criação de uma brigada policial e militar "para investigar, combater e neutralizar grupos de narcotraficantes". Dados oficiais indicam que a taxa de homicídios na Venezuela registra 39 mortos para 100 mil habitantes. Mas a ONG Observatório Venezuelano da Violência calcula em 79 para 100 mil habitantes, a segunda mais alta do mundo, e calculou mais de 24 mil mortes em 2013.

CAPRILES

Usando a rede social, o líder da oposição, Henrique Capriles, governador de Miraflores, alertou ativistas, pedindo demonstrações pacíficas e foco nas dificuldades econômicas e sociais do país. “Os protestos não precisam ser anárquicos. Devem ser uma oportunidade para nos expressarmos e denunciarmos os grandes problemas que vivemos”, escreveu.

 

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