(none) || (none)
UAI
Publicidade

Estado de Minas

Ventos de mudança semeiam incerteza no Oriente Médio

Países que viveram as revoltas da Primavera Árabe derrubaram regimes autoritários, mas têm dificuldade para dar voz à pluralidade política e estabelecer a democracia


postado em 02/02/2014 06:00 / atualizado em 02/02/2014 07:49

Egípcia chora durante funeral de policial morto em atentado na cidade de Mansoura. Terrorismo islâmico ganhou mais força no país (foto: Mohamed Abd El Ghany/REUTERS - 24/12/13 )
Egípcia chora durante funeral de policial morto em atentado na cidade de Mansoura. Terrorismo islâmico ganhou mais força no país (foto: Mohamed Abd El Ghany/REUTERS - 24/12/13 )

Brasília
– Os ventos da Primavera Árabe arrastaram ditaduras e trouxeram ao Oriente Médio realinhamentos de poder, disputas pela hegemonia política, conflitos sectários e a ameaça de grupos fundamentalistas ávidos em formar um califado islâmico. Para especialistas, as mudanças enfrentadas pela região indicam que a transição para a democracia em países afetados pelas revoluções não será rápida, muito menos suave. Tunísia e Líbia tentam se acomodar nas bases de uma Constituição, enquanto o Egito flerta com o militarismo, depois de um golpe de Estado que lançou os islamitas na clandestinidade e acirrou as tensões no país. Na Síria, a guerra civil entornou o caldo do extremismo sobre nações vizinhas, como o Líbano e o Iraque. Irã e Arábia Saudita se aproveitam da instabilidade para reforçar a presença política e financeira, em um embate ideológico direto, com consequências imprevisíveis.

Cofundadora do Programa sobre Reforma Árabe e Democracia da Universidade de Stanford, Lina Khatib alerta para o aumento significativo das tensões sectárias no Oriente Médio, especialmente entre sunitas e xiitas. O fenômeno é mais evidente no Líbano e no Iraque. “Beirute presenciou uma série de atentados e contra-ataques em áreas sunitas e xiitas. Quanto mais embates sectários ocorrerem, menores as chances de os governos manterem a estabilidade”, afirmou por e-mail. Ela acusa as autoridades de fomentarem o caos, por meio da concessão de privilégios a determinados grupos.

Khatib crê que o Irã vem se tornando um dos principais atores regionais, ao influenciar a política no Iraque, no Líbano, na Síria e no Iêmen. "Em todos esses países, isso tem sido causa de instabilidade", comentou. De acordo com ela, os apoios do Irã ao Hezbollah, no Líbano, e ao regime de Bashar al-Assad, na Síria, insuflam as tensões sectárias. “O fenômeno é impulsionado pelo desejo de Teerã de ser visto como líder no Oriente Médio e de disseminar a ideologia da Revolução Islâmica. A Arábia Saudita rejeita a ascensão dos iranianos e se mostra desconfortável com as negociações entre o regime persa e o Ocidente.” Na opinião dela, a disputa Irã-Arábia Saudita fará com que o Oriente Médio entre em longa fase de instabilidade. Se os iranianos apoiam o Hezbollah e Al-Assad, os sauditas avalizam os militares no Egito e os rebeldes sunitas na Síria.

SINAIS POSITIVOS
Para Arshin Adib-Moghaddam, presidente do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Londres, a Síria tornou-se uma ferida aberta. “Ela virou um ímã para terroristas da Al-Qaeda, que lançaram uma guerra transnacional contra Estados e sociedades”, disse. Ele visualiza, no entanto, sinais encorajadores no Oriente Médio. “A Tunísia fez uma transição bem-sucedida da Primavera Árabe para uma democracia funcional. A perspectiva de reaproximação entre os EUA e o Irã promete estabilizar a política internacional da região”, aposta. Khatib concorda com Arshin sobre a Tunísia. “Os tunisianos podem estar divididos entre islamitas e secularistas, mas deixam suas divisões serem canalizadas por vias políticas, como a Assembleia Constituinte, em vez de derramar as tensões pelas ruas.”

Professora de política do Oriente Médio pela Escola de Estudos Africanos e Orientais (Londres), Laleh Khalili considera que a violência na Síria, na Líbia e no Iraque terá efeitos de longo prazo. “Há mudanças menos nítidas, como os realinhamentos de poder na Tunísia e as tentativas de restauração do controle militar no Egito. O público no mundo árabe percebeu que as velhas ordens, não importa quão sólidas pareçam, podem ser derrubadas.” De acordo com ela, a linguagem sectária tem sido útil para a mobilização de círculos eleitorais. “Algumas das queixas subjacentes aos conflitos incluem a exclusão histórica de populações e a pobreza”, afirmou. A analista destaca como importante o suporte político-financeiro da Arábia Saudita e do Catar para o Golfo Pérsico. “Ambos apoiam diferentes facções na Síria e a oposição líbia. No Barein, dão aval à monarquia. No Egito, o Catar aliou-se à Irmandade Muçulmana.”

Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, avalia que as mudanças se aceleraram com a Primavera Árabe. Ele analisa com preocupação o conflito Irã-Arábia Saudita. “Isso terá repercussões sérias a longo prazo, minará a estabilidade e vai mudar, drasticamente, as condições geopolíticas do Oriente Médio”, concluiu.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)