Jornal Estado de Minas

Islâmicos radicais atacam base da ONU e matam nove na Somália

AFP

Insurgentes da milícia somali Shebab, ligada à Al-Qaeda, atacaram uma base da ONU em Mogadíscio nesta quarta-feira, deixando nove mortos, sendo pelo menos seis funcionários da ONU, na ação mais grave contra a organização no país.

Segundo um funcionário local da ONU em Mogadíscio e uma fonte da organização em Nairóbi, que pediram para não serem identificados, os três estrangeiros mortos nesse ataque são um funcionário internacional da ONU e dois terceirizados de nacionalidade sul-africana.

Amboas eram assalariados da empresa pública sul-africana Denel, especializada em armamentos, segundo um comunicado dessa empresa encarregada da segurança do local atacado.

"Há certamente feridos e, muito provavelmente, mortos" entre os funcionários da ONU, limitou-se a indicar o representante da ONU na Somália, Nicholas Kay, em um comunicado, ressaltando que "a vasta maioria de (seus) empregados estava, felizmente, sã e salva".

Pelo menos três civis somalis também estão entre os mortos, depois de terem ficado no fogo cruzado entre os agressores e as tropas da União Africana, indicou à AFP Abdulahi Osman, oficial da Polícia somali.

O ataque, em que um número indeterminado de agressores conseguiu penetrar no prédio da ONU, chegou ao fim por volta das 13h15 (07h15 de Brasília) após cerca de uma hora e meia de combates.

O primeiro-ministro da Somália, Abdi Farah Shirdon, se referiu ao episódio como um "ataque desprezível e sem sentido a inocentes da ONU", e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se disse "chocado".

Os militantes do Shebab, que assumiram a autoria do ataque, usaram um carro-bomba e praticaram ataques suicidas para causar explosões que abriram caminho na base fortificada em Mogadíscio.

De acordo com o ministro somali do Interior, Abdikarin Hussein Guled, pelo menos sete membros da milícia estavam envolvidos no ataque. Todos morreram, ou por terem se suicidado ou por terem sido baleados.

Alertas vinham sendo feitos há semanas, e os funcionários da ONU faziam exercícios de segurança regulares, nos quais iam para um bunkers seguros dentro do complexo.

"Nossos comandos atacaram um complexo da ONU... Nós explodimos e entramos na base", disse uma liderança shebab à AFP, esclarecendo que o grupo agiu para atacar "as forças infiéis".

Tropas somalis e da União Africana entraram no complexo, enfrentando forte resistência dos islâmicos.

Um repórter da AFP viu vários corpos ensanguentados sendo carregados em macas improvisadas e informou que um intenso tiroteio começou depois de uma série de explosões, enquanto os militantes entravam em confronto com as forças de seguranças.

"Alguns dos 'kuffar brancos' (incrédulos) que tentaram lutar contra os mujahedines dentro dos escritórios foram mortos e jogados para fora do complexo", indicou o Shebab na sua página no Twitter.

O complexo - que inclui áreas residenciais e escritórios comerciais - está localizado próximo ao aeroporto e a segurança é feita por guardas particulares.

A capital da Somália tem sido alvo de vários ataques suicidas e com carros-bomba, embora nas últimas semanas a cidade estivesse relativamente calma.

Os militantes do Shebab chegaram a controlar a maior parte da capital, até que o grupo abandonou suas posições em 2011. Porém, os insurgentes vêm, desde então, realizando uma série de ataques contra o governo auxiliado pela ONU.

O último grande ataque foi praticado em abril, quando o Shebab enviou uma unidade suicida para explodir o principal complexo judiciário de Mogadíscio.

Alguns dos militantes acionaram seus coletes explosivos, enquanto outros abriram fogo em uma ação que matou 34 pessoas.

Relatórios sugerem que no ataque ao complexo da ONU foram utilizadas táticas semelhantes à da investida ao tribunal.

A força de 17 mil soldados da União Africana, que luta ao lado das tropas somalis, obrigou os militantes a deixar uma série de cidades importantes.

Apesar de divididos por lutas internas e de serem caçados por aviões americanos, os extremistas do Shebab continuam a ser uma forte ameaça, promovendo assassinatos e explodindo carros-bomba. Além disso, ainda são muito ativos nas zonas rurais e estão infiltrados nas forças de segurança.

O primeiro-ministro somali condenou os ataques. "A ONU é nossa amiga e parceira, e suas agências nos oferecem ajuda humanitária e suporte, então eu e todos os somalis estamos revoltados por eles terem se tornado alvos e vítimas de tamanha barbárie", afirmou em um comunicado.

Em 2008, um carro-bomba explodiu no complexo do Programa de Desenvolvimento da ONU no estado autodeclarado independente de Somaliland, deixando dois funcionários da organização mortos.