Jornal Estado de Minas

Fidelidade de grupo de oposição sírio à Al-Qaeda provoca inquietação nos EUA

Otacílio Lage
O recente juramento de fidelidade à Al-Qaeda feito pela Frente al-Nusra, um dos grupos de oposição mais ativos no conflito sírio, provocou grande inquietação nas potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, que apoiaram os rebeldes moderados nos fóruns internacionais, e aumentou o nível de alerta na fronteira norte de Israel, que teme que um vazio de poder facilite um ataque dessas células jihadistas, caso tomem o controle dos arsenais convencionais ou químicos do governo de Bashar al-Assad. O anúncio, feito formalmente pelo líder do ramo da Al-Qaeda no Iraque, Abu Baker al-Bagdadi, confirma que a Al-Nusra, chefiada por Abu Mohamed al Julani, e que tem como supervisor geral o xeque da jihad Ayman al-Zawahiri, além de ser uma extensão e parte do Estado islâmico do Iraque, pode estar com os pés bem fincados na Síria, que há dois anos vive um conflito entre forças do regime de Damasco e insurgentes.

No início de abril, o governo sírio pediu ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Umidas (ONU) que inclua a Frente al-Nusra em sua lista de organizações ligadas à Al-Qaeda e que exerça pressão contra “os países que apoiam o terrorismo na Síria para que ponham fim a essas práticas ilegais”. Assad, sempre que pode, afirma que todos os opositores dele são terroristas. Na opinião de Bruce Riedel, ex-assessor de segurança de Barack Obama e especialista em terrorismo no Instituto Brookings de Washington, na realidade, foi a repressão contra os contrários a Al-Assad que criou condições para que a Al-Qaeda entrasse na Síria, a partir do Iraque. “É uma profecia autocumprida. A Al-Qaeda aproveitou os dois anos de instabilidade no país árabe para se consolidar ali”, acentua.
No início deste ano, EUA e seus aliados europeus cogitaram agir para fornecer armas e equipamentos militares para os insurgentes sírios. Talvez por detectar a clara infiltração de homens da Al-Qaeda, na carona fornecida pela Al-Nusra, a ideia ficou em aberto. Mas Israel, cada vez mais preocupado com a presença de células da rede fundada por Osama bin Laden no país fronteiriço mergulhado numa guerra civil, resolveu agir, cumprindo a promessa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Recentemente, ele advertiu que suas opções sobre a Síria estão “entre o ruim e o pior”. Diante de um governo encurralado com o qual se encontra formalmente em guerra desde 1948 e uma oposição fragmentada, infiltrada por radicais, o governo de Telavive resolveu não esperar mais e destruir, em território sírio, depósitos de armas e munições – supostamente do grupo xiita libanês Hezbollah, que apoia Al-Assad – fornecidas pela Rússia e pelo Irã.

O temor de Israel é que, se Assad for deposto e seus arsenais acabarem nas mãos de um desses grupos jihadistas, estes poderão lançar um ataque contra o território judeu. Certo é que, se grupos como o Al-Nusra chegar a tomar o poder na Síria, haverá desestabilização da oposição, pois a maioria dela nem abraça a militância armada nem é radical. Assim, a oposição majoritária ficaria seriamente prejudicada. No início de abril, quando visitou Israel e a Jordânia, o presidente norte-americano, Barack Obama, revelou preocupação com a Síria, por ela estar se transformando em um “enclave para o extremismo”. Ante os ataques de Israel, urge que se promova ali a diferenciação clara entre os grupos rebeldes moderados e as milícias radicais. Mísseis israelenses podem matar os últimos, mas também muitos inocentes, como vem ocorrendo diariamente no país árabe.