Embora seja quase leviano encarar o conclave como uma votação política comum – a história mostra fazer muito sentido a tese de que "quem entra papa sai cardeal" –, esta é a hora em que grupos são formados, "bancadas" de países ou mesmo continentes se unem em torno de um candidato, e até campanhas, mesmo que de maneira discreta, acabam sendo feitas em favor de determinadas correntes.
A data para que os cardeais votem e tentem chegar a um consenso ainda não está definida. No entanto, a partir de amanhã, as congregações gerais, como são chamadas as reuniões pré-conclave, serão decisivas. No Vaticano, há quem acredite que a fumaça, branca ou escura, saia da chaminé pela primeira vez já na sexta-feira. Outros, como o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e um dos papabili, dom Raymundo Damasceno Assis (leia a entrevista), apostam em 11 de março como a data mais provável.
BRASILEIRO Para a italiana Franca Giansoldati, vaticanista do jornal Il Messaggero, o escolhido no conclave precisa ser um cardeal capaz de reformar a Cúria Romana. "Ele precisa levar a palavra de Deus para as pessoas, dar a evidência direta de um cristianismo encarnado", explicou, em entrevista ao Estado de Minas por e-mail. "A nova evangelização é a maior preocupação do colégio cardinalício hoje." Em seu site, o jornal La Stampa garantiu ontem que as chances do brasileiro dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, aumentaram nas últimas horas. Os cardeais Angelo Sodano, decano do colégio, e o italiano Giovanni Baattista Re estariam impulsionando o nome de Scherer para o trono de São Pedro. Ao lado de um papa brasileiro, eles gostariam de ver um italiano ou um argentino de origem italiana à frente do Vaticano.
"Creio que dom Odilo Scherer seja um dos candidatos principais ao papado. É um homem de profunda fé, de boa doutrina sólida, que tem demonstrado qualidades ao governar sua diocese", admitiu à reportagem o vaticanista Marco Tosatti, do jornal La Stampa. "Seu nome circula amplamente pelo Vaticano." Também cotado nos bastidores, o cardeal norte-americano Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, reagiu com polêmica aos rumores. Questionado pela jornalista Christiane Amanpour, da rede de tevê CNN, sobre o fato de ser um dos cotados para o cargo de pontífice, ele respondeu: "As pessoas que dizem isso devem estar bebendo muito conhaque ou fumando maconha".
Continua a fazer frio em Roma. Ontem, pela manhã, uma chuva fina caiu sobre o Vaticano. Acostumados ou não à baixa temperatura, que tem girado em torno dos 8 graus nos últimos dias, os cardeais estrangeiros consideram cansativa uma longa estadia na cidade e prometem pressionar para que os trabalhos avancem rapidamente, ainda que seja preciso respeitar trâmites burocráticos. Com a Sede Vacante, o nome de Bento XVI foi retirado da oração eucarística, e o Anel do Pescador usado pelo agora papa emérito, entregue à Santa Sé. (Colaborou Rodrigo Craveiro)