Jornal Estado de Minas

Partido islâmico entra em choque com o premiê e aprofunda crise

Rodrigo Craveiro

- Foto: KHALIL/AFP

Antes mesmo de o caixão com o corpo do líder opositor Chokri Belaid baixar hoje à sepultura, depois da Jumu’ah – a oração muçulmana do meio-dia –, o partido governista Movimento Ennahda pode ter enterrado a coalizão e provocado um terremoto político na Tunísia. A facção islâmica moderada rejeitou a decisão do primeiro-ministro Hamid Jebali de formar um novo governo de tecnocratas, anunciada depois do assassinato de Chokri, na noite de quarta-feira. "O premiê não pediu a opinião de seu partido. Nós, do Ennahda, acreditamos que a Tunísia precisa de um governo político agora. Continuaremos as discussões com outros partidos sobre a formação de um governo de coalizão", afirmou Abdelhamid Jelassi, vice-presidente do partido. Por sua vez, os sindicatos de trabalhadores da Tunísia convocaram para hoje uma greve geral, a primeira desde 1978, em protesto contra a morte de Chokri.

"Vivemos tempos difíceis, de incerteza política e de insegurança. Amanhã (hoje), por causa do funeral de Chokri, teremos um dia fatídico e de alto risco", disse o médico tunisiano Abdelmounen Samir, 53 anos, morador de Túnis. De acordo com ele, o confronto entre o Ennahda e Jebali sinaliza um Estado debilitado. "Esse governo está lascado e o Ennadha é muito fraco", opinou. "Trata-se de um regime apoiado pelo povo e com um primeiro-ministro fraco." Ontem, a polícia voltou a lançar bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes, na capital e na cidade mineradora de Gafsa (Centro), onde cinco ativistas e três policiais foram hospitalizados.

Para o cientista social tunisiano Noomane Raboudi, o Ennadha está empurrando o país para uma guerra civil. "Depois de um ato horrível como o assassinato de um oponente político, uma manobra inteligente seria a adoção da via diplomática, a fim de satisfazer a demanda da maioria. Em vez disso, o Ennadha escolheu o caminho da confrontação real", criticou, em entrevista por e-mail. "A Tunísia tem um governo incapaz de governar e que, mesmo assim, faz de tudo para permanecer no poder. Por sua estupidez política, o Ennadha está politizando a crise", ironizou. Ele acredita que o partido islâmico governista se fragmentou, criando um ambiente muito perigoso. "O premiê Jebali está isolado em seu próprio partido, além de mostrar-se fraco e desarmado ante a tendência radical do Ennahda, que busca monopolizar o poder a qualquer preço", observa.

legitimidade Professor de direito na Universidade de Ottawa (Canadá), o também tunisiano Jabeur Fathally admite que já esperava o comportamento do Ennahda. "Muitos membros do partido são contrários à proposta de Jebali, por entenderem que ela se opõe à legitimidade conferida pelas eleições. Eles se recusam a serem guiados por facções políticas que obtiveram somente 0,2% dos votos", comenta. Fathally explica que a crise política tem o componente de uma grave tensão envolvendo grupos internos do partido — especialmente entre os aliados de Lotfi Zitou, que abandonou o cargo de conselheiro do premiê, e os simpatizantes de Jebali. "Parece-me que o primeiro grupo, próximo de Rached Ghannoushi (líder do Ennahda), é mais poderoso. Não será surpresa se Jebali renunciar nos próximos dias."

A pressão sobre o Estado se intensificou nas últimas horas. O premiê não anunciou qualquer cronograma para a formação do novo governo e a oposição exigiu, ontem, a dissolução da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), incapaz de redigir a Carta Magna. "O governo já não consegue dirigir o país, nem a ANC. Devem renunciar no interesse do povo, da Tunísia e da estabilidade", declarou Beji Caid Essebssi, que comandou um governo pós-revolucionário em 2011 e hoje está à frente do partido Nidaa Tounès, de centro. Para Fathally, se Jebali atender os anseios do Ennadha, a crise política ficará restrita a uma disputa entre os islâmicos e grupos secularistas. "Caso o premiê dissolva o governo, haverá muitas disputas em um mesmo círculo de poder e a situação ficará muito complicada", aposta. O analista acusa a França de secretamente desmantelar e desestabilizar o governo do Ennahda. "Eu me pergunto se os serviços secretos franceses não têm informações sobre o assassinato de Chokri Belaid", afirma Fathally.