Jornal Estado de Minas

Venezuela vive clima de incerteza


Vinícius Pedreira
Especial para o Estado de Minas

 Brasília – Dois dias depois de o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, 58 anos, se submeter a uma delicada cirurgia contra o câncer, aumentaram ontem as dúvidas obre seu retorno ao poder. Apenas algumas horas após o anúncio sobre a possibilidade de o mandatário não reassumir seu posto, o ministro da Comunicação, Ernesto Villegas voltou a informar, ontem, sobre o estado de saúde de Chávez e confirmou complicações na operação: os médicos foram surpreendidos por um sangramento, mas teriam estancado a hemorragia. "Atualmente, o paciente está em recuperação progressiva e favorável dos valores normais de seus sinais vitais", completou Villegas. Na noite de quarta-feira, o ministro havia alertado a população sobre a complexidade do procedimento. No mesmo dia, o vice-presidente, Nicolás Maduro, garantiu que a cirurgia tinha sido bem-sucedida.

Em menos de 24 horas, o discurso do governo venezuelano mudou. "Acreditemos que, com o amor de milhões, o comandante se recuperará logo e assumirá o comando antes de 10 de janeiro. Se não for assim, nosso povo deve estar preparado para entender", disse Villegas.
As incertezas sobre o estado de saúde de Chávez tomaram proporções ante as declarações do médico José Rafael Marquina. Por meio de seu perfil no microblog Twitter, o venezuelano radicado em Miami afirmou que Chávez permaneceria entubado e sob respiração mecânica pelas próximas 72 horas.

Para analistas, as últimas mensagens parecem destinadas a preparar o povo venezuelano para o eventual afastamento do líder bolivariano do poder. Caso Chávez não possa assumir o cargo, a Venezuela realizará novas eleições dentro de 30 dias. A situação poderá confrontar Maduro, candidato designado como sucessor pelo próprio presidente, e Henrique Capriles, que, apesar de ter sido derrotado por Chávez nas eleições de outubro, saiu fortalecido com o melhor resultado da oposição dos últimos 14 anos.

De acordo com Paulo Sotero, diretor de Estudos sobre a América Latina do Centro Internacional Woodrow Wilson (em Washington), a conjuntura atual representa um importante processo de transição do governo de uma figura histórica e com forte apelo popular e uma boa oportunidade para a oposição. "O significado das atitudes governistas está em reconhecer a realidade e em aceitar a doença.

Não importa agora se foi um governo positivo ou não, mas vejo nas declarações uma forma de preparação para o que parece inevitável no momento", afirma.

Por sua vez, Pedro Cuenca – professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) – ressalva que a oposição precisa se qualificar e tem uma importante missão em saber como lidar com as críticas ao governo, entendendo a força simbólica do líder e a forte comoção popular. "Nessa fase de incertezas, surgem perguntas sobre qual o futuro do chavismo e da política venezuelana. Mas também é preciso refletir: a oposição está pronta para governar? O programa de Chávez não era apenas emoção, mas também programas e inserção social.", opina.

O dia de ontem foi marcado por preces e desejos de breve recuperação do presidente da Venezuela. Às 20h30 (hora de Brasília), órgãos de segurança pública celebraram uma missa na região de La Carlota, em intenção da saúde de Chávez. Citado pelo jornal venezuelano El Nacional, Jorge Galindo, diretor de imprensa do Ministério do Interior e Justiça, convocou mais de 3 mil funcionários para participarem da cerimônia. A doméstica Francisca Escalona, 45 anos, simpatizante do presidente, afirmou à agência Reuters que torce por sua recuperação. "Ele deve estar bem mal.

Penso que, às vezes, não podem dizer toda a verdade. Estou esperando e pedindo a Deus que não o leve", afirmou.

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