Brasília – Enquanto o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, atravessa um momento de fragilidade em decorrência de sua luta contra o câncer, a oposição vê um momento para consolidar sua força política. O líder ausentou-se de Caracas para se submeter a um tratamento, em Cuba, na última semana de campanha das eleições regionais, marcadas para domingo. A quarta cirurgia em 18 meses teve início no fim da tarde de ontem (hora local).
Até o fechamento desta edição, Chávez, de 58 anos, ainda estava na mesa de cirurgia. Mais cedo, porém, o presidente do Equador, Rafael Correa, por volta do meio-dia, afirmou que o líder venezuelano era operado "naquele instante". Correa chegou ontem ao seu país depois de visitar Chávez em um hospital de Havana, em Cuba, onde tem ido regularmente para se tratar desde a descoberta da doença. Por meio de comunicado transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão, o ministro de Comunicação e Informação, Ernesto Villegas, disse que o presidente estava "com muita força e inspiração, com a mente sempre focada no bem-estar do povo e no destino da pátria, mostrando absoluta confiança de que vencerá os obstáculos que têm surgido no caminho da vida". Na noite do último sábado, Chávez anunciou que o câncer havia voltado e que teria de passar por uma "cirurgia imprescindível" em Cuba.
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Diretor do Centro de Investigação em Políticas Comparadas da Universidad de Los Andes (em Caracas), Alfredo Ezequiel Ramos Jiménez, afirmou que se a oposição conseguir manter ou ampliar seu poder regional – atualmente, governa sete dos 24 estados –, demonstrará mais força para disputar uma nova eleição presidencial. Segundo o cientista político, a gravidade da doença de Chávez favoreceu os candidatos estaduais da oposição.
A situação é mais emblemática para Capriles, que governa Miranda, o segundo estado mais populoso e vizinho a Caracas. As pesquisas de intenção de voto apontam seu favoritismo. De olho no resultado dessa importante localidade, logo depois das eleições de outubro, Chávez designou o então vice-presidente Elías Jaua para enfrentar o opositor. No lugar de Jaua, assumiu o chanceler Nicolás Maduro, anunciado pelo próprio presidente o herdeiro do chavismo, no último domingo. Pela primeira vez, em 14 anos, um vice-presidente ocupa a Presidência da Venezuela interinamente.
Capriles foi escolhido candidato único de uma coligação de partidos opositores, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), criada para enfrentar o carismático presidente nas urnas.
Em mais de 14 anos no poder, Chávez personificou seu projeto político para a Venezuela. O pedido por unidade em torno de Maduro pode não ter sido suficiente para transferir seu capital político ao nome governista. Seu esforço para institucionalizar o que chamou de "socialismo do século 21" nos últimos dias pode ter ajudado a aplacar dúvidas sobre o vice, como afirmaram analistas políticos venezuelanos. Mas ele não sana todas as divisões, como salientou Jiménez, acrescentando que elas ficam evidentes entre os dois lados do chavismo, o civil e o militar. "Existem rumores na Venezuela apontando que o setor civil já estaria em conversações com a oposição", disse.
Desde o anúncio de Chávez reconhecendo a gravidade da doença, no sábado, a oposição culpou o governo por ter escondido a verdade.