Jornal Estado de Minas

RELIGIOSIDADE

Fiéis lembram 80 anos da morte do Padre Eustáquio, que viveu em BH


Dia de fé, homenagens e muitas orações para reverenciar a memória do Beato Padre Eustáquio, dono de uma legião de devotos na capital e no interior de Minas Gerais. Desde cedo, no Santuário Arquidiocesano da Saúde e da Paz, mais conhecido por Igreja Padre Eustáquio, na Região Noroeste de Belo Horizonte, os fiéis participam das missas, que, dessa vez, têm um motivo especial de reverência à memória do beato. Nesta quarta-feira (30/8), são lembrados os 80 anos da morte do religioso holandês, que viveu em BH e na Região do Alto Paranaíba (MG), e muitos fazem preces para o término do processo de canonização, em curso no Vaticano, que tornará o beato um santo da Igreja Católica.



Na Festa de Padre Eustáquio deste ano, com expectativa de cerca de 20 mil pessoas passando pelo santuário, está presente o postulador da causa de canonização, o padre polonês polonês Andrzej Lukawski, da Congregação dos Sagrados Corações, a mesma do beato. "Estamos esperançosos na canonização. Há dois casos de milagres em investigação, no Vaticano, pelo Dicastério da Causa dos Santos, um deles referente à cura de um jovem em Patrocínio (Alto Paranaíba)", explicou o postulador.

Da Holanda, vieram 12 parentes de Padre Eustáquio, incluindo os sobrinhos Will van den Boomen e Jan van den Boomen. Em Minas, o grupo tem como cicerone e intérprete o professor de geografia Hans Hendrikx, holandês de 80 anos, residente em BH. Uma novidade para os visitantes está no novo Museu do Padre Eustáquio, inaugurado hoje e em funcionamento no segundo andar do teatro ao lado do santuário. Will falou da alegria de estar em BH, e presenteou o museu com um painel, que mostra a escultura de Padre Eustáquio, na cidade natal dele, Aarle-Rixtel.
Nascido e criado no Bairro Padre Eustáquio, o prefeito de BH, Fuad Noman, participou da inauguração do Museu Padre Eustáquio, localizado no prédio do teatro, ao lado da igreja. Emocionado, ele disse que a Deus, por intercessão de Padre Eustáquio, é pelo fim de graves problemas sociais, como a fome, população em situação de rua e falta de moradia. "Nossa cidade é abençoada, e Padre Eustáquio deixou um legado de saúde e paz, além de muitas realizações." A exposição aberta ao público se chama "Padre Eustáquio: ao coração do povo".



Os fiéis acenderam velas e fizeram suas orações. "Padre Eustáquio é um símbolo de fé, harmonia e de bênçãos", disse o professor de luta Claydson Washington de Oliveira, ao lado sa mulher Tairine Lúcia Amorim e da filha Luna Vitória, de 2 anos. Também no memorial, a dona de casa Auxiliadora de Fátima Santos, de 69, contou que é devota do beato desde criança. "Aprendi a admirá-lo com minha avó, Raimunda, que conheceu o beato."

Milagre

À frente da programação do Dia de Padre Eustáquio, o padre Vinícius Maciel, vice-postulador da causa de canonização, explica que falta apenas o reconhecimento de um milagre para Padre Eustáquio se tornar santo. Entre os casos investigados pelo Dicastério para a Causa dos Santos, em Roma, está o de um jovem curado de um câncer, em Patrocínio, no Alto Paranaíba, cidade onde Padre Eustáquio morou de outubro de 1941 a fevereiro de 1942.

"O processo se encontra na fase final. Toda a parte histórica, documental, foi feita, e agora estamos pedindo a Deus que, pela intercessão de Padre Eustáquio, seja concedida a graça de um milagre, o que finalizaria o processo para ele ser declarado santo", diz o reitor do santuário, que é mestrando em ciência da religião na PUC Minas, em BH.



Celebrações

As missas começaram às 6h e irão até 19h, quando haverá a celebração solene seguida de procissão. Quem gosta das tradicionais barraquinhas, pode curtir as instaladas no pátio e no adro do santuário, com produtos e comidas. Na programação, há também o concurso fotográfico "Meu olhar nos 80 anos de Saúde e Paz", uma homenagem à saudação usual de Padre Eustáquio.

As celebrações começaram em 7 de abril do ano passado, quando se completaram oito décadas da chegada dele a BH, e prosseguem até 21 de julho de 2024, para festejar os 80 anos da criação da Paróquia dos Sagrados Corações. Para 2025, está prevista a comemoração do centenário da chegada de Padre Eustáquio ao Brasil.

Fiéis participam de missa na Igreja Padre Eustáquio (foto: Jair Amaral/EM/D.A.Press)

Evangelização

Nascido Huberttus van Lieshout, em 1890, em Aarle-Rixtel, no Sul da Holanda, e sepultado em BH em 1943, o beato Padre Eustáquio viveu durante quase 20 anos no Brasil, com passagens pela região mineira do Alto Paranaíba, especialmente Romaria e Patrocínio, Poá (SP) e BH - na capital, deu início ao templo transformado em santuário, do qual só viu pronta a maquete, e conduziu muitas obras sociais. Com fama de "milagroso" e querido pelo povo, tanto pelo carisma como pela generosidade em todos os sentidos, Padre Eustáquio já é considerado santo no coração de uma legião de católicos. "Ele traz a mensagem da paz, a mensagem da saúde em sentido bem amplo. Assim, seguir seu exemplo é, para nós, também ser mulheres e homens de paz, de reconciliação, de amor e de justiça", ressalta o pároco e reitor, padre Vinícius Maciel.



Vale destacar que o Santuário Arquidiocesano da Saúde e da Paz foi assim nomeado, em 2014, pelo arcebispo metropolitano de BH, dom Walmor Oliveira de Azevedo. Nas suas palavras, Padre Eustáquio, beatificado em cerimônia no estádio do Mineirão em 15 de junho de 2006, com público de 70 mil católicos, foi um "evangelizador notável, com presença terna e servidora entre todos, especialmente os mais pobres". Nesse momento, ele diz, "rememorar os 80 anos do falecimento de Padre Eustáquio é convite para se inspirar na vida desse bem-aventurado, missionário da saúde e da paz."
Segundo dom Walmor, a trajetória do beato marcou o coração do povo mineiro, em particular do belo-horizontino. "Padre Eustáquio saudava cada pessoa com votos de saúde e de paz, indicando pilares essenciais para uma vida digna. Pilares conquistados também pelo essencial caminho do cultivo da espiritualidade."

Os ensinamentos atravessaram décadas, ecoam com grande ajuda na evangelização dos novos tempos e servem de exemplo. "Vivo seus ensinamentos no meu ministério, também suplicando, em preces, para a vida de cada pessoa que encontro - para a vida de todos - copiosas bênçãos de muita saúde e paz." O exemplo de Padre Eustáquio constitui, explica o arcebispo, uma escola para aprender a seguir, com mais fidelidade, os passos de Jesus.



"Com sua bondade, seu jeito simples e acolhedor, o bem-aventurado se inscreveu, para sempre, no coração do amado Povo de Deus. Assim, ainda hoje, mesmo tantos anos depois de sua morte, suas lições continuam a ser transmitidas de geração a geração. Celebremos, todos, a vida de Padre Eustáquio, fortalecendo nosso compromisso de também buscarmos ser, sempre, missionários da saúde e da paz."

História

Em Aarle-Rixtel, no Sul da Holanda, ainda existe, e muito bem preservada nas mãos de descendentes, conforme constatou o Estado de Minas em visita em abril, a casa de fachada com tijolinhos à vista, que pertenceu ao fazendeiro Wilhelmus van Liesout (1850-1924) e Elisabeth van de Maulenhof (1859-1931). Desde pequeno, Hubertus (Humberto, em português), o oitavo dos 11 filhos do casal, desejava se tornar sacerdote, recebendo, ao ingressar no Seminário Menor da Congregação dos Sagrados Corações (SSCC), perto de completar 15 anos, o nome Eustáquio.

Inspirado no ideal missionário de São Damião de Molokai, Eustáquio professou votos temporários e perpétuos em 1915 e, quatro anos depois, foi ordenado sacerdote. Em 1925 veio para o Brasil como missionário, passando por Água Suja (atual Romaria) e Patrocínio, na Região do Alto Paranaíba), Poá (SP) e outras cidades do interior mineiro, além do Rio de Janeiro (RJ). Em 1942, chegou a Belo Horizonte, onde ficou por pouco mais de um ano e quatro meses.

Picado por um carrapato, Padre Eustáquio morreu em 30 de agosto de 1943, no Sanatório Minas Gerais (atual Hospital Alberto Cavalcanti), em Belo Horizonte. Sua fama de santidade se espalhou entre as pessoas, fazendo com que a Igreja abrisse o processo de beatificação treze anos após sua morte.