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Estado de Minas TRAGÉDIA EM CAPITÓLIO

Serrania, de 7 mil habitantes, para para enterrar família morta em Furnas

Polícia identificou as 10 vítimas da tragédia causada pelo desabamento de paredão no lago, no último sábado


11/01/2022 04:00 - atualizado 11/01/2022 07:07

As cidades mineiras de Serrania e São José da Barra amanheceram de luto pelas mortes de moradores em Capitólio, no Sudoeste de Minas. No sábado, as imagens de uma placa do paredão de rocha, no cânion em Furnas, que se desprendeu, atingindo a lancha Jesus, mostraram o desfecho trágico de famílias. A Polícia Civil identificou os corpos de Júlio Borges Antunes, de 68 anos; Camila Silva Machado, de 18; Mykon Douglas de Osti, de 24; Sebastião Teixeira da Silva, de 64; Marlene Augusta Teixeira da Silva, de 57; Geovany Gabriel Oliveira da Silva, de 14; Geovany Teixeira da Silva, de 38; Tiago Teixeira da Silva Nascimento, de 35; Rodrigo Álves, de 40; e Carmem Pinheiro da Silva, de 43, natural de Cajamar (SP). Quatro pessoas de uma mesma família foram sepultadas ontem em Serrania.

A tristeza que se espalhou, como a onda que se formou no lago com a queda do paredão chegou à pequena cidade de Serrania, de 7,5 mil habitantes. Era de lá o casal Sebastião e Marlene, pais de Geovany Silva e avós de Geovany Gabriel. Um passeio que era um momento de congraçamento tornou-se um infortúnio. A prefeitura decretou luto por três dias.

Sebastião, Marlene, Geovany Silva e Geovany Gabriel foram velados no Ginásio Poliesportivo Amélio Bueno da Fonseca e os enterrados no cemitério municipal em Serrania, a 181 quilômetros de Capitólio. O momento era para celebrar em família. Geovany Silva estava com a companheira Carmem Pinheiro, mãe de Camila, que estava com o namorado Maycon Douglas. Thiago era sobrinho de Sebastião.

Sebastião e Marlene tinham três filhos, sendo que o filho mais velho, Ernani, faleceu há dois anos. Agora, com a morte de Geovany, ficou apenas Angelita, que é casada e tem uma filha. Ernani também deixou uma filha, de 11 anos. Sargento reformado da Polícia Militar, Sebastião era muito querido no município.

Marlene colocava a família em primeiro lugar e gostava de celebrar aniversários e outros momentos em família. Trazia no perfil do Facebook a foto dos netos. No último aniversário, em dezembro, ela agradeceu pelas felicitações e disse que realizou todos os sonhos. "Passando pra agradecer a todos que tiraram um tempinho para tornar o meu dia mais feliz, me desejando feliz aniversário. Deus abençõe todos vocês e que Deus descubra seus sonhos e no tempo de Deus. Cumpri todos eles", escreveu ela no perfil das redes sociais. Marlene mostrava-se religiosa, compartilhando mensagens bíblicas.

Os quatro foram velados no ginásio poliesportivo da cidade até as 17h, quando ocorreu o sepultamento. “É triste. São quatro pessoas queridas da nossa cidade. Sebastião viveu a vida inteira em Serrania, construiu sua família aqui e era muito querido, e deixou apenas uma filha. É uma tristeza. Hoje foi um dia muito triste na nossa cidade. Demos total apoio para que o sepultamento ocorresse de forma digna a uma família que tanto se dedicou à nossa cidade”, disse o vice-prefeito Elton Bueno.

O ginásio poliesportivo foi escolhido como forma de homenagem à família, querida e admirada pela cidade, explica Elton. “Optamos, apesar de ter um velório recém-reformado, por velá-los no Ginásio Poliesportivo Amélio Bueno da Fonseca, onde preparamos o local para que os quatro corpos ficassem juntos. Fizemos um sistema de segurança levando em conta a COVID-19 e praticamente a cidade inteira deu uma passada por lá. Eles eram muito queridos. Mas eu nunca imaginei que prepararia o Poliesportivo para despedir de entes queridos da cidade.” A prefeitura decretou luto oficial pela família.

Jà Rodrigo Alvez, piloto que conduzia a lancha Jesus, era marinheiro experiente no Lago de Furnas. Natural de Betim, ele morava em São José da Barra, a 45 quilômetros de Capitólio. Também moravam no município de São José da Barra, Júlio e Thiago. O aposentado Júlio Borges Antunes foi a primeira vítima a ser identificada. Um sobrinho dele, Felipe Antunes, de 30, contou que era a primeira vez que o tio andava de lancha. Ele foi enterrado em São José da Barra.

Zema: um acidente “difícil de prever”

O governador Romeu Zema (Novo) disse que a tragédia em Capitólio, no Sudoeste de Minas Gerais, quando uma rocha atingiu uma lancha que navegava em um cânion e matou 10 pessoas, era "muito difícil de se prever". Ele deu a declaração, ontem, em São João Batista da Glória, cidade vizinha ao local do acidente e sede do Centro de Operações que integra as forças atuantes no caso.

"É algo inédito, que nunca aconteceu anteriormente. Nos últimos 100 anos, não sabemos de nenhuma ocorrência dessa. Então, seria algo muito difícil de se prever", disse, em entrevista coletiva. "[As mortes] poderiam [ser evitadas], da mesma forma que podemos evitar que nenhuma rocha venha a rolar de montanhas no Brasil", afirmou.

"O que aconteceu ali é o que acontece muitas vezes Brasil afora: uma rocha rola de determinada montanha sem nenhuma previsibilidade, atingindo um carro ou um caminhão e interrompendo a pista", observou ele. Segundo o governador, agora é preciso que autoridades relacionadas à segurança do local atuem para impedir novos casos.

"Se esse desmoronamento tivesse acontecido à noite, em outro momento, muito provavelmente a situação seria bem diferente da atual. Pode acontecer a cada 100 ou 500 anos, ninguém sabe, mas sabemos, agora, que é uma região sujeita a risco. Vai merecer análise técnica de geólogos e [outras] pessoas, que podem colocar, ali, nível de risco aceitável – ou não", pontuou, mencionando as investigações conduzidas pela Marinha do Brasil e pela Polícia Civil estadual. "Quando cai um raio, quem é o responsável? É o prefeito?", comparou.

Zema falou sobre a necessidade de exigir "cuidado adicional" na navegação em Capitólio. Ele defendeu que, em épocas de chuvas intensas, como em janeiro, haja a imposição de restrições que impeçam os navegantes de chegarem perto dos paredões. A água dos temporais se infiltrou no maciço rochoso e ajudou a diminuir a resistência da pedra.

"Queremos viabilizar o turismo com segurança. É possível, sim", garantiu Zema, citando paredes de gelo vistas de longe por embarcações que navegam nas águas da Argentina e do Chile, por exemplo. (Guilherme Peixoto)
 


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