Jornal Estado de Minas

TRADIÇÃO DE NATAL

Papais Noéis da Grande BH ganham até R$ 8 mil só no dia 24 de dezembro

"Ho, ho, ho! Um feliz Natal a todos!", deseja José Eustáquio Starling, que encarna o Papai Noel em um shopping no Centro da capital mineira. A gargalhada nunca foi tão genuína. Após 20 meses de isolamento, o profissional está de volta aos eventos natalinos, com agenda lotada desde o início de novembro até as 23h de hoje. "O encantamento de uma criança diante da gente é algo indescritível, não tem dinheiro que pague", comenta o aposentado, que interpreta o personagem há 9 anos.



Os ganhos proporcionados pela atividade, contudo, sem dúvida, animam os bons velhinhos de BH e região, que cobram até R$ 2 mil por meia hora de entretenimento no dia 24, data em que são mais requisitados. Em pouco mais de 40 dias de trabalho, alguns chegam a embolsar R$ 20 mil.

O dinheiro é certamente "suado". Nos tronos dos shoppings, carros de desfile e festas diversas, Papais Noéis encaram jornadas de até 12 horas, sete dias por semana. Além disso, sacrificam a ceia de Natal com a própria família.

"Garanto que vale muito a pena. E não é pelo dinheiro que, claro, é muito bem-vindo. Não conheço um único Papai Noel que não goste do que faz. Grande parte, inclusive, começa atuando voluntariamente. É muito gratificante", ressalta Starling, de 74 anos. "Mas é uma maratona e tanto, a gente tem que se preparar", completa o idoso, que atua no shopping do centro desde 7 de novembro, das 9h às 21h, incluindo sábados, domingos e feriados.





O contrato vai até as 16h de hoje. Pouco depois de sair do estabelecimento, ele conta que atenderá a mais cinco clientes. São famílias que o procuraram para a entrega de presentes à criançada. As visitas foram marcadas entre 19 e 23h, com duração média de 30 minutos.

"Chego em casa bem cansado. Só vou curtir o Natal com os filhos e netos no dia 25, quando fazemos um almoço", diz o intérprete, que faz mistério sobre os valores negociados em suas apresentações. 

Marcos Gomes, de 76 anos, encarna o Papai Noel há 11. Agora, ele ganhou a companhia da mulher, Glória Maria, de 67, como Mamãe Noel (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
A Associação dos Papais Noéis (Aspanoeis), no entanto, estima que, em 24 de dezembro, um encontro de meia hora com o velhinho varia de R$ 600 a R$ 2 mil, dependendo do horário. Quanto mais próxima do horário tradicional da ceia, ou seja, da meia-noite, mais cara a experiência. Quatro encontros como os agendados por José Eustáquio, portanto, podem render até R$ 8 mil. Já nos shoppings, a remuneração pela temporada de cerca de 45 dias vai de R$ 6 mil a R$ 20 mil.





"Os valores cobrados aqui em Minas ainda estão bem abaixo do mercado de São Paulo. Por lá, um encontro de meia hora com o Papai Noel no dia 24 não sai por menos de R$ 2,4 mil", compara Marcos Henrique Gomes, presidente da Aspanoeis.

Ele comemora o retorno das atividades lúdicas do Natal, vetadas em 2020 em função da pandemia. "Este ano foi melhor para nós. Ano passado, só podíamos trabalhar por videochamada, o que deixa a experiência bastante limitada. O contato presencial com as crianças, ainda que com normas de segurança e distanciamento, é muito mais rica", avalia Gomes, de 76 anos e que performa o ícone da Lapônia há 11 anos.

Para minimizar o risco de transmissão do novo coronavírus, na maioria dos estabelecimentos a tradicional fotografia das crianças no colo do Papai Noel foi substituída por "tchauzinho" a 1,5 metro de distância, com uso obrigatório de máscaras. Medida necessária, já que os profissionais são idosos - portanto fazem parte do grupo de risco para a doença - e lidam com o público infantil, que ainda não foi imunizado.





Encontro com as crianças

Adalberto Ferreira, de 56, foi a Monte Verde a convite de uma agência trabalhar como Papai Noel. Ele diz que ganhou 3 vezes o valor que, normalmente, ganharia atuando em shoppings (foto: Tom Araujo/Divulgação)
As restrições não parecem ter abalado o encantamento das crianças pelo astro natalino. Que o diga Adalberto Ferreira, que mora em BH e foi a Monte Verde representar o lendário personagem, a convite de uma agência da cidade.

"Não posso abraçar as crianças, nem chegar muito perto delas, mas o brilho no olho é o mesmo. Muitas, inclusive, me contaram histórias que me emocionaram. Uma menina, por exemplo, quando eu perguntei o que ela gostaria de ganhar do Papai Noel, respondeu: 'Não quero nada, eu estava doente e sarei, já ganhei meu presente'. Os pais dela depois me explicaram que ela havia superado um câncer", relata o profissional de 56 anos, no ramo há cinco. 

Outros três "velhinhos", contratados pela mesma agência, circulam pelo município - um investimento considerável. Só Adalberto ganhou R$ 20 mil pelo serviço, que inclui jornadas de 13h às 19h na Casa do Papai Noel, de sexta a domingo.



"Aqui mesmo consegui um outro trabalho para cobrir minha hospedagem. A empresa paga as diárias do hotel em que estou instalado de sexta a domingo. Para cobrir os demais dias, acertei com o hoteleiro um 'café com o Noel' pela manhã, além de uma apresentação na ceia que ele deve oferecer no dia 24", diz Ferreira.

O médico veterinário Helvécio Gama está no ramo dos Papais Noeis desde 2019. (foto: Tulio Santos/EM/D.A.Press)
Fora dos recessos de fim de ano, o profissional trabalha como atendente de farmácia. Segundo o profissional, a preparação para viver o bom velhinho começa ainda no primeiro semestre do ano. A barba deixa de ser aparada a partir de maio. "Já a barriga do Papai Noel, eu cultivo há muitos anos. Peso 115 quilos!", brinca.

Novato da seara barba branca, Helvécio Gama Filho, de 58 anos, precisou investir em uma "pança" postiça. Médico Veterinário, ele tenta emplacar um nicho específico de atuação - o de fotos com pets.





"O serviço ainda não tem muita procura, mas acredito que pode se tornar popular", aposta o profissional. Nesta noite de Natal, ele projeta ganhos mais modestos que os colegas veteranos. "Acredito que uns R$ 3,8 mil. Ainda estou acertando visitas", estima.

Mamãe Noel também tem espaço

Outro nicho que vem ganhando espaço é o das Mamães Noeis ou Noeletes. O presidente da Aspanoeis, Marcos Gomes, diz que, há pouco tempo, elas quase não eram requisitadas e, quando trabalhavam, costumavam fazê-lo de forma voluntária.

"Hoje, a procura aumentou bastante. As próprias crianças sentem falta delas", afirma o dirigente, que estuda modificar o estatuto da associação para incluir as personagens femininas.

Ele mesmo atua ao lado de uma. Glória Maria é sua mulher e companheira de trabalho. "Este ano, fomos contratados em dupla pela Prefeitura de Contagem. Ano que vem, já sondaram para eu voltar. Aos poucos, vamos conquistando espaço. Os tempos mudaram, e as crianças têm buscado representatividade feminina", reflete a aposentada.

audima