Jornal Estado de Minas

PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Templo interditado há 12 anos em cidade mineira enfim será restaurado

Do piso ao forro, passando pela parte externa, construção histórica clama por socorro (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 

 

Alvorada de Minas – Maria José prepara os foguetes, Silvânia abre o maior sorriso e Eli fortalece a corrente de confiança formada ainda por dona Ladica, Maria Efigênia, Ana Flávia e outros moradores de Itapanhoacanga, em Alvorada de Minas, na Região Central, a 210 quilômetros de Belo Horizonte. Após mais de três décadas de incertezas e 12 anos de interdição do seu principal templo católico, a comunidade verá, finalmente, o início da restauração da Igreja São José, do século 18, em visível estado de deterioração.





 

“Neste ano dedicado a São José, não poderia haver nada melhor. Esta igreja é minha família, minha casa, minha comunidade”, alegra-se Geralda Maria Ferreira de Souza Pimenta, a dona Ladica, oficial do cartório de registro de ofícios e notas, ministra da eucaristia e apaixonada pelo monumento de fé. Em uma manhã de tempo fechado, dona Ladica se emocionou, diante do templo, ao falar sobre a longa trajetória de dificuldades.

 

“A situação nos causa muito sofrimento, pois a igreja, além da celebração de missas, casamentos e batizados, sempre foi o local da catequese, das reuniões dos moradores, enfim, o único ponto de encontro de todos nós. Minha mãe, Geralda Majela, tocava o órgão musical, meus filhos foram batizados aqui”, contou dona Ladica, no adro da igreja, ao lado do marido Eli Pimenta e da filha Ana Flávia Ferreira de Souza Pimenta. “Seu Pedro morreu levando consigo a tristeza de não ver a igreja reaberta. Ele veio aqui a vida inteira, mesmo quando as portas estavam fechadas. Ficava olhando do lado de fora”, lembrou a ministra da eucaristia.

 

Geralda de Souza Pimenta, a dona Ladica, renova a expectativa na reforma do templo: "Minha família, minha casa, minha comunidade" (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 

 

Pedro de Carvalho Filho, ao qual dona Ladica se refere, teria hoje, se vivo, 93 anos. Ele foi uma das pessoas entrevistadas pelo Estado de Minas, em 1999, em reportagem que já naquela época denunciava o quadro lastimável da construção histórica (leia abaixo). Nove meses depois, quando começaram os serviços emergenciais a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pelo tombamento em 29 de setembro de 1971, ele saudou o feito.





 

Também satisfeita com a restauração da Igreja São José, que terá investimento de R$ 4 milhões da mineradora Anglo American e previsão de início das obras neste mês, a professora Silvânia Maria Moreira de Oliveira Reis prefere não culpar ninguém pela degradação e apostar na conservação permanente. “Somos todos responsáveis pelo bem, pois é coletivo. Viveremos nova etapa, e cabe à nossa comunidade, de agora em diante, preservar da melhor forma possível o patrimônio”, afirmou.

 

 

Serviços

Do piso ao forro, passando pela parte externa, construção histórica clama por socorro (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 

 

A igreja receberá obras civis e restauração artística, além do sistema de proteção contra descargas atmosféricas, alarme e proteção contra incêndios e serviços hidrossanitário e de sonorização. A previsão é de que o trabalho dure 18 meses. Com acompanhamento do Iphan, as intervenções terão à frente o Instituto Flávio Gutierrez.

 

A superintendente do Iphan em Minas, Débora do Nascimento França, informa que o objetivo da autarquia federal é sempre valorizar o patrimônio por meio dessa e de outras obras de restauração e requalificação. “A Matriz de São José de Itapanhoacanga é uma representante singular da arquitetura religiosa de Minas, de grande riqueza e importância para o Brasil.”





 

Titular da Paróquia Santo Antônio, em Alvorada de Minas, padre Dário Vieira destaca a importância do templo para os católicos e também fiéis de outras religiões que vivem em Itapanhoacanga. “Cheguei aqui há seis anos, e a igreja estava fechada. Vejo a ansiedade das pessoas para terem de volta sua igreja, que é muito bonita e tem tantas histórias, muitas delas ligadas aos pais e antepassados de morasdores”, afirmou o pároco. Dependendo da situação sanitária, padre Dário, que deixará a paróquia em novembro, pensa em celebrar missa para marcar o início da obra.

 

Memória


Batalha de décadas

 

Décadas de abandono e apelos de moradores marcam a igreja (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 

 
Em 2 de maio de 1999, o Estado de Minas publicou reportagem denunciando a degradação da Igreja São José de Itapanhocanga, em Alvorada de Minas, na Região Central. Unidos na porta do templo, os moradores davam seus “gritos de esperança”, conforme o título da reportagem, pedindo providências urgentes das autoridades para a construção não ruir.
 
Estavam lá Geralda Maria Ferreira de Souza Pimenta, a dona Ladica, e outros. A foto que tão bem ilustra a reportagem não pode ser repetida em tempos de pandemia, embora o sentimento seja idêntico.
 
“Alguns morreram, outros cresceram e se mudaram, mas a luta é a mesma”, conta a professora Silvânia Maria Moreira de Oliveira Reis, sempre presente às mobilizações pelo restauro da edificação.




 
No ano seguinte, em 26 de março de 2000, o EM publicou nova reportagem, naquela oportunidade sobre os serviços emergenciais executados pelo Iphan, iniciados havia um mês.
 
Junto aos operários, moradores voluntários marcavam presença e, sob a orientação dos técnicos, ajudavam a fazer tijolos de adobe. Da vizinhança, chegavam pessoas a cavalo para ver o andamento da obra. Passadas duas décadas, está na hora, mais uma vez, de salvar um patrimônio de Minas e deter um dos seus maiores inimigos: a falta de preservação.
 
Geralda de Souza Pimenta, a dona Ladica, renova a expectativa na reforma do templo: "Minha família, minha casa, minha comunidade" (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 

Silêncio, abandono e invasão de maritacas 

 
Do piso ao forro, passando pela parte externa, construção histórica clama por socorro, que chega após décadas de abandono e apelos de moradores (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
 
 
Edificada em meio a um gramado, tendo à frente um muro de arrimo de pedras, a Igreja São José, vinculada à Diocese de Diamantina, vive em permanente estado de silêncio, algumas vezes quebrado pelo barulho de maritacas atravessando a nave. Para evitar a invasão de pássaros, foram colocadas telas cobrindo os óculos laterais (aberturas na fachada), mas, pelo visto, as aves encontraram novas entradas.

Na companhia de Silvânia e dona Ladica, a equipe do EM revisitou o templo, concluído em 1785 como capela filial da matriz da Vila do Príncipe, atual Serro, no Vale do Jequitinhonha. A tela do celular vai iluminando um corredor até a equipe se deparar com a imagem de Senhor dos Passos, com a veste branca, sobre um andor. “Só ficou essa imagem aqui, as outras foram levadas, com segurança, para Alvorada de Minas”, explica Silvânia, referindo-se à sede do município, que fica a 16 quilômetros. Mostrando a base da peça sacra, dona Ladica conta que, há pouco tempo, notou que algo ali se movia: “Enxerguei uma cobra preta e amarela, me falaram que bem venenosa. Chamei meu marido e ele espantou o bicho”.





A história recém-contada mostra que todo cuidado é pouco ao pisar, pois há madeiras bem estragadas. Por onde se olha, estão marcas enormes de infiltração e mofo, algumas perto do crucifixo na parede, testemunha de outros tempos, assoalho quebrado, pedaços de esteios jogados num canto, um antigo extintor de incêndio sem utilidade, tudo envolto pelo vazio incômodo. “Os elementos artísticos estão embalados e guardados em caixas”, revela Silvânia.

Um dos orgulhos dos moradores de Itapanhoacanga, palavra que significa “Serra da Cabeça Preta”, em tupi-guarani, está no forro datado de 1777, feito por Manuel Antônio Fonseca a mando do capitão José Pereira Bonjardim. As pinturas mostram passagens da vida de São José, esposo de Maria, pai adotivo de Jesus, padroeiro universal da Igreja Católica, protetor das famílias, dos trabalhadores e dos órfãos. “Temos muita devoção com São José”, ressalta dona Ladica.

Na porta das casas, a satisfação ganha terreno. As irmãs Maria José Ferreira de Souza e Maria Efigênia de Ferreira de Souza chamam os repórteres para tomar um café com biscoito polvilho, mas o adiantado da hora e a chuva adiam a visita. “Mas vocês virão para o início das obras, né? Aí, teremos bolo também”, convida Maria Efigênia, com muito gosto. Entusiasmada na mesma medida, Maria José, que trabalhou 19 anos na Igreja São José, atual Santuário São José, no Centro de BH, avisa que já está comprando foguete para comemorar o início das obras. “Precisa ter foguetório. Estou esperando a restauração há 32 anos.”





HISTÓRIA De acordo com estudos do Iphan, a Igreja São José de Itapanhoacanga foi erguida como capela filial da matriz da Vila do Príncipe (atual Serro), tendo sido concluída, provavelmente, em 1785, já que em 1787, Manuel Antônio da Fonseca foi contratado para executar a pintura em painéis no forro da nave. Os forros, tanto da capela-mor quanto da nave, têm forma abobadada, sendo que o segundo apresenta bela pintura decorativa composta por 12 painéis de formato retangular.

Itapanhoacanga, localidade com cerca de 1,7 mil habitantes e antes pertencente ao Serro, passou a  fazer parte de Alvorada de Minas em 1962. Por muito tempo, foi pouso no Caminho dos Diamantes e da Estrada Real na ligação de Diamantina com Ouro Preto. 

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