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Estado de Minas

Vacina a conta-gotas acende alerta na saúde

BH pode imunizar 50 mil pessoas por dia, mas tropeça no baixo estoque, diz Kalil. Conselho de secretários teme piora no cenário em todo o país


11/05/2021 04:00 - atualizado 10/05/2021 23:40

Muitos levaram cadeiras plásticas para enfrentar a fila com mais conforto no Centro de Saúde Menino Jesus, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Muitos levaram cadeiras plásticas para enfrentar a fila com mais conforto no Centro de Saúde Menino Jesus, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

 

 

 

O ritmo de vacinação segue a passos de tartaruga por todo o Brasil e Belo Horizonte não fica de fora desse cenário. A causa: a escassez de doses, sustenta o prefeito Alexandre Kalil (PSD). A capital mineira tem apenas 13% do público-alvo – composto por mais de 2 milhões de pessoas com idade superior a 18 anos – com esquema vacinal contra a COVID-19 completo – ou seja, primeira e segunda doses aplicadas. Só com a primeira, 30,6%. Ontem, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) disse que as equipes de saúde da prefeitura estão aptas a vacinar até 50 mil pessoas por dia contra a doença, desde que haja imunizantes, que têm chegado a conta-gotas. Problema que também preocupa secretários de Saúde de todo o país e faz o conselho nacional da área alertar para piora no panorama de vacinação.

 

A declaração de Kalil foi feita durante participação na sessão especial de prestação de contas do Executivo à Câmara Municipal. "Temos postos de saúde, pessoal qualificado, mas falta chegar as vacinas", afirmou o prefeito, em reunião virtual na qual respondeu questionamentos dos vereadores sobre ações da gestão em 2020 ao longo da pandemia do novo coronavírus e planos de recuperação da cidade.

 

Desde o início da vacinação contra a COVID-19, Belo Horizonte recebeu 1.148.741 doses de vacinas – CoronaVac, AstraZeneca e Pfizer – e distribuiu, segundo boletim de ontem, 1.050.885. Foram aplicadas 624.395 injeções de primeira dose e 265.401 de reforço. A prefeitura divulga apenas o total de doses aplicadas, e não as administradas por dia. Entretanto, comparação entre os dados dos boletins aponta a instabilidade nas imunizações de acordo com a disponibilização de doses. E não é por falta de interesse da população, haja vista as filas que se formaram no fim de semana e ontem (leia texto ao lado).

 

“As equipes já chegaram a imunizar cerca de 30 mil pessoas na mesma data”, disse a prefeitura ao Estado de Minas, por meio de nota. O texto lembra ainda que um grupo só é convocado quando há doses suficientes para garantir a vacinação de todo o público. Além disso, lembra que os imunizantes estão sendo enviados fracionadamente pelo Ministério da Saúde.

 

Uma comparação entre as aplicações registradas no boletim da prefeitura sobre a COVID-19 dão uma ideia da instabilidade. Na quinta-feira passada, quando foram vacinados os trabalhadores da saúde com idade de 18 a 39 anos, mesmo grupo do dia anterior, o número total de doses aplicadas registradas nesse documento chegou a 44.077, não necessariamente administradas no mesmo dia.  Já na sexta-feira, quando foram aplicados imunizantes destinados exclusivamente a pessoas com síndrome de Down ou deficiência física permanente, gestantes e puérperas com comorbidades,  o número ficou em 18.852. Na terça, vez de idosos de 60 anos, o boletim havia registrado imunização de apenas 4.273 pessoas. Vale lembrar que grupos que aguardavam a segunda dose da CoronaVac não puderam completar o esquema vacinal na semana, por falta dessa vacina.

 

SINAIS DE PIORA A escassez de imunizantes no Brasil preocupa gestores de saúde pública. De acordo com o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Carlos Eduardo Lula, há possibilidade de piora nesse cenário nos próximos meses. Em entrevista à CNN ontem, ele disse que uma terceira onda no país aliada a uma nova cepa seria “um desastre”. “Infelizmente isso ainda pode piorar nas próximas semanas. A gente acredita que a partir de julho devemos acelerar o processo de vacinação, mas, até lá, teremos muitos problemas”, afirmou.

 

A remessa atrasada ao Brasil do principal insumo para a produção das vacinas CoronaVac e AstraZeneca, o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), também preocupa. Segundo Carlos, as declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a China, na semana passada, causaram “muita preocupação”, já que o país é “o principal fornecedor de insumos para os imunizantes”.  O presidente do Conass se referia a discurso em que Bolsonaro sugeriu que o vírus teria sido desenvolvido intencionalmente pelo país asiático, numa suposta “guerra química”.

 

O presidente do Conass defendeu que o Brasil institua barreiras sanitárias em portos e aeroportos para impedir a entrada de variantes do coronavírus. “Fizemos um pedido para posicionamento (sobre as barreiras sanitárias) com urgência para o Ministério da Saúde e a Anvisa, mas nenhum se pronunciou. (Neste momento) tem de se ter menos burocracia e mais agilidade”, disse Carlos Lula.

 

CALENDÁRIO No decorrer desta semana, continuam a ser vacinadas pessoas com comorbidades que preencheram o cadastro no portal da prefeitura até 3 de maio. Além deles, os idosos de 67 anos poderão receber a segunda dose da CoronaVac. Nesse caso, há atraso, decorrente da lentidão da entrega de imunizantes. E a PBH informa que “o chamamento para aplicação da segunda dose de CoronaVac para outras faixas etárias está condicionado ao recebimento de novas remessas pelo Ministério da Saúde.”

 

Hoje o dia é reservado para pessoas com comorbidade de 54 e 53 anos completos até 31 de maio; e pessoas com deficiência permanente beneficiárias do programa Benefício de Prestação Continuada (BPC) de 45 a 54 anos. Amanhã, quem recebe a primeira dose são as pessoas com comorbidades de 50, 51 e 52 anos; gestantes e puérperas acima de 40 anos.

 

Além de ter preenchido o cadastro no site, é necessário reunir documentos como exames, receitas, relatório médico e/ou prescrição médica. Esses documentos devem conter o número do registro do respectivo conselho de classe, de forma legível, e ter sido emitido em até 12 meses antes da data do cadastro. A vacinação para esse público será em pontos fixos exclusivos, das 8h às 16h. Os endereços dos pontos de vacinação estão disponíveis no portal da Prefeitura (pbh.gov.br).

O cadastro de pessoas com comorbidades, gestantes e puérperas será reaberto nesta quinta-feira, dia 13, e fechará novamente no domingo, dia 16. Não há expectativa de data para vacinação dos próximos públicos.

 

IMUNIZAÇÃO EM BH

 

População residente em BH: 2.521.564

Público-alvo da vacina (população com 18 anos ou mais): 2.037.913

Percentual do público-alvo vacinado com a 1ª dose: 30,6%

Percentual do público-alvo vacinado com a 2ª dose: 13%

 

Fonte: PBH 

 

Rui Tsukuda apresenta documentos para a vacinação: espera cercada de aflição depois da perda de amigo infectado pelo novo coronavírus(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Rui Tsukuda apresenta documentos para a vacinação: espera cercada de aflição depois da perda de amigo infectado pelo novo coronavírus (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

 

Nem ampliação de postos evita filas

 

Nathalia Galvani*

 

Mais um dia de vacinação contra a COVID-19 movimentado em Belo Horizonte. Ontem, a campanha foi realizada das 8h às 16h, para pessoas com comorbidades com idades entre 55 e 56 anos completos até 31 de maio. Mesmo após a prefeitura da capital mineira ter ampliado os pontos de imunização para tentar evitar o acúmulo de pessoas, as longas filas dos que aguardavam ansiosos para receber o imunizante continuam. No Centro de Saúde Santa Rita, no Bairro São Pedro, por exemplo, a reportagem do Estado de Minas encontrou, na manhã de ontem, uma fila com cerca de 60 pessoas.

 

Giancarlo Ferreira de Carvalho, de 56, teve que aguardar duas horas do lado de fora da unidade de saúde até conseguir ser vacinado, mas não reclamou. Para ele, que sofre de pressão alta, a imunização significa tirar um peso das costas. “Só de saber que vamos ser vacinados ficamos satisfeitos. Temos que ter um pouco de paciência também. Já perdi amigos para a COVID-19, hoje para mim é uma vitória”, relatou.

 

Para Rui Tsukuda, a espera pela imunidade demorou um pouco menos, cerca de 40 minutos. Como grupo de risco, ele contou ao EM como foi vivenciar momentos de aflição com o receio de ser infectado com o novo coronavírus, principalmente após perder um amigo para a doença, que apresentava o mesmo quadro de saúde que ele. Tsukuda solicitou à reportagem que sua comorbidade não fosse citada.

 

"Semana passada, perdi um amigo meu em Sorocaba por conta disso. Nós desenvolvemos a forma mais grave, as cepas estão perigosas para pessoas que não são tão velhas, mas nem tão novas também" disse. Para Rui, a sensação de segurança é maior, apesar de ter recebido ainda somente a primeira dose da vacina. "Agora é vida. Tenho mais esperança de que, se pegar a doença, seja de forma mais leve. A maioria acha que é só uma gripezinha, mas se alguém do grupo de risco se contamina fica pesado", comentou.

 

No Centro de Saúde Menino Jesus, no Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul da cidade, o cenário de intenso fluxo de pessoas foi visto desde sábado, dia que reservado para a imunização das pessoas com comorbidades de 57, 58 ou 59 anos. Ontem, já prevendo a situação, algumas pessoas levaram até mesmo cadeiras plásticas para aguardar na fila até chegada sua vez para receber a primeira dose da vacina.

 

* Estagiária sob supervisão da subeditora Ellen Cristie

 

Prefeito troca farpas e “receita palmada”

 

Guilherme Peixoto

 

A prestação de contas do prefeito Alexandre Kalil (PSD) aos integrantes da Câmara Municipal de Belo Horizonte, ontem, foi marcada por troca de farpas entre o chefe do poder Executivo municipal e alguns vereadores. Enquanto detalhava a execução do Orçamento do ano passado, Kalil subiu o tom contra um parlamentar bolsonarista, divergiu de correligionários de Romeu Zema (Novo) e até mesmo se desculpou por uma “questão familiar”.

 

No momento mais tenso, esteve Nikolas Ferreira (PRTB), apoiador ferrenho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e crítico contumaz do prefeito. Com Fernanda Pereira Altoé (Novo), demonstrou irritação por comparações ao governador mineiro, Romeu Zema, do mesmo partido. Na vez de Marcela Trópia, outra correligionária do governador, houve alfinetadas diretas no ocupante do Palácio Tiradentes.

 

O Estado de Minas resume os principais “rounds” do encontro.

 

PALMADAS A “treta” mais quente teve Nikolas Ferreira como um dos protagonistas. Defensor do fim das restrições econômicas impostas pela pandemia de COVID-19, o parlamentar teceu críticas a Kalil. “Você não tem diálogo, planejamento, nem previsão para esta cidade. Eu tenho pena dos belo-horizontinos que têm o senhor como prefeito dessa cidade”, reclamou.

 

Em março, o vereador, de 24 anos confundiu o filho do prefeito com um empresário que estava em uma praia ao criticar as medidas de restrição do comércio. O erro de Nikolas nas redes sociais foi lembrado por Kalil. “Você, vereador, é o que fez a fake news com meu filho, não é isso? (...)Você não deve respeitar nem seu pai e sua mãe”, disse Kalil.“Braveza de garoto a gente responde com palmada”, disparou. E alfinetou: “Da fake news a esse monte de agressões e essa falsa coragem de internauta pode amedrontar seus coleguinhas, seus amiguinhos – você deve jogar bolinha de gude – mas a mim, não”, disse.

 

EMPRÉSTIMO FRUSTRADO Quando pediu a palavra, Fernanda Pereira Altoé fez contrapontos entre as gestões de Kalil e Zema. Depois, perguntou sobre a possibilidade de cortes na máquina pública municipal com o objetivo de reforçar os cofres públicos. “Qual planejamento vai ser feito para a prefeitura, já que não temos mais dinheiro? Ou vai vir um novo pedido de empréstimo a esta Casa com a alegação de que o povo passa fome por nossa causa?”, questionou. O empréstimo citado por Fernanda acabou barrado em março. A ideia era captar US$ 160 milhões (R$ 907 milhões, em valores da época da rejeição) para financiar obras de contenção de enchentes.

 

Ao responder o questionamento, Kalil disse que as comparações com Zema tinham fins eleitorais e criticou o voto contrário da vereadora ao empréstimo. “Isso faz parte do palanque eleitoral, elogioso, no qual a senhora votou contra um empréstimo de (quase) R$ 1 bilhão, que para a “prefeiturinha” de Belo Horizonte seria muito dinheiro. Para pobre. Para obra”, rebateu.

 

PEDIDO DE APOIO Ciro Pereira fazia perguntas ao prefeito quando manifestou descontentamento por uma atitude de Kalil à época da votação do empréstimo frustrado: a tentativa de buscar o voto de Ciro por meio do pastor Jeremias Pereira, seu pai. Foram 27 votos favoráveis ao texto e outros 12 contrários. Ciro votou “não”. “Da próxima vez que o senhor quiser um voto na Câmara, meu, poderia me chamar, e não envolver pessoas que não foram eleitas”, reclamou.

 

“Só pedi ao seu pai para pedir o seu voto. Não ofendi o seu pai em hora nenhuma. Se isso ofendeu ao seu pai tanto assim, me desculpo. A única coisa que pedi foi um voto para ajudar o pobre. Não pedi nada para mim. Não pedi camiseta Hering e muito menos um par de sapatos”, respondeu Kalil.

 

“INDIRETA” A ZEMA Integrante da bancada do Novo, Marcela Trópia questionou a decisão da prefeitura de não investir em uma plataforma de ensino remoto. A vereadora afirmou estar preocupada com a recuperação da aprendizagem dos alunos de BH. E disse que jovens poderiam sentir, por muito tempo, os efeitos do que chamou de “omissão” do poder público.

 

“Parece-me que Belo Horizonte é uma ilha de desgraça educacional perante um estado brilhante. E, provavelmente, o estado deve estar todo interligado na internet, pelas suas palavras tão veementes. Deve ter sido investido muito dinheiro na educação tecnológica do estado, como foi investido em cesta básica, alimentação e várias coisas, inclusive na tempestade, aqui, de 2020”, respondeu Kalil, em menção às chuvas que assolaram a capital  no início do ano passado. 


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