Jornal Estado de Minas

DIFÍCIL DE RESPIRAR

Serra do Cipó: fumaça de incêndios é risco para a saúde da população


"A Serra do Cipó grita por socorro". A frase estampada em um cartaz com pedido de ajuda a brigadistas que combatem incêndio na região há seis dias demonstra a grave situação por que passa um dos principais cartões postais de Minas Gerais. Desde o último domingo, as chamas consomem as matas do parque, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.



A natureza agoniza, e o perigo chega cada vez mais perto da população. O fogo se aproxima das casas e do comércio no entorno. Não apenas as equipes do Corpo de Bombeiros, mas os próprios moradores tentam afastar as chamas. Mas baldes, bacias e mangueiras estão longe de serem ferramentas adequadas.

A estimativa do momento é que aproximadamente 10 mil hectares de vegetação da unidade de conservação, que vai da Grande BH até cidades da Região Central do estado, já tenham sido destruídos. Além do desgaste físico de quem está na linha de frente no enfrentamento aos incêndios (mais que o perigo em si, bombeiros têm que lidar com situações extremas, como temperaturas que chegam a ultrapassar 75ºC), a fumaça e a fuligem que tomam conta dos arredores são prejudiciais à saúde como um todo.

Os efeitos nocivos das queimadas são análogos ao que acontece no caso da poluição atmosférica originada de veículos, quando há combustão de material orgânico, que acaba ficando suspenso no ar em forma particulada. Estudos que comprovam essa relação foram feitos, por exemplo, observando a queima de cana de açúcar em propriedades no interior de São Paulo.



É o que explica o pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Elie Fiss. O produto das queimadas são inúmeras substâncias, muitas tóxicas. "Quando há um nível elevado de contato com a fumaça, ou aumento da poluição, naturalmente crescem em 20%, em pouco tempo, a procura em prontos-socorros por pessoas com sintomas respiratórios", diz o médico.

Para quem já apresenta comorbidades, a exposição à fumaça agrava problemas como asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), enfizema, bronquite crônica, fibrose pulmonar, além de problemas cardíacos, como arritmia e infarto do miocárdio, e neurológicos, como o acidente vascular cerebral (AVC). "Pessoas que já têm esses problemas podem rapidamente entrar em crise. Quem não tem, pode desenvolver", alerta.

A paneumonia por hipersensibilidade, por exemplo, é um tipo de pneumonia diferente da de origem bacteriana, que acontece quando os pulmões são inflamados pela inalação de substâncias estranhas, como poeira, fungo e fumaça, entre outros. "O tempo para que as doenças se manifestem, quando há a exposição, depende de cada organismo. A forma de evitar trantornos é sair de perto da fumaça. Não tem outro jeito", orienta o especialista.



(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Edna Aparecida Pereira, 43, mora há seis anos no vilarejo Lapinha do João Congo, parte do município de Jaboticatubas. Ela conta que, em um primeiro momento, o marido, Julio César, percebeu um foco de incêndio na manhã da última segunda-feira, em uma área a cerca de seis quilômetros de onde vivem, em uma região de difícil acesso. Por três dias, Júlio César e um amigo se embrenharam na mata para tentar conter o fogo usando baldes e canecos, sem nenhum equipamento de segurança. Ainda sem o apoio do Corpo de Bombeiros, percorreram quase 10 quilômetros para enfrentrar as chamas, que chegavam cada vez mais perto da vizinhança.

A fumaça e as cinzas no ar têm sido um grande incômodo. "Está insuportável para respirar. O calor é muito grande. Tive queda de pressão e há pessoas que estão sangrando pelo nariz. De tão quente, até nossos cavalos não estão conseguindo se alimentar", lamenta Edna. A podóloga lembra que a situação é ainda pior para os idosos, que são maioria no vilarejo. "Não temos que combater o fogo, temos que prevenir. Todo ano isso acontece. Pedimos atitude das autoridades", cobra.