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Estado de Minas

Danos mais graves ao sistema circulatório

Cientistas identificam coágulos sanguíneos e lesões pulmonares em pacientes mortos pela COVID-19. Tromboses comprometeram coração, pulmões ou rins


20/09/2020 20:38

Resultado do estudo confirma entendimento de que a doença não é apenas respiratória: coágulos podem levar a derrames e ataques cardíacos(foto: Pedro Pardo/AFP)
Resultado do estudo confirma entendimento de que a doença não é apenas respiratória: coágulos podem levar a derrames e ataques cardíacos (foto: Pedro Pardo/AFP)

 

Vilhena Soares

 

No início da pandemia da COVID-19, pesquisadores detectaram indícios de que essa nova enfermidade poderia causar danos graves ao sistema circulatório. Um estudo publicado na revista The Lancet Microbe dá mais força a essa teoria. No trabalho, cientistas britânicos relatam como encontraram coágulos sanguíneos e lesões pulmonares nos tecidos de indivíduos que morreram devido à infecção pelo novo coronavírus. Os dados corroboram a importância do uso de medicamentos anticoagulantes no tratamento da infecção e podem ajudar a desenvolver novas maneiras de monitorar e tratar a doença, segundo os autores.

 

Embora o número de pacientes examinados no estudo tenha sido pequeno, 10, os autores da pesquisa destacam que essa é a maior investigação feita, até o momento, com base em tecidos de indivíduos que faleceram devido à infecção. “A COVID-19 é uma doença nova, e tivemos oportunidades limitadas de analisar os tecidos de pacientes em autópsia”, afirma, em comunicado, Michael Osborn, professor de patologia no Imperial College London e um dos autores do estudo.

 

Osborn e sua equipe analisaram amostas de pacientes que tinham entre 22 e 97 anos e morreram entre março e junho. Em todo o grupo, a hipertensão e problemas pulmonares foram os fatores que mais contribuíram para o óbito. Os pacientes desenvolveram febre e apresentaram pelo menos dois sintomas respiratórios, como tosse e falta de ar, durante os estágios iniciais da doença. Vários tipos de tratamentos foram usados durante a internação, segundo os autores do trabalho.

 

Nas análises, os pesquisadores descobriram que todos os pacientes tinham lesões pulmonares e cicatrizes nos pulmões causadas pela infecção, além de danos nos rins. Nove pacientes também tiveram trombose em ao menos um de três órgãos importantes: coração, pulmão ou rim. A trombose impede que o sangue flua através do sistema circulatório e pode causar derrames e ataques cardíacos.

 

Os cientistas acreditam que esses dados apoiam a suspeita de que a COVID-19 pode provocar complicações circulatórias. “Nosso estudo é o primeiro desse tipo no país a apoiar as teorias existentes de pesquisadores e médicos sobre lesões pulmonares e trombose como características mais proeminentes em casos graves da COVID-19”, destaca Osborn. “Vimos também evidências de lesões renais e, em alguns casos, de pancreatite”, completa.

 

Estudo brasileiro Em abril, uma equipe de médicos do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo observou que o uso da heparina, anticoagulante usado para a prevenção da trombose, reduziu o tempo de internação em metade de um grupo composto por 27 pacientes com COVID-19. Idealizadora da pesquisa, que foi publicada na revista especializada British Medical Journal (BMJ), a pneumologista Elnara Marcia Negri ressalta que os dados obtidos pelo estudo britânico confirmam o que foi visto por ela e sua equipe.

 

“Esse trabalho, assim como outros que foram feitos após a nossa publicação, trazem mais dados que entram em concordância com o que vimos naquela época e que seguimos observando diariamente na prática clínica”, enfatiza a médica. “Vemos que essa enfermidade não está restrita a danos respiratórios. Ela pode atingir outros órgãos e também tem um efeito sobre a circulação, independentemente da idade do paciente. Mais uma vez, encontramos dados que nos mostram porque usar esse tipo de medicamento pode fazer tanta diferença.”

 

Os brasileiros seguem pesquisando o efeito da heparina em pacientes com COVID-19. “Atuamos em duas frentes agora: um estudo retrospectivo, com dados de todos que foram tratados no hospital, e também uma parceria com outras instituições, do Canadá, da Holanda e também brasileiros, como pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), que tentam entender o efeito dos anticoagulantes no tratamento da COVID-19”, conta a pneumologista.

 

Perguntas Segundo Elnara Marcia Negri, alguns detalhes importantes relacionados ao uso de remédios que combatem os coágulos precisam ser melhor definidos. “Precisamos esclarecer um tema ainda polêmico, que é a administração precoce desses medicamentos, logo no início da infecção, para evitar complicações e sequelas. Essa ainda é uma discussão entre especialistas, muitos defendem o uso apenas com o agravamento da situação do paciente com a COVID-19”, afirma. “Mas já podemos ressaltar dois pontos importantes que observamos: o monitoramento da oxigenação sanguínea – se houver falhas, indica o momento de usar o remédio – e a administração do anticoagulante depois de o paciente ter alta, para manter a prevenção da trombose.”

 

A equipe britânica também firmou parcerias, com cientistas locais e internacionais, para realizar análises mais detalhadas do material coletado dos 10 pacientes. Para eles, os resultados já obtidos e as novas investigações podem ajudar médicos na escolha de melhores tratamentos e no monitoramento da doença. “A análise baseada em autópsia da COVID-19 é vital para aprendermos mais sobre essa enfermidade conforme a pandemia se desenvolve. Somos gratos àqueles que consentiram com essa pesquisa.

  

Palavra de especialista

Eduardo Flávio Ribeiro

médico hematologista e coordenador de Hematologia do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília

Discutindo os anticoagulantes

 

“Já tínhamos dados semelhantes em estudos feitos por outras instituições, de pesquisadores chineses, italianos e americanos. Todos eles encontraram essas pequenas tromboses acometendo órgãos importantes de pacientes com COVID-19. Esse estudo é importante porque mostra detalhes além da trombose, como esses problemas renais. As análises feitas em tecidos de pessoas que morreram nos ajudam a entender melhor a doença e saber como tratá-la. Nesse caso, temos mais dados relacionados especificamente ao uso de anticoagulantes, que já estão sendo usados na COVID-19, só que ainda de forma profilática, ou seja, em pequenas doses para prevenir problemas de coagulação. Essa é uma discussão atual: quando usar esses medicamentos e em qual quantidade, pois uma dose grande também pode provocar hemorragia. Só estudos comparativos, que estão em andamento, poderão revelar essas respostas.”

 

Duas drogas serão testadas no Brasil

 

A combinação dos medicamentos sofosbuvir e daclatasvir se mostrou capaz de reduzir o tempo de internação e o número de mortes entre pacientes com COVID-19. A conclusão é de três estudos publicados na revista especializada Journal of Antimicrobial Chemotherapy, editada pela Universidade de Oxford.

 

Os três estudos foram realizados no Irã, país que vem registrando cerca de 2.500 casos e 200 mortes por COVID-19 diariamente. Nos testes, os cientistas testaram os efeitos do sofosbuvir e do daclatasvir administrados de forma combinada, algo que já é feito para tratar a hepatite-c. Os resultados foram tão promissores que o país asiático decidiu fazer um estudo em massa e iniciou a fabricação de uma nova pílula que reúne as duas substâncias. O Brasil, cada vez mais procurado para a realização de testes, participará do estudo.

 

Em um dos estudos, 66 pacientes foram divididos em dois grupos. Enquanto um recebeu o novo tratamento, o outro recebeu placebo. Enquanto no primeiro grupo, 88% dos pacientes se curou em até 14 dias, no grupo do placebo esse índice foi de 66%. Já a média de internação foi de seis dias com a administração das drogas, enquanto no grupo de placebo, oito dias. Quanto a mortes, o grupo tratado registrou três óbitos. O do placebo, cinco.

 

Em outro estudo, comparou-se a eficácia do tratamento com os dois remédios com um tratamento à base de lopinavir, ritonavir e hidroxicloroquina. Mais uma vez, a abordagem com sofosbuvir e daclatasvir se mostrou mais eficaz. O tempo de internação caiu de nove para cinco dias, e a mortalidade reduziu de 33% para 6%.

 

AMPLIAÇÃO Segundo os cientistas que realizaram os testes, o uso combinado de sofosbuvir e daclatasvir pode reduzir tanto o tempo de internação quanto o índice de mortes em pacientes com casos medianos e graves de COVID-19. É o que eles esperam comprovar com um teste mais amplo.

 

"Apesar dos resultados iniciais encorajadores, é muito cedo para chegarmos a um veredito. Estudos mais bem projetados são necessários para confirmar nossos dados", disse Shahin Merat, líder de uma das pesquisas. "Uma rede de cinco estudos clínicos foi elaborado para testar o sofosbuvir mais o daclatasvir em mais de 2 mil pacientes no Irã, no Brasil, no Egito e na África do Sul. Por volta de outubro, nós deveremos saber se esse tratamento pode ser aprovado para uso em escala mundial."

 

Pior se há comorbidades

Um estudo chinês publicado na revista New England Journal of Medicine mostrou dados de 1.099 pacientes infectados pelo Sars-CoV-2. Nas análises, os pesquisadores observaram que indivíduos com comorbidades relacionadas a problemas na circulação, como hipertensão, diabete, doença coronariana e doença ateroesclerótica, tinham mais risco de sofrer com complicações mais graves da COVID-19. 

 


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