Jornal Estado de Minas

FRIO EM MINAS

Com clima gelado em BH, entidades pedem agasalho e levam alimentos aos que mais precisam


Os últimos dias jogaram um "balde de gelo" sobre os mineiros que, a menos de um mês da entrada da primavera já davam o inverno da pandemia como em fim de carreira. Mas a natureza tem seus mistérios, traz surpresas, e a onda de frio intensa que atinge o estado seguirá predominando no início desta semana. Ontem, a mínima em Belo Horizonte foi de 9,2°C, com sensação térmica de 0°C nas regiões mais elevadas e com maior vegetação. A máxima não ultrapassou os 22°C. Com isso, voltaram à cena os cachecóis, luvas, agasalhos pesados e toucas coloridas cobrindo as orelhas. "Tem gelo e tem o vento de agosto", lembrou um ciclista na Avenida Cristiano Machado, na Região Nordeste da capital.





Conforme os meteorologistas, as noites e madrugadas serão geladas, com mínimas variando entre 8°C e 10°C na maioria das regiões. No Sul de Minas, há previsão de geada forte pela manhã, com mínimas negativas, entre -1°C e -4°C, e maior incidência em pontos bem localizados das áreas de baixada da Serra da Mantiqueira. Em caso de geada, as plantações de café podem ter dano expressivo caso a temperatura atinja marcas negativas entre -3,5oC e      -4°C, ocasionando a morte do cafezal e perdas que podem levar até dois anos de recuperação. Na Zona da Mata, Campos das Vertentes e Metropolitana de BH, os termômetros poderão registrar temperaturas mínimas entre 5°C e 7°C.



Para ajudar quem precisa, ainda mais neste tempo de pandemia do novo coronavírus, a Arquidiocese de Belo Horizonte está fazendo uma campanha solidária e recebendo doações de agasalhos e cobertores. Os interessados devem entregar o material na sede do Vicariato Episcopal para Ação Social, Política e Ambiental da Arquidiocese de BH, que fica na Rua Além Paraíba, 208, Bairro Lagoinha (ao lado do Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Conceição dos Pobres), na Região Noroeste.

Tempo seco

A massa de ar polar já perdeu forças em regiões como a faixa norte de Minas e o Triângulo, onde as temperaturas voltam a chegar perto dos 30°C. Os índices de umidade nessa região ficarão baixos, próximos aos 20%.





A umidade relativa do ar também permanece baixa nas outras regiões do estado, com os índices de umidade variando entre 25% e 45%. O ideal para a saúde é acima de 60%. Em Belo Horizonte, sol entre nuvens com máxima na casa dos 23°C. A próxima madrugada continuará fria, com mínimas amanhã pela manhã variando entre 7oC e 10°C.

Um ciclone extratropical, localizado a aproximadamente 1.500 quilômetros da costa do Brasil, é o responsável pelo frio desta semana nas regiões Sul e Sudeste. Segundo dados do boletim meteorológico emitido pelo Sistema de Meteorologia e Recursos Hídricos de Minas Gerais (Simge), divulgados ontem, um sistema de alta pressão sobre Minas Gerais manterá massa de ar frio e seca nos próximos dias e as condições de tempo permanecerão estáveis.

Na capital, a tendência é de elevação gradual da temperatura máxima ao longo da semana. "Amanhã (quarta-feira) começaremos a ver uma ligeira elevação nas mínimas, até que na sexta a máxima chega a 26°C", explica Anete Fernandes, meteorologista do 5º Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).





Agasalhos mais pesados tomaram conta das 'passarelas' no Centro da cidade, no coreto da Praça da Liberdade e nos quatro cantos da capital mineira (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


As previsões de "manhã mais fria do ano" para ontem não se concretizaram. O recorde de temperatura mínima, 8,3oC, em 29 de maio, ainda não foi superado. Mas com os termômetros marcando máxima de 15oC, o sábado (22) registrou o dia mais frio até o momento.

O frio "congelante" na manhã de ontem foi sentido em regiões mais altas e com maior vegetação da cidade, como os bairros Olhos D'Água, Buritis, Belvedere e as proximidades de Nova Lima. Os ventos nessas localidades chegaram a 50km/h – capazes de mover árvores de grande porte. Na Pampulha, onde as rajadas de vento foram mais fracas, a mínima e a sensação térmica foram de 10,3°C. "Às vezes, a sensação térmica de 0°C pode não ser muito representativa para as regiões mais urbanizadas, o que não significa que não tenha sido de frio intenso", detalha a meteorologista.

A nebulosidade começou a perder força na segunda-feira na capital, com o sol aparecendo entre nuvens durante todo o dia. De acordo com Anete Fernandes, o frio e a nebulosidade chegaram juntos, "uma exceção, quando a grande formação de nuvens não permite que a radiação chegue, intensificando o frio. Há uma tendência de abertura no céu, sem chance de chuva", completa Anete Fernandes.





"A geada é um fenômeno que ocorre quando há baixas temperaturas durante tempo seco. A madrugada foi úmida na região, então mesmo com as baixas temperaturas não houve registros dessa precipitação, tivemos apenas nevoeiros", esclarece Fernandes.

Conforto alimentar no Taquaril

A crise sanitária provocada pelo novo coronavírus evidenciou extremos na questão alimentar nos grandes centros urbanos. De um lado, alimentos descartados diariamente por sacolões, supermercados e mercearias. Do outro, a falta do que comer até mesmo no café da manhã em alguns lares. E foi pensando nesses problemas que a ONG Good Truck Brasil decidiu agir na capital mineira em pleno período de pandemia de COVID-19. No sábado, voluntários levaram frutas, legumes e pães para moradores do Bairro Taquaril, na Região Leste de Belo Horizonte, dando um pouco de alívio a quem precisa e aquecendo corações em dia marcado por frio intenso na capital mineira.

Voluntários levaram pães, frutas e sucos à comunidade Terra Nossa (foto: Jorge Lopes/Esp. EM/DA Press)


O projeto nasceu em Curitiba (PR) e atua desde 2016 no combate ao desperdício de comida e à insegurança alimentar e nutricional. Desde então, já passaram por lá mais de 1.035 voluntários, foram distribuídas gratuitamente mais de 12 toneladas de comida, resgatadas em torno de 5 toneladas de hortifrútis que seriam descartados, e alimentadas cerca de 15 mil pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social e residem na periferia da cidade. Uma ajuda que chega em hora de perigo.





A ONG iniciou as ações em Belo Horizonte em abril deste ano. E a primeira iniciativa ocorreu na Terra Nossa. “A ocupação nasceu a partir da necessidade de moradia. Foi por meio de pessoas do interior, em busca de oportunidade de trabalho na capital, que moravam de aluguel. A ocupação ocorreu em 2014”, disse a líder comunitária Joselita Santos da Silva, de 46 anos. Hoje, 350 famílias moram na região.

“Agora, em meio à pandemia, a situação dos moradores ficou mais difícil”, acrescentou. “Algumas famílias daqui até conseguem cestas básicas. Mas arroz e feijão não suprem todas as necessidades de um humano. É preciso proteína, vitamina, fibras. É de grande importância a questão nutricional, e aqui não temos oportunidade de ter uma alimentação balanceada. A parceria com a Good Truck tem sido muito importante”, acrescentou a líder comunitária.

A ONG se sustenta em três pilares: combater a fome e a insegurança alimentar e nutricional; combater o desperdício de alimentos; e conscientizar e educar as pessoas sobre a temática da sustentabilidade, desigualdade social, consumo consciente e empatia. Esse último objetivo é muito importante dentro e fora das comunidades assistidas, pois voluntários acreditam que só por meio da educação e da autotransformação é possível mudar o mundo.



Mortes por desnutrição

E o trabalho pela frente não é pequeno. Estudo da Oxfam Brasil citado pela ONG estima que até 12 mil pessoas poderão morrer em decorrência de desnutrição no Brasil em 2020, devido ao aprofundamento da crise alimentar no período da pandemia.

Escolhida a comunidade, os voluntários entraram em contato com a líder comunitária para estabelecer quais demandas deveriam ser atendidas. “Ela disse da necessidade do café da manhã. A partir disso, começamos a buscar produtos de descarte (em condições apropriadas para consumo) em pequenos comércios. Fizemos parcerias e, quinzenalmente, é oferecido um café da manhã no qual são servidos pães e quitutes, frutas, vitaminas, achocolatados e sucos”, conta a supervisora da ONG, Luiza Carvalho Tereza, de 27. Segundo ela, o projeto oferece uma alimentação vegetariana, uma vez que a ONG é “contra o desgaste ambiental necessário à produção de carne”.

No momento, a ONG conta com 12 voluntários em BH. Para se inscrever, os interessados podem preencher formulário no site da GoodTruck (goodtruck.org.br) ou acessar o Instagram (@goodtruckbrasil) e mandar uma mensagem pedindo mais informações. A equipe responsável entrará em contato com as instruções para atuação. Pessoas físicas podem doar por meio da Vakinha (www.vakinha.com.br/ vaquinha/goodtruck-beaga-no-covid-19) ou contatando a GoodTruck no Instagram para que algum dos voluntários recolha ou receba a doação.

O projeto nacional já contou com mais de 85 empresas vinculadas de alguma forma. Em Belo Horizonte, são 12 parceiros. Entre eles, sacolões, supermercados, mercearias, padarias e lojas de suplementos descartáveis. As empresas que queiram se tornar parceiras do projeto podem acessar goodtruck.org.br ou @goodtruckbrasil para mais informações.

*Estagiário sob supervisão  da subeditora Raquel Botelho




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