Jornal Estado de Minas

Mineira é premiada por pesquisa sobre câncer nos Estados Unidos



Laboratório fechado, estudos em risco, prejuízo milionário. A pandemia impactou seriamente a rotina da pesquisadora Carolina de Aguiar Ferreira, de 32 anos, que faz pós-doutorado em Boston, nos Estados Unidos. Mas, em meio ao caos, ela tem uma boa notícia para o Brasil e o mundo na área da saúde. A mineira de Belo Horizonte ganhou o primeiro lugar do prêmio de jovem pesquisador da Sociedade de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SNMMI), com sede na cidade norte-americana de Reston. A pesquisa desenvolve uma forma não invasiva de detectar efeitos colaterais no tratamento de câncer.





Carolina vem subindo ano a ano no pódio da SNMMI, entidade internacional que existe há seis décadas e tem mais de 20 mil membros de 65 países, entre médicos, farmacêuticos e técnicos. Em 2018, participando pela primeira vez da premiação, ela ficou em terceiro lugar. Na edição seguinte, assumiu a segunda posição. Em 2020, enfim, recebeu o título de jovem pesquisadora na categoria inovação em imagem molecular. Em dinheiro, o prêmio é quase simbólico, no valor de US$ 500.

Para a pesquisadora, o reconhecimento é uma motivação para seguir em frente. "O prêmio é uma validação de todos estes anos de esforço. E é esforço mesmo, muita dedicação e automotivação. Ninguém faz pesquisa pelos benefícios, que são poucos. Faz porque realmente tem paixão pela pesquisa e pelo que a pesquisa pode gerar para a população", afirma. Durante o doutorado, Carolina conta que passava cerca de 100 horas por semana no laboratório.

Com a pesquisa, a farmacêutica espera disponibilizar para o mercado um exame de imagem (feito através de material radioativo) que possa detectar precocemente, e de forma não invasiva, efeitos colaterais do tratamento de imunoterapia para o câncer. "A imunoterapia mudou o tratamento de câncer. Hoje em dia, 50% dos casos podem ser tratados dessa forma, só que isso gera muitos efeitos colaterais, infelizmente. Desde a primeira dose até um ano depois de encerrado o tratamento", pontua. Identificando rapidamente sintomas indesejados, o médico pode conduzir o tratamento de forma menos prejudicial possível ao paciente. No momento, o único recurso é a biópsia.





Paixão cultivada a partir da UFMG


Já são 12 anos de pesquisa na área de terapia e diagnóstico de câncer usando radiação. Carolina conta que descobriu o seu amor pela pesquisa no Laboratório de Radioisótopos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que trabalha com materiais radioativos, onde fez iniciação científica durante a graduação. "Eu me apaixonei pela área porque existe uma grande possibilidade de melhorar a saúde da população. Quero contribuir de alguma forma com a sociedade", diz.

A pesquisadora, no entanto, tem os pés no chão. Sabe que, para que este exame inovador chegue aos pacientes com câncer, é necessário muito investimento. "Precisamos de um governo que financie estudos clínicos, porque, no fim das contas, isso vai gerar um produto médico que vai impactar muitas vidas." Por enquanto, o avanço se resume a uma patente, dada ao coordenador do laboratório onde ocorre a pesquisa, que abriu uma empresa privada para produzir o material. Os estudos clínicos devem começar ainda neste ano.

A pandemia atingiu em cheio as pesquisas. Estudos que Carolina desenvolvia há oito meses foram prejudicados pela interrupção das atividades. Estima-se que o laboratório, em função de ter ficado totalmente fechado por quatro meses, tenha tido um prejuízo de US$ 1 milhão.
 
O objetivo de Carolina é ser professora e comandar o próprio laboratório, de preferência, no Brasil. "Quero pegar o conhecimento que tive a oportunidade de adquirir aqui fora e levar para o meu país. O meu sonho é ver o Brasil valorizar pesquisas, mas estamos longe disso".




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