Jornal Estado de Minas

ARTE CONTRA A PANDEMIA

Projeto internacional de fotógrafa mineira registra esperança em 100 imagens

(foto: Fabiana Nunes)


Em meio a uma crise tão grande e longa quanto a provocada pela pandemia de COVID-19, nada como um respiro. É o que oferece a fotógrafa mineira radicada em Zurique, na Suíça, Fabiana Nunes por meio do projeto “50 palavras – 100 fotos”.


(foto: Fabiana Nunes)


Ela registrou, durante a quarentena suíça, 50 pessoas, de 22 nacionalidades, com 50 palavras escolhidas por elas para expressar “mensagens de reflexão e esperança para o mundo”, num total de 100 fotografias.

“É um projeto alinhado aos meus sonhos, minha paixão e minha visão de um mundo melhor. Minha intenção através das imagens é poder criar na mente e no coração das pessoas um sentimento de igualdade, de que vivemos numa pluralidade maravilhosa e aceitar que as diferenças são parte da nossa evolução, mesmo em momento tão difícil quanto o atual. Espero criar empatia e despertar nas pessoas o tipo de ser humano com o qual sonhamos: solidário, colaborativo e amoroso”, afirma a profissional, que é de Carmo do Paranaíba e se mudou para Belo Horizonte aos 12 anos.

(foto: Fabiana Nunes)

(foto: Fabiana Nunes)


Desde então, não parou mais de rodar. Em 2000, foi para Nova York, onde estudou fotografia na School of Visual Arts. Nove anos depois, adotou Barcelona como lar, trabalhando com moda e registrando os looks de famosos e anônimos, o que apurou o olhar sobre as pessoas, além de ter feito cobertura de festivais de música e fotografado clubes noturnos, casamentos e aniversários. Há cinco anos, se estabeleceu em Zurique, ao lado marido, o suíço Rico, mantendo as pessoas como alvo preferencial do trabalho.



“Sempre gostei de street style. Trago isso comigo, gosto de gente criativa na maneira de se vestir. Para mim, mais importante que estar na moda ou usando roupa de grife dos pés à cabeça é ter estilo próprio”, argumenta ela.

Se antes os retratos muitas vezes eram obras do acaso, principalmente durante as viagens pelo mundo, passaram a ser mais pensados e produzidos. E foi outra brasileira, a cantora Dandara Modesto, quem deu o empurrão final em direção ao atual estágio profissional ao pedir uma sessão de clicks. Um deles deverá ser usado na capa do próximo álbum.

Prêmios

Assim, Fabiana passou a explorar os retratos e foi desenvolvendo a técnica, cujos resultados podem ser chapas ultracoloridas ou interessantes jogos de luz e sombras em preto e branco, que chamam muito a atenção. Em 2018, uma dessas fotos foi vencedora do concurso “Swiss Photo Club Awards”, sendo exposta na Galeria Photobastei, também em Zurique. Já no ano passado, venceu o concurso “Retratos da Humanidade”, categoria escolha pública, do jornal britânico The Guardian, o que teve grande repercussão.


Fabiana, autora do projeto: 'Espero criar empatia' (foto: Arquivo pessoal)


Depois de fotografar amigos no Brasil este ano, voltou para a Europa. Com a disseminação do coronavírus, surgiu o desejo de fazer algo relativo à pandemia, que resultou no “50 palavras – 100 fotos”.

“Inicialmente, pensei em fotografar pessoas de máscara, mas não queria só isso. Então, pensei em uma coisa meio dadaísta, pedindo para as pessoas me falarem uma palavra sobre o que queriam expressar na foto. Com estúdios fechados, fiz tudo na sala de casa, só eu e o fotografado, tomando todos os cuidados sanitários. Deu muito trabalho, levou tempo, pois são 50 personagens, nunca dava para fazer mais de cinco por dia, sempre tinha de desinfectar tudo, ajustar horários, combinar agendas”, explica ela, que optou por fazer duas fotos, uma com e outra sem máscara, expressando o momento de restrição e a possível volta à vida normal. “A linguagem corporal e a expressão mudaram completamente de uma imagem para outra. Zurique é uma cidade pequena, mas bem diversa, apesar da xenofobia. Por isso, escolhi gente de todo tipo físico, de todas as etnias, de diversas procedências, de várias profissões.”

(foto: Fabiana Nunes)

(foto: Fabiana Nunes)


Mais que retratar pessoas, a intenção era passar a mensagem de que vamos sobreviver a essa pandemia e a outras dificuldades que aparecerem. E nada melhor que ter boas histórias à frente da lente.



“Um amigo senegalês sugeriu as palavras vida e esperança. Escolhi esperança, até pelo momento, mas ele me explicou que vida seria bom porque havia perdido a mulher há pouco tempo. Já uma brasileira, que perdeu o cabelo em função de tratamento de câncer de mama, quis foto com a palavra paciência. Achei lindo também, sobretudo em momento em que passamos por lockdown, tivemos de parar nossa vida de certa forma. Também vieram duas senhoras, uma da Tailândia e outra do Camboja, que quiseram fazer juntas. Uma se casou com o ex-marido da outra, e quando ele morreu elas decidiram morar juntas, deixaram de ser rivais. Já uma atriz suíça que mora em Londres propôs as palavras luto (grief, em inglês) e mudança (change), pois, três dias antes, o primeiro diretor da carreira suicidou-se. Acabamos escolhendo luto, que é um sentimento que demora a passar. Ou seja, foi aparecendo gente de todo tipo, de motorista de caminhão a CEO que faz crossdresser, de jornalista a cantor, criança, velho, tudo”, conta.

As palavras foram escritas na língua materna de cada um. As exceções foram alguns suíços e alemães, que, em função de considerarem os vocábulos muito grandes, optaram pelo inglês.

Ao ar livre

A intenção agora é levar o projeto para galerias. Como não se sabe quando isso será possível em função do novo coronavírus, uma possibilidade é projetar as fotos em espaços abertos, acompanhada de trilha sonora. Barcelona, Nova York e, claro, Belo Horizonte, já estão sendo contactadas.

Também há previsão de se produzir um livro-documentário com a história do projeto. Nele, cada participante contaria um pouco da vida.

(foto: Fabiana Nunes)