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Estado de Minas ALTO RISCO

'Imunidade de rebanho' poderia gerar 150 mil mortes em Minas, diz epidemiologista

Tática utilizada na Suécia gerencia a propagação do vírus para tornar a população rapidamente imune


postado em 27/05/2020 18:05 / atualizado em 27/05/2020 18:54

Nos últimos dias, ganhou destaque no Brasil a chamada %u201Cimunidade de rebanho%u201D, tática que gerencia a propagação do vírus para tornar rapidamente a população imune(foto: Divulgação/PBH)
Nos últimos dias, ganhou destaque no Brasil a chamada %u201Cimunidade de rebanho%u201D, tática que gerencia a propagação do vírus para tornar rapidamente a população imune (foto: Divulgação/PBH)

Com o anseio de se verem longes da pandemia do novo coronavírus o mais rápido possível e voltarem à vida normal dos últimos anos, pessoas ao redor do mundo vêm levantando hipóteses alternativas ao isolamento social. O problema é que os resultados de medidas experimentais são relativos e variam de acordo com o local e a cultura de onde as diversas ideias são aplicadas. Nos últimos dias, ganhou força no Brasil a chamada “imunidade de rebanho”, tática que gerencia a propagação do vírus para tornar a população rapidamente  imune. A estratégia é adotada atualmente pela Suécia e, no início da pandemia, chegou a ser implementada pelo Reino Unido. Mas será que essa ideia não é arriscada? 

Segundo o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG e consultor da Prefeitura de Belo Horizonte no combate à COVID-19, Unaí Tupinambás, essa tática está longe de ser a adequada para Minas Gerais. Em um vídeo feito para a TV UFMG, o epidemiologista chega a citar que 150 mil pessoas poderiam morrer só no estado, caso o governo estadual adotasse a medida.



“Para ter imunidade de rebanho, nós necessitaríamos que entre 60% e 70% da população se infectasse com o vírus, e isso seria uma catástrofe para aquela comunidade. Em Minas Gerais, nosso dados mostram que teriam que morrer em torno de 150 mil pessoas de COVID-19 e isso seria uma tragédia”, explica Tupinambás.

Mais adiante ele ressalta que a imunidade de rebanho não pode ser alcançada em um curto período de tempo, mas, sim, de uma forma gradual. Segundo ele, essa imunidade não deve ser atingida em menos de dois anos.

“O que estamos fazendo com essa medida de isolamento é achatar essa curva para que ela se espalhe ao longo dos meses e anos, até a gente atingir essa imunidade de rebanho”, continua.

Dengue

Um exemplo da imunidade de rebanho pode ser a diferença de pessoas vítimas de dengue em 2020 e no ano passado. Enquanto em 2019 foram registrados 480.609 casos de dengue em Minas, neste ano são 71.617. Além disso, nesse mesmo período do ano passado, eram 425.348 casos prováveis da doença. Segundo Unaí, a diferença pode ser um resultado da imunização das pessoas.

Vacina


Conforme o epidemiologista explica, a imunidade de rebanho é o que os governos tentam fazer ao criar campanhas de vacinação. Assim, uma vez que boa parte da população estivesse imune ao vírus, a propagação se daria em um nível bem mais baixo. Nesse caso, a medida seria feita de forma controlada.


Um exemplo ressaltado por Tupinambás é a campanha de vacinação contra o sarampo. “Vimos uma crise do sarampo após anos de a doença ter desaparecido do Brasil com esse movimento negacionista da ciência, contra vacina, a partir do qual as pessoas deixaram de vacinar contra sarampo. Um turista que chegou a BH teve a doença. A Secretaria Municipal de Saúde, então, identificou quem estava no voo com ele, vacinou todo mundo e fez uma espécie de cordão sanitário. Além disso, realizou campanha de vacinação e reduziu a possibilidade de haver uma epidemia”, explicou. 


Ministério da Saúde


Nessa terça-feira (26), o secretário substituto de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Eduardo Macário, disse que a estratégia de imunidade de rebanho não seria adequada para o Brasil.

"Questões que têm sido colocadas, por exemplo, de que é importante que o Brasil adquira uma imunidade de rebanho de 70% de pessoas infectadas para que a gente tenha uma diminuição no número de casos, efetiva. Eu considero que essa não é a melhor estratégia se você não tem uma vacina", ponderou.

A taxa de 70% ainda está longe de ser alcançada. Conforme uma pesquisa da Universidade Federal de Pelotas, apenas 1,4% da população brasileira já se infectou com o vírus. Mesmo assim, segundo o Ministério da Saúde, 24.512 pessoas já morreram pela doença no país.

*Estagiário sob supervisão da editora Liliane Corrêa

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