Jornal Estado de Minas

CASO BACKER

Cerveja contaminada: em meio a guerra de laudos, sobem para 22 os casos de possível de intoxicação

Contratado pela cervejaria, químico Bruno Botelho analisou amostras enviadas pela empresa que tiveram resultado negativo para dietilenoglicol (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)


Depois de a cervejaria Backer divulgar análise com resultado negativo para o monoetilenoglicol e o dietilenoglicol na água da empresa, ontem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) confirmou a presença das substâncias tóxicas em amostras de água coletadas na indústria cervejeira. O método de análise usado pelo ministério é o mesmo adotado pelo especialista contratado pela Backer, que coletou as amostras e enviou o material para o laboratório. Com base no resultado da análise feito pela especialista, entretanto, a própria Backer relaciona o episódio a “contaminação eventual” dos produtos.


Subiram para 22 os casos suspeitos de intoxicação pelo dietilenoglicol, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), que foi notificada sobre a terceira mulher com sintomas, agora em Belo Horizonte. Segundo a SES, um homem, morador de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, que estava internado no Hospital João XXIII, na capital desde o dia 17 recebeu alta no domingo.

Análises do Mapa encontraram o dietilenoglicol na água da cervejaria e em 32 lotes de 10 marcas produzidas pela indústria, em especial a Belorizontina. Os exames que detectaram os agentes químicos na água da Backer foram feitos por auditores fiscais do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Mapa. Os técnicos constataram os contaminantes na água residual do trocador de placas da cervejaria e no tanque de água usada para o resfriamento da bebida antes de ela ser fermentada.
 
Em nota, o Mapa assegura que dispõe de procedimento “capaz de identificar e confirmar inequivocamente” as duas substâncias. O exame é chamado de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas. “Esta técnica analítica é, inclusive, a utilizada em método de referência da agência americana Food and Drug Administration (FDA) para a determinação desses compostos”,informou o Mapa.


“A atuação da fiscalização federal agropecuária é dotada de fé pública e auxilia a apuração deste caso em parceria com demais órgãos participantes da força-tarefa”, esclarece o Mapa, em nota. Em paralelo, a Polícia Civil continua a colher depoimentos de familiares de pacientes internados ou que morreram com sintomas da síndrome nefroneural, associada ao consumo de cerveja contaminada por dietilenoglicol em Belo Horizonte. Até agora, 10 pessoas foram ouvidas e estão previstos novos depoimentos nesta semana. A PC também recolheu novas amostras na Backer ontem e na empresa que fornecia o monoetilenoglicol à cervejaria. Ainda não há previsão para a conclusão dos laudos.

Na manhã de ontem, Emília Barros e Célio Guilherme Barros, esposa e irmão do bancário Luciano Guilherme Barros, de 56 anos, prestaram depoimento. Ele está internado em uma unidade do Hospital Mater Dei, na capital, desde 6 de dezembro. Segundo eles, o morador do Buritis, na Região Oeste, comprou cerca de 20 cervejas de um dos lotes contaminados da marca Belorizontina.



Emília e Célio também disseram que, até o momento, a empresa não entrou em contato com eles. A cervejaria Backer informou que uma equipe da empresa está visitando pessoas hospitalizadas e seus familiares, mas não especificou quantas pessoas.


Até esta terça-feira foram notificados casos de 19 homens e três mulheres em oito municípios mineiros, de acordo com o boletim da SES, que investiga a contaminação pela substância. Quatro casos foram confirmados e 18 ainda estão sob análise. Quatro pessoas morreram, sendo que o exame de uma delas indicou a presença do dietilenoglicol. As outras três mortes depende de resultados de análises laboratoriais.


Backer admite 'possível contaminação eventual'

Com análise feita por especialista contratado, a cervejaria Backer assume “possível quadro de contaminação eventual” na indústria. A empresa, que está sendo investigada por causa de 22 casos suspeitos de intoxicação por dietilenoglicol, divulgou ontem parecer do químico Bruno Botelho sobre a concentração da substância tóxica nas bebidas da marca. Todas as amostras foram enviadas pela Backer.

Diferentemente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a análise apresenta resultado negativo para a presença de contaminantes na água da cervejaria coletada no restaurante, na caixa d'água e no tanque. Mas o estudo conduzido pelo professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que a concentração de dietilenoglicol presente nos lotes diminui com o passar do tempo.


“Cenário que indica, portanto, um episódio eventual”, diz o comunicado da empresa, que informou querer contribuir com a investigação. A maior quantidade foi constatada no lote produzido em 11 de novembro, o L2 1348, de 0,83g para cada 100ml de cerveja. Uma amostra da bebida fabricada em 24 de dezembro contém menos da metade da concentração, com 0,41g. A amostra que está em um dos tanques da cervejaria, fabricada em 3 de janeiro, tem 0,21g de dietilenoglicol por 100ml de cerveja.

“Isso é indício que a contaminação não foi constante ao longo do processo”, afirma o químico, que ressaltou não conhecer a fábrica da empresa e ter sido contratado somente para as análises laboratoriais. Conforme o estudo, para que um tanque de 20 mil litros atinja a concentração mais alta constatada é preciso despejar 166kg de dietilenoglicol.

Questionado sobre um possível vazamento, Botelho não descarta a hipótese, mas faz ressalvas. “Se, eventualente houvesse vazamento, esperaria-se um vazamento constante, mas é difícil afirmar por não conhecer o processo”, diz. O especialista também disse não ser possível precisar, a partir do resultado, se houve falha ou fraude na cervejaria.


Quantidade


Ainda segundo Botelho, considerando uma pessoa de 70kg, para atingir o indicado pela literatura como dose letal, seria necessário o consumo de aproximadamente 16 garrafas de 600ml. Alguns familiares de vítimas internadas com sintomas da síndrome nefroneural, compatível com a contaminação pelo agente químico, afirmam que eles consumiram quantidades bem menores da bebida. Em alguns relatos, as vítimas teriam consumido apenas uma garrafa da cerveja. Por meio da assessoria de imprensa, a Polícia Civil informou que não tem conhecimento dos exames e vai analisar a fala do especialista, mas não necessariamente as informações constarão no inquérito.