Jornal Estado de Minas

SUSTO

Desabamento no Prado




A madrugada de quinta foi de terror para a família de Sandra Antunes de Guimarães, de 52 anos, que viu o quarto onde dormia desabar. Ela e o filho Lucas Antunes de Guimarães, de 19, tiveram que levantar às pressas diante dos sinais de que a casa onde estavam e o muro tinham sido abalados devido à obra de construção do Edifício São Francisco, no Bairro Prado, na Região Oeste de Belo Horizonte. Parte da casa foi abaixo, deixando toda a vizinhança de sobreaviso. Apesar do susto e perdas materiais, não houve vítimas.


A residência que desabou divide terreno com outro imóvel – a casa da frente tem oito cômodos e a dos fundos, cinco, sendo que três deles foram destruídos com o desabamento. A casa da família foi construída há 60 anos e não apresentava nenhum problema até outubro, quando foi instalada a obra para a construção de um condomínio de alto luxo. "Começaram a construir o prédio. Todo mundo avisou que tinha trincas. Fui até a obra e disse: 'Gente, esse muro não vai conter esse tanto de terra'. O engenheiro disse que era muito seguro. Poderíamos ficar tranquilos que não aconteceria nada." Sandra lembrou que, por várias vezes, sua família alertou sobre o aparecimento das rachaduras na casa. "Estou traumatizada, revoltada. Foi avisado", disse Sandra.

De acordo com a Defesa Civil de Belo Horizonte, os moradores ligaram para o 199 por volta das 4h. “Imediatamente uma equipe de deslocou e removeu as pessoas dos imóveis que ladeiam a obra. O muro desabou por volta das 5h55. A ação imediata e preventiva da Defesa Civil resultou em um desastre sem vítimas”, informou. O órgão confirmou que já havia vistoriado o local em outubro sem que houvesse risco.

Na madrugada de ontem, quem percebeu o risco iminente foi o jovem Lucas Antunes Guimarães, de 19 anos, que dormia com a mãe e um irmão na casa dos fundos. Lucas contou que, na madrugada, começou a sentir pedras e poeira caindo sobre o rosto. "Levantei desesperado. Olhei para trás e tinha uma rachadura enorme na parede, atrás da gente. Estava dando muito estalo. Cada estalo mais alto que outro. Chamei minha mãe e meu irmão que estava em outro quarto para sairmos. Disse: 'Está caindo tudo. Levanta aí'", contou. De início, o jovem pensou que fosse uma goteira. "Pensei que pudesse ser chuva. Estava meio gelado. Estava difícil de respirar por causa da poeira. Quando olhei para trás vi que estava caindo".


Segundo o analista de sistemas Daniel Saraiva, de 36, genro de Sandra, desde as primeiras intervenções no terreno para a fundação do condomínio de alto luxo, havia preocupação. “Há alguns meses apareceram umas trincas na minha casa e nas ao lado. O pessoal da obra veio e falou que era uma consequência normal da obra, mas que quando a construção terminasse o reparo das trincas seria feito”, explicou.

Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte confirmou que a obra tem alvará de construção, conforme previsto na legislação muni- cipal. A Secretaria Municipal de Política Urbana informou que uma equipe da Fiscalização da Regional Oeste foi até o local para verificar a situação. A prefeitura não confirmou à reportagem se a obra será embargada. De acordo com a Defesa Civil, as famílias da casa e do prédio vizinho à construção não precisam ser retiradas. No entanto, diante do medo de outro deslizamento de terra, os moradores da casa disseram que pretendem sair. A síndica do prédio Magda Barbosa, de 63, conversará com os moradores para decidirem o que farão, mas ela também demonstrou medo de permanecer no local.

O engenheiro responsável pela construção do prédio vizinho à obra, Antônio Carlos Araújo, disse que a construtora deve tomar medidas imediatas de contenção para evitar outros incidentes. "O prédio não corre risco desde que sejam tomadas as providências. Hoje (ontem), a situação está estável", garantiu.



VISTORIA A assessoria de imprensa da Defesa Civil informou que uma equipe do órgão esteve na Rua Rio Negro, que ladeia a obra, em 28 de outubro do ano passado para atender ao chamado de um morador para avaliar possíveis riscos construtivos. “A vistoria da época constatou trincas e fissuras no muro de divisa e no piso do corredor de acesso aos fundos do imóvel. No momento da vistoria, as anomalias visualizadas foram classificadas como de risco baixo”, disse a Defesa Civil. “O morador e o supervisor de obras foram orientados a adotar ações corretivas e a monitorar preventivamente para manter a segurança e estabilidade do local. Não existem registros de ocorrências e solicitações de vistorias nos imóveis circunvizinhos a obra.”, pontuou o órgão.

O engenheiro responsável técnico pela obra, Leonardo Bicalho Hubner Passos, disse à reportagem, por telefone, que depois da visita da Defesa Civil em outubro ele próprio tranquilizou a moradora Juliana Antunes, que já relatava a presença de rachaduras na casa. "Não é fácil pra gente não. Tecnicamente não sei o que houve", afirmou.

Passos informou que se reunirá com os projetistas que fizeram o projeto estrutural da obra para tentar identificar o que ocorreu. "Na retirada da terra, houve acomodação da terra. Pedi à moradora que monitorasse o aumento da trinca e falasse com a gente. Até ontem (quarta-feira) não tinha nada." Ele afirmou que arcará com a reconstrução da casa que desabou. "Vamos refazer o quintal dela. Não vou deixar de cumprir as responsabilidades e resolver o problema". Disse ainda que conversou com todos os afetados pelo desabamento.


IMPACTOS DA QUEDA

Situação dos imóveis próximos às obras

» Rua Rio Negro, 74 – Os moradores acionaram a Defesa Civil. A casa principal não foi afetada, imóvel liberado. A casa dos fundos desabou parcialmente, imóvel interditado.

» Rua Rio Negro, 86 – As áreas de lavanderia e de churrasqueira desabaram por completo. A estrutura do imóvel não foi afetada, imóvel liberado.

» Rua Rio Negro, 100 – A estrutura de fundações do prédio não foi afetada. Houve o desabamento de parte da garagem, área parcialmente interditada. O imóvel está liberado.