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Estado de Minas LITERATURA

Projeto Encontro Marcado recupera declaração de amor de Sabino a BH. Confira

Entrega de crônica sobre a capital mineira ao filho do escritor foi um dos pontos altos do programa, levado a 11 escolas este ano


postado em 21/12/2019 06:00 / atualizado em 21/12/2019 07:00

Exposição do projeto Encontro Marcado na Escola Estadual Afonso Pena, onde Fernando Sabino estudou(foto: Renato Cobucci/Divulgação)
Exposição do projeto Encontro Marcado na Escola Estadual Afonso Pena, onde Fernando Sabino estudou (foto: Renato Cobucci/Divulgação)


O projeto Encontro Marcado apresenta às crianças e adolescentes a obra do escritor Fernando Sabino (1923-2004). Em 10 anos, ele atendeu 800 mil alunos e, somente em 2019, foram 11 cidades visitadas. Nas escolas, alunos, professores, pedagogos e toda a comunidade participa. E numa das interações numa escola em Belo Horizonte, ocorreu algo inusitado. A professora Denise Valente, da Escola Estadual José Mesquita de Carvalho, repassou ao filho do escritor e idealizador do projeto, Bernardo Sabino, uma crônica em que o escritor mineiro relembrava os anos da infância em que estudou na Escola Estadual Afonso Pena. Saboroso, o texto escrito em 24 de dezembro de 2001 é um belíssimo presente de Fernando Sabino para Belo Horizonte (leia abaixo). “A crônica foi encontrada durante o processo. Criamos em cada escola, para os pedagogos divulgarem o que está acontecendo no dia a dia, grupos de comunicação”, conta Bernardo.

A carta de amor à capital onde o escritor nasceu traz lembranças sobre locais guardados no baú das memórias. Sabino fala da Praça da Liberdade, relembra o Bar do Ponto, que deu lugar ao Othon Palace, e fala saudoso dos tempos em que foi aluno do Grupo Afonso Pena. Sabino descreve a cor do prédio, relembra as brincadeiras durante o recreio. As recordações também falam do Minas Tênis Clube, da Rua da Bahia e da Avenida Afonso Pena.

Em 2019, o Instituto Fernando Sabino e o Instituto Ondular encerram as atividades do projeto com exposição sobre a vida e a obra do autor na Escola Estadual Afonso Pena, onde o escritor estudou. “Essa exposição tem para nós da família, bem como para os diretores e professores da escola, um significado muito especial. O menino Fernando Sabino estudou lá de 1930 a 1934. O despertar do talento do meu pai para a literatura aconteceu quando ele cursava o primário na Afonso Pena. Voltar aqui para nós é sempre emocionante”, afirmou Bernardo, que preside o instituto.

O projeto foi criado em 2005 com o objetivo de desenvolver e realizar eventos culturais para resgatar a memória do autor. Bernardo destaca a vocação da obra do pai para estimular a criatividade das crianças e adolescentes. O contato com a obra de Sabino faz da leitura uma atividade prazerosa, cultivando assim, entre os jovens, o amor pela leitura. Encontro Marcado mobiliza pedagogos, alunos e famílias com o intuito de incentivar a leitura. Ainda contribui para identificar vocações profissionais no campo das artes.

Em 14 anos, o projeto passou por 77 cidades. Entre 2018 e 2019, foram Conselheiro Lafaiete, Peçanha, Cantagalo, Bela Vista de Minas, São Gonçalo do Rio Abaixo, Ponte Nova, Viçosa, Antônio Dias, Catas Altas, Ipaba, Periquito, Açucena, Ferros e Belo Horizonte. Para 2020, o projeto deverá aportar em Mariana, além de ser levado para escolas estaduais da capital. O projeto conta com caderno pedagógico, doação de livros e filmes de Fernando Sabino.

BH – Ontem, hoje e sempre

Fernando Sabino

24 de dezembro de 2001

"Marquei consulta com o famoso cirurgião: precisava fazer com urgência uma cirurgia plástica na minha saudade. Em pouco o Dr. Pitanguy vinha dividir comigo uma conversa nostálgica.

É o meu companheiro desde os velhos tempos de Belo Horizonte, da natação no Minas Tênis Clube, da cavalaria no CPOR, dos namoros no footing da Praça da Liberdade. (Em alguns casos a namorada era a mesma: aquelas irmãs gêmeas, por exemplo... Só que não eram gêmeas – mas uma só, que namorava os dois.)

Dessas partimos para outras lembranças (outras namoradas), que levo comigo (as lembranças) para BH. Será uma viagem terapêutica – para me curar de pungente nostalgia da cidade natal. Meu plano secreto é passar incógnito pelo menos três dias, percorrendo sozinho aquelas ruas de minha infância e das descobertas de juventude.

Pois aqui estou eu, no Othon Palace Hotel (no Bar do Ponto de meu tempo). Mal acabo de chegar, me enveredo pela Rua da Bahia acima. Um só quarteirão basta para superar antigas lembranças. Tudo do meu tempo foi substituído por lojas modernas em prédios arrojados, de uma grande metrópole que estou vendo pela primeira vez. Ganho a Rua Goiás, do antigo Estado de Minas de tantas recordações. Vou subindo a Avenida João Pinheiro, admirando de passagem o novo prédio da Faculdade de Direito – em lugar daquele onde iniciei o curso superior (só Deus sabe onde e como o terminei).

Mais acima me detenho, assombrado: o mesmo prédio cor-de-rosa ao redor do pátio – nós, os meninos, brincando na hora do recreio – o Grupo Afonso Pena do meu curso primário! Não resisto e vou entrando pelo meu sonho adentro, até encontrar lá na varanda a diretora Rosana, a quem me apresento como aluno: “Posso brincar com meus colegas ali no recreio?”. Depois de me confraternizar com ela e algumas professoras igualmente simpáticas, despeço-me de minha infância. E inicio uma caminhada que dura a tarde inteira.

Vou direto à Rua Gonçalves Dias, para nascer de novo: a casa deu lugar a um prédio imponente – mas defronte, vejo-me aos 17 anos, à janela da Secretaria das Finanças, no meu primeiro emprego público.

E a Praça da Liberdade – magnífica surpresa: impecavelmente recuperada, em todo o esplendor da minha lembrança. Vou direto ao banco onde nós, os quatro amigos de uma eterna juventude, tínhamos encontro marcado noite adentro para puxar angústia. O coreto em frente ao lago, os jardins ainda mais belos... Reconheço até mesmo o desvão entre roseiras em flor, onde ousei colher o primeiro beijo de uma namoradinha, esta minha apenas (se não me engano).

Dali, rápida visita ao Minas Tênis Clube, das emocionantes competições de natação. Frondosas árvores impedem que a piscina seja integralmente vista da varanda aqui de cima, e ainda bem: eu correria o risco de perder o campeonato. Em compensação, revejo o salão do bar-restaurante, onde realizávamos aos domingos a nossa animada “missa-dançante”. Por pouco não saio dali dançando.

Então despenco de volta Rua da Bahia abaixo, revendo o que existe só na minha imaginação. Mas aqui está a Igreja de Lourdes de meu batismo e da primeira comunhão!

Entro para uma rezinha maneira, pedindo a Deus que abençoe esta moderna capital de Minas.

Já que a bênção de Deus se manifesta através de surpreendente chuvarada noite adentro, recolho-me ao hotel: darei por encerrada a redescoberta da minha cidade natal, antes que eu ceda à tentação de ficar aqui para sempre. E ainda tive a sorte de esbarrar na rua com um velho companheiro d’armas literárias: José Bento Teixeira de Salles (capaz, como poucos, de reviver no avarandado da memória as lembranças que busquei reencontrar).

Pela manhã, depois de curtir a Avenida Afonso Pena de cabo a rabo, ouso tomar um ônibus desses azuis, modernos e confortáveis, que transitam ordeiramente pelas ruas de uma cidade ultracivilizada. Como se eu estivesse na Inglaterra. (Aqui entre nós, o mineiro tem mesmo qualquer coisa de inglês.) Dirijo-me à Savassi (que era apenas uma padaria ali no Abrigo Pernambuco). Vou direto à agência da TAM, num belo prédio da Avenida Cristóvão Colombo. Sou atendido por uma graciosa jovem, de nome Renata, que antecipa para hoje, com amável presteza, o meu voo de regresso. Passa então a informar minha presença às demais atendentes ao longo do balcão, igualmente jovens e gentis, que logo se juntam conosco numa amena conversa mineira.

Finalmente, a Avenida Paraúna do meu tempo (hoje Getúlio Vargas), com o antigo Grupo Escolar Barão do Rio Branco, onde minha mãe era professora. E em frente...

Bem, em frente, nada menos que o meu Jardim da Infância Bueno Brandão, tal como era antigamente! Aqui encontrei pela primeira vez um menino de 6 anos chamado Hélio Pellegrino, escondido numa cabana de madeira no pátio do recreio.

Pois só a cabana não existe mais (o Hélio continua vivo no meu coração). Helena, a diretora, me acolhe com alegre amabilidade, apresentando-me a várias professoras e companheiras de quem me torno amigo de infância. Uma delas, que sai comigo rua afora, alta e atraente como uma artista de cinema, me faz lembrar a reação de Charlie Chaplin ao conhecer Sophia Loren: “Que saudade dos meus 60 anos!”.

Tão logo chego ao Rio, envio um livro com carinhosa dedicatória a cada uma de minhas novas amigas: as da empresa de viagem, as do jardim da infância e do grupo escolar, e ainda a Rebecca, gentil assessora do hotel. Ao todo, 20 livros – alguns, de minha correspondência com Clarice Lispector – Cartas perto do coração.

Posso assegurar-me que em Belo Horizonte passei a ter 20 leitoras perto do coração."


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