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Luto, trauma e medo no Caiçara


postado em 23/10/2019 04:00 / atualizado em 22/10/2019 22:06

Técnicos de empresas de telefonia e energia ainda trabalhavam ontem para normalizar os serviços(foto: fOTOS: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Técnicos de empresas de telefonia e energia ainda trabalhavam ontem para normalizar os serviços (foto: fOTOS: Jair Amaral/EM/D.A Press)


O comerciante Cristian Tadeu Aguiar Palhares, de 43 anos, olha incrédulo para o que restou do toldo da loja de bolsas e acessórios de que é proprietário. Feito de lona, o toldo não existe mais. Foi derretido pelo fogo. A haste com o material queimado marca o ponto onde ele estava segundos antes da queda do monomotor PR-ETJ, modelo SR 20, na Rua Minerva, no Bairro Caiçara na manhã de segunda-feira. Na placa de fachada, mal se lê Dan'ma Calçados Bolsas e Acessórios, devido à fuligem que escondeu as letras. A loja fica a menos de 50 metros de onde o monomotor parou antes de explodir. Foi a segunda aeronave de pequeno porte que caiu em seis meses na mesma via, causando três mortes e deixando outras três pessoas feridas.

Cristian acabara de abrir a loja quando ouviu o estrondo e sentiu o calor nos braços e pernas. A sensação é de ter nascido de novo: 'Agora tenho duas datas de nascimento, 1º de julho e 21 de outubro.” “Presenciei o acidente. Estava terminando de baixar o toldo. Quando baixei, fui para a lateral e quando cheguei ao segundo toldo, coloquei o ferro (para hastear) e já ouvi um estrondo e vi uma chama de fogo. Aquela gritaria! Só via fogo e gente gritando, 'socorro, socorro', mas não tinha como ajudar. Foi muito rápido. Tinha fogo, bem alto”, relembrou.

A cena demorará um tempo para ser esquecida por quem ainda agradece por ter escapado vivo. Cristian e outros moradores do Bairro Caiçara, Região Noroeste de Belo Horizonte, tentavam se refazer dos momentos dramáticos vividos no dia anterior. Ontem, técnicos de empresas de telefonia e energia ainda trabalhavam para normalizar os serviços.

O cheiro de fumaça ainda era forte e as pessoas do bairro estavam sem acreditar que havia ocorrido o segundo acidente aéreo na mesma rua. Mesmo no asfalto negro, a cor acentuada indicava que ali era o local exato da explosão. As pessoas tiravam a fuligem das janelas e lavavam tapetes e calçadas na esperança de retomar à rotina.

Em sinal de luto, Klécia Nayara fechou ontem a academia localizada na área do acidente
Em sinal de luto, Klécia Nayara fechou ontem a academia localizada na área do acidente


A Academia BioFit Cross fechou as portas durante todo o dia de ontem, em luto pelas pessoas que morreram no acidente com o monomotor PR-ETJ. No momento do desastre, havia um número menor de alunos do que habitualmente. Cerca de 30 pessoas estavam na academia. "Por pouco, a tragédia não foi maior. Temos alunos de crossfit que fazem aula na rua, mas ontem naquele horário não havia nenhum", relata Klécia Nayara Pereira de Freitas, de 34 anos, uma das proprietárias. Quem estava na academia não pôde sair pela porta da frente, uma vez que era o local onde a aeronave estava em chamas. Os alunos foram orientados a sair por uma porta da rua lateral. Apesar do susto e da fumaça, todos conseguiram escapar sem ferimentos e sem complicações pela inalação da fumaça.

O reflexo do trauma vivido pelos frequentadores da academia, porém, pode ser mensurado pelo número de clientes na loja de suplementos alimentares, que costuma ficar cheia pela manhã. Ontem, havia apenas um cliente, o empresário Gustavo Canabrava, de 32.

Cristian Tadeu viu o toldo de sua loja ser derretido pelo fogo e ainda não se refez do susto
Cristian Tadeu viu o toldo de sua loja ser derretido pelo fogo e ainda não se refez do susto


Ainda assustado, Gustavo tentava voltar à vida normal. No entanto, lembra que não é possível viver e circular de maneira tranquila pelo bairro quando se sabe que o Aeroporto Carlos Prates seguirá operando. “Aeroporto é necessário. Mas é seguro o treino de aeronaves de pequeno porte em região residencial e de comércio tão intenso?”, questionou. A empresa de Gustavo fica no quarteirão ao lado de onde o monomotor caiu. “Na hora do acidente, quatro pessoas trabalhavam na minha empresa. Estava a caminho. Se um funcionário eventualmente tivesse morrido, como eu explicaria para a família? Ele estava trabalhando e um avião caiu na cabeça dele”, afirmou. Ele participa do grupo “Aeroporto, não!”, criado no Telegram, que mobiliza os moradores contra o funcionamento do aeródromo.

POR UM TRIZ Muitas são as histórias de pessoas que escaparam por um triz do acidente. A comerciante Nelma Maria Timóteo, de 48 anos, contou que o irmão estava a poucos metros de onde o avião caiu. "Por um pouquinho meu irmão não morreu. Alguém o cumprimentou e ele diminuiu o passo", disse. A queda do avião a apenas 100 metros do local onde ocorreu o acidente de abril também intriga. “Estou apavorada até agora. No mesmo lugar, na mesma rua, com tão pouca diferença?", questiona Nelma.

Às 8h14min03 de segunda-feira, o avião modelo SR 20 decolou da pista do Aeroporto Carlos Prates, cruzou a Avenida Dom Pedro II e alcançou os limites do Bairro Caiçara. Nesse momento, fez retorno brusco na própria rota e caiu na Rua Minerva, em frente ao número 308, exatos 21 segundos depois de levantar voo. Antes do choque no solo, às 8h14min24, abriu um paraquedas, que ficou esticado pela Rua Minerva, e ainda atingiu três veículos. O avião e os carros pegaram fogo.


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