Jornal Estado de Minas

CASO MAGNUM

Saiba como foi a apuração e por que a polícia concluiu que não houve estupro em escola de BH



Depois de duas semanas de investigações, a Polícia Civil concluiu que não são procedentes as denúncias de abuso sexual contra o auxiliar de educação física do Colégio Magnum – unidade Cidade Nova – no Bairro Nova Floresta, na Região Nordeste de Belo Horizonte, Hudson Nunes de Freitas, de 22 anos. O registro do caso foi feito inicialmente por uma mãe de criança de 3 anos e depois chegou a sete boletins de ocorrência. Todas as denúncias tiveram como alvo crianças do Maternal III da instituição de ensino. A equipe que trabalhou no caso entendeu que não existem provas de estupro de vulnerável, crime para o qual foi aberto inquérito, que tenha sido cometido por Hudson ou por qualquer outro profissional da escola e não foi encontrado nenhum indício de outros abusos que pudessem ter ocorrido fora dos muros do colégio. O jovem se disse aliviado pela conclusão do caso comprovando sua inocência e quer seguir a vida, enquanto seus advogados anunciaram que vão buscar reparação pelos danos à imagem do cliente.

Para chegar ao resultado do inquérito de 385 páginas, a equipe, que teve à frente as delegadas Thaís Degani, responsável pelo caso, Renata Ribeiro, chefe da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e do Adolescente (Depca), e Elenice Cristine Batista Ferreira, chefe da Divisão de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente (Dopcad), usou duas frentes, que respaldaram o não indiciamento de Hudson. Por um lado, o trabalho técnico se desdobrou em sete vertentes, com destaque para os depoimentos de 41 pessoas, incluindo a escuta qualificada das crianças, análise do celular de Hudson, exames de corpo de delito, levantamento da vida pregressa do suspeito, avaliações psicológicas de crianças e seus representantes legais, avaliações de áudios encaminhados à delegacia pelos pais das crianças e análise das câmeras (veja quadro).

Em outra frente de ação, a Polícia Civil recebeu indicação das duas psicólogas e de uma psiquiatra que trabalharam no caso de cinco elementos que interferiram diretamente para que os pais que fizeram as denúncias procurassem a polícia. O principal deles foram as conversas de maneira considerada inadequada entre pais e filhos, que levaram os responsáveis a acreditar de forma errônea que tivesse havido algum tipo de abuso.
Também entram nesse caso as conversas entre os pares (crianças), divulgação do caso na mídia, produção de rumores nas redes sociais e o recebimento de informações de forma indireta.

As delegadas Thais Degani, Elenice Cristine e Renata Ribeiro apresentam o resultado do inquérito de 385 páginas - Foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press

“A Polícia Civil não trabalha com o propósito de alcançar suspeitos a qualquer custo. Concluímos pelo não indiciamento do suspeito Hudson Nunes de Freitas considerando a ausência de elementos de autoria bem como prova da materialidade”, disse Elenice Cristine, que foi complementada por Thaís Degani. “A suposta vítima inicial, bem como as demais, não sofreram abuso sexual pelo investigado nem por qualquer outro professor ou integrante da escola”, afirma.

Assim que soube do resultado da investigação, Hudson desabafou. "Fui do inferno ao céu. É uma sensação de alívio misturada com superação. Diante de tudo isso, consegui dar a volta por cima, com a ajuda dos meus advogados. Sem eles, eu não conseguiria chegar onde chegamos", afirma o jovem.
Ele conta que chegou a pensar no pior, mas encontrou forças para provar sua inocência. "O desespero veio por ser acusado injustamente. Mas como eu sabia que era inocente, tentei manter a consciência tranquila e agora só se concretizou o que eu esperava", afirma.

O jovem acredita que a manifestação de pais e mães de alunos que abraçaram sua versão dos fatos de que nunca havia ocorrido nenhum abuso foi muito importante para o resultado da investigação. "Ao mesmo tempo que me senti no fundo do poço, percebi que tinha alguém para me tirar de lá. Eles foram pais e mães de verdade, porque é muito fácil julgar e acusar sem ter provas e sem conhecer", afirma. Apesar de o Colégio Magnum já ter se manifestado colocando o cargo que Hudson ocupava de auxiliar de educação física à disposição para o retorno do jovem, ele conta que ainda não se decidiu. "Estamos analisando a situação e vontade é o que não falta. Mas ainda não tomei essa decisão", diz ele.

O advogado Fabiano Lopes, que o defende, pontuou qual será o caminho da defesa do jovem de agora em diante.
Ele garante que vai buscar reparação dos danos sofridos por Hudson. "A imagem do Hudson ficou prejudicada para o resto da vida. Entendemos que houve dolo por parte de algumas pessoas, mas tudo precisa ser melhor analisado. Providências têm que ser tomadas, porque a imagem do Hudson ficou totalmente desmoralizada perante a sociedade. Mesmo não sendo indiciado, qual pai chamaria Hudson para cuidar de seu filho com uma acusação tão grave que ele sofreu?", questiona.

Lopes avaliou também que a postura da escola foi correta e por isso não pretende buscar nenhum tipo de reparação do Magnum. A escola já informou que o cargo do auxiliar de educação física o está aguardando de volta, mas o advogado disse que pretende conversar com os responsáveis pela instituição para que, além da recondução à atividade, o Colégio Magnum assuma o compromisso de contratar o jovem quando ele se formar. "Espero que desta vez a sociedade aprenda a respeitar o contraditório e a ampla defesa. Vários pais o condenaram em redes sociais e grupos de WhatsApp de forma indevida, publicando sua foto com a palavra 'estuprador' embaixo. O que a gente espera é que este seja mais um caso em que a sociedade aprenda que existe um processo legal e que as pessoas têm o direto de se defender”, afirma.

O que diz o Magnum


Em nota, o Colégio Magnum comemorou o resultado das investigações e destacou que seus protocolos de segurança foram cruciais para o esclarecimento do caso. “Inicialmente, decidimos pelo afastamento do colaborador supostamente envolvido, com o duplo objetivo de resguardar a integridade da família e do colaborador e de permitir que o inquérito pudesse tramitar de forma isenta.
Cumprimos nosso papel perante a sociedade, as famílias, nossos educadores e as autoridades competentes. Estando a investigação concluída, permanece o compromisso já firmado com o colaborador afastado de manter sua vaga garantida tão logo ele queira e possa retomar suas atividades”, informou a escola.

Como foi a apuração


A Polícia Civil concluiu pelo não indiciamento do auxiliar de educação física Hudson Nunes de Freitas, de 22 anos, no inquérito que investigou denúncia de estupro de vulnerável

» A conclusão foi baseada em levantamentos que totalizam um inquérito de 385 páginas

» A investigação se apoiou em sete técnicas para concluir o trabalho:

1) 41 depoimentos foram colhidos, incluindo o de Hudson, crianças que eram alvo da denúncia, pais e representantes da escola. As oitivas das crianças foram feitas por meio de escuta qualificada

2) Análise de mais de 30 horas de câmeras focadas nas aulas de educação física da turma do Maternal III do colégio

3) Avaliações psicológicas de crianças e seus representantes legais

4) Laudos de avaliação de áudios entregues por alguns dos pais que questionaram seus filhos sobre os fatos

5) Levantamento da vida pregressa do investigado para buscar elementos que pudessem justificar alguma conduta de abuso

6) Exames de corpo de delito nas crianças cujos pais fizeram a denúncia

7) Análise do telefone do investigado, a partir do cumprimento de um mandado de busca e apreensão

» Ao fazer esse levantamento, a equipe policial não encontrou nenhuma evidência. Por isso, concluiu que não houve abuso. Para explicar os motivos das denúncias que não tiveram comprovação, as delegadas ouviram de duas psicólogas e uma psiquiatra que cinco fatores interferiram na situação:

1) Técnicas de conversa entre pais e filhos que prejudicam a exatidão da declaração

2) Conversas entre pares (conversas entre as próprias crianças levadas ao conhecimento da polícia)

3) Recebimento de informações de forma indireta

4) Ampla divulgação do caso pela imprensa

5) Produção de rumores a partir da circulação da informação em redes sociais


E mais


Morre criança furtada pelo pai


O pequeno João Miguel, diagnosticado com atrofia muscular espinhal (AME), morreu ontem. O menino, filho de homem preso sob suspeita de desviar verba arrecadada por meio de campanha de doações, tinha acabado de completar 2 anos de idade, no dia 5. “A mãe está muito abalada e não consegue explicar direito o que aconteceu. Toda a situação é muito triste”, contou a advogada da família, Vanessa Reis. A criança morreu em Belo Horizonte, após ser internada na madrugada, e o corpo será enterrado em Conselheiro Lafaiete, na Região Central de Minas, onde a família reside. Em julho, Mateus Henrique Leroy Alves, de 37 anos, pai da criança, foi preso em Salvador, onde levava uma vida de luxo depois de fugir com mais de R$ 1 milhão em doações para o tratamento da criança.

Autorização para plantar maconha


Em meio à discussão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre utilização medicinal e plantio da Cannabis sativa, a maconha, uma família de Minas Gerais ganhou o direito de cultivar a planta.
Um casal de Uberlândia, na Região do Triângulo Mineiro, obteve na Justiça autorização para plantar a maconha em casa. O cultivo foi considerado fundamental para o tratamento do filho, que tem paralisia cerebral e síndrome de West. Isso faz com que ele tenha diversas convulsões. A decisão da 3ª Vara Criminal de Uberlândia ratificou liminar concedida em novembro do ano passado. Na época, o casal solicitou a autorização alegando que o garoto, de 5 anos, tem uma péssima qualidade de vida devido às seguidas convulsões.
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