Jornal Estado de Minas

Sabedoria do campo

Agricultor defende 'cota para brancos' em faculdade pública. Entenda por quê

A criação de uma faculdade pública com “cotas” para brancos. A proposta é de um pequeno produtor rural de 74 anos, de Montes Claros, no Norte de Minas, que, mesmo com “pouca leitura”, virou doutor. Antes que sua proposta possa causar estranhamento, o ambientalista Braulino Caetano dos Santos, que idealiza a implantação de cursos de agroecologia voltados para a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável, explica qual o sentido: transmitir também a estudantes da escola privada a sabedoria das comunidades tradicionais na conservação da natureza.



 

Braulino recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), após aprovação pelo Conselho Universitário da instituição, com base na trajetória do pequeno produtor rural. Ele ganhou destaque pela luta em defesa do cerrado, das águas e dos povos tradicionais do bioma, criando e participando de várias entidades envolvidas na luta pelo desenvolvimento sustentável. Com isso, virou objeto de estudo em dissertações de mestrado, teses de doutorado e monografias em universidades, além de ser convidado para encontros e conferências em outros países.

 

A entrega do título de doutor honoris causa ocorreu na abertura do 4º Colóquio Internacional dos Povos Tradicionais. E foi durante o evento que Braulino anunciou a proposta da criação da faculdade com “cotas para brancos”. De acordo com o agricultor e ambientalista, a ideia é a criação de uma faculdade pública que venha a oferecer cursos de agroecologia, destinados a negros, indígenas e outros povos tradicionais, mas que reserve vagas também a alunos da escola privada – hoje, as reservas nas universidades priorizam os alunos do ensino público.

 

Segundo Braulino, o objetivo do curso de agroecologia com “cota para brancos” seria transmitir informações sobre as práticas relacionadas à conservação do cerrado e das águas, além de estimular estudos e mais conhecimento sobre as populações tradicionais. “A ideia é que as pessoas possam conhecer e respeitar o cerrado, a questão hídrica e a importância das comunidades tradicionais.”



 

O ambientalista explicou ainda que iniciativa visa a incentivar os filhos dos pequenos produtores a conhecer mais as práticas sustentáveis e se interessarem em permanecerem na zona rural, trabalhando nas pequenas propriedades, “sem ter vergonha dos seus pais”. Desta maneira, explica, o objetivo também é combater o êxodo rural e estimular a produção no campo, fomentando a agricultura familiar. “O que acontece hoje é que quando formamos um filho nosso em curso de técnico agrícola, por exemplo, ao receber o diploma, parece que ele tem um passaporte para desaparecer”, avaliou.

 

Para ele, com o êxodo rural e a falta de interesse dos jovens em trabalhar a terra, o campo está sendo cada vez mais esvaziado. “Perto das grandes cidades, as pequenas propriedades estão se tornando áreas de lazer de grandes empresários, que deixam nelas um caseiro para preparar o churrasco no fim de semana”, comenta. Segundo ele, o curso de agroecologia gratuito visa a reverter essa situação.

 

Braulino Caetano conta que já discutiu a ideia da criação da faculdade de agroecologia com “cotas para brancos” com professores e com integrantes do Centro de Agricultura Alternativa (CAA) do Norte de Minas, organização não governamental (ONG) voltada para apoio aos pequenos agricultores e comunidades tradicionais, que ele ajudou a fundar.



 

 

Escola da vida


Devido à sua atuação na defesa do cerrado e das comunidades tradicionais, o agricultor e ambientalista Braulino Caetano dos Santos tornou-se objeto de estudos e dono de uma sabedoria agora reconhecida também pelo título da Unimontes. Ao receber o título de doutor honoris causa, entregue pelo reitor Antônio Alvimar Souza, não mudou seu estilo de homem do campo: usava chapéu de couro e botina.

 

 

Apesar do título, o ambientalista não tem receio de dizer que tem “pouca leitura”. “O que aprendi da escola foi consequência da vida”, afirma Braulino. Ele disse que era completamente analfabeto até os 32 anos, quando assumiu o cargo de secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Montes Claros. Foi aí que aprendeu a ler e a escrever com a ajuda da mulher, que era professora leiga. O aprendizado foi “por necessidade”, já que ele se tornou o responsável pela elaboração de atas das reuniões da entidade.

 

A “pouca leitura” não o impediu de voar alto. Tanto que, além de ter atuado na criação de várias entidades voltada para a conservação ambiental e para a defesa das populações tradicionais – entre elas a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), a Articulação do Semiárido (ASA) e a Rede Cerrado –, Braulino Caetano já participou de encontros e conferências ambientais em países como Estados Unidos, Alemanha, Itália, Turquia, Moçambique e Argentina.