Jornal Estado de Minas

Casamento coletivo celebra união de casais LGBTI em BH

 


O amor não tem limites para a coragem, para a determinação e o afeto. Vinte e cinco casais disseram sim à diversidade e participaram, na manhã desta sexta-feira, da cerimônia de casamento igualitário LGBTI, promovida pela Defensoria Pública de Minas Gerais. Ao som da tradicional marcha nupcial, os noivos e noivas mostraram que todo amor é bonito e feio é não amar. “Moramos juntas há três anos e estar aqui hoje é uma forma de mostrar a todos que nosso amor existe”, afirma Nicolle Rodrigues Felício Miranda, de 21 anos.




E ela faz questão de dizer o nome completo, já que, agora, traz também o sobrenome da mulher, Lygia Maria Miranda Felício, de 19, por quem se apaixonou quando ainda estava na escola. Vestida de branco e com coroa de brilhante no cabelo, Lygia levava nas mãos singelo buquê de papel crepom e tecido feito pela mãe. “Quando a vi, sabia que ia ser pra casar”, conta.
Ivanir dos Santos e Emily Xavier (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)

Em sua terceira edição, a iniciativa ofereceu mais que o sonho de formar uma família e garantiu aos casais de lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, os direitos civis, previdenciários e sucessórios decorrentes do casamento. Na prática, o cônjuge passa a poder ser incluído no plano de saúde, clube, a ter o direito de herança e patrimônio, a depender do tipo de união formalizada, entre outras garantias.

Mas, para a noiva Emily Xavier Santana, de 27, mulher trans, o casamento, além do papel assinado, é a felicidade de se sentir amada. "Este é mais um grande dia pra nós, pra história feliz que temos pela frente", afirma. Ela e o noivo Ivanir dos Santos Nascimento Júnior, de 35, eram só chamego durante a celebração e assistiram o tempo todo de mãos entrelaçadas. Daqui pra frente, eles planejam seguir a vida como qualquer outra família. “Quero continuar crescendo junto dele e planejamos também mais para frente um filho”, diz.



Os dois se conheceram pela internet: ela em Fortaleza, ele em BH. Foi o primeiro relacionamento de Ivanir com uma pessoa trans e, de cara, ficou encantado. “A primeira coisa que reparei foi a beleza”, diz, sorrindo para a morena de lábios carnudos e batom vermelho escarlate. Namoraram à distância por sete meses e, há três anos, Ivanir tratou de convencer Emily a se mudar para a capital mineira. “A mãe dele só disse que ele já era maior de idade e só queria que eu o fizesse feliz. E é isso que estou fazendo”, conta.

Um total de 63 casais oficializaram a relação no civil por meio da iniciativa, mas somente 25 quiseram participar da celebração, que ocorreu na Sala Minas Gerais da Orquestra Filarmônica, no Barro Preto, Região Centro-Sul da capital. Na festa da diversidade, cada um foi do jeito que sentiu mais bonito. Vestidos coloridos, ternos e gravata ou suspensório e, para os mais despojados, tênis e calça jeans.

O cozinheiro Max Emiliano, de 29 anos, e o agora marido, Davenir Moscardini, de 19, também cozinheiro, escolheram o mesmo modelo de terno e usavam gravata e lenço na lapela das cores do arco-íris. “Esse evento abre as portas ma questão da cidadania e mostra que nós também somos uma família. E seguiremos vivendo nossa vida, nós dois e nossos dois cachorros, Ozzy e Vilma”, diz.



Lygia e Nicole Miranda posam ao lado do bolo da cerimônia (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)

Na celebração da diferença, também houve espaço para a tradição, com direito à bolo de três andares, bem-casado e entrada ao som da marcha nupcial. Na hora da troca das alianças, uma comoção tomou conta da cerimônia. Além dos anéis, casais trocaram beijos e declarações ao pé do ouvido.

DIREITOS O defensor público de Direitos Humanos, Coletivos e Socioambientais, Vladimir de Sousa Rodrigues, explica, apensar de terem ocorrido 63 casamentos no cartório, muitos casais preferiram não ir à cerimônia por receio da exposição pública. "As famílias LGBTI são como qualquer outra. É preciso conviver com a diferença", afirma.

Durante a cerimônia, o defensor aproveitou o ambiente da Orquestra Filarmônica para dar o recado, na forma de música. “Eu vejo a vida melhor no futuro. Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia que insiste em nos rodear”, cantou, entoando os versos de Tempos Modernos, de Lulu Santos, que este ano ficou noivo do piloto Clebson Teixeira.

Conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Dalcira Ferrão, reforçou que um evento como o casamento igualitário LGBTI seria impensável 15 anos atrás. “Se estamos aqui, é porque as coisas estão caminhando. Mas é necessário garantir todos os direitos a essa população que vem sendo assassinada, direitos de segurança pública, de saúde”, cita.



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