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Estado de Minas ENSINO SUPERIOR

'Democracia ferida de morte': reitor da UFVJM critica nomeação de sucessor

Bolsonaro nomeia 3º colocado em lista tríplice para a Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Mais bem votado questiona quebra de protocolo. MEC diz que não há hierarquia


postado em 11/08/2019 04:00 / atualizado em 11/08/2019 07:56

Entrada do câmpus Diamantina da universidade, a terceira em que não foi escolhido como dirigente máximo o primeiro nome da lista enviada ao MEC(foto: Ufvjm/Divulgação)
Entrada do câmpus Diamantina da universidade, a terceira em que não foi escolhido como dirigente máximo o primeiro nome da lista enviada ao MEC (foto: Ufvjm/Divulgação)
O presidente Jair Bolsonaro nomeou o novo reitor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), mas, para surpresa da comunidade acadêmica, o nome escolhido foi o menos votado da lista tríplice indicada pelo Conselho Superior da instituição. O nomeado, o professor Janir Alves Soares, obteve 8% dos votos dos professores na eleição aberta à comunidade acadêmica e nove dos 53 votos do conselho.
 
É a terceira nomeação em que o presidente da República não segue a decisão da maioria da comunidade universitária. Antes, Bolsonaro havia escolhido como reitores, respectivamente, o segundo e terceiro colocados para as federais do Triângulo Mineiro (UFTM) e do Recôncavo da Bahia (UFRB). Janir, cujo mandato começou ontem, comandará a universidade no próximo quadriênio (2019-2023).
 
O atual reitor e o candidato mais bem votado da lista tríplice, Gilciano Saraiva Nogueira, lembra que a escolha do reitor é prerrogativa do presidente, mas diz que a nomeação do candidato menos votado rompe uma tradição. “A democracia na instituição foi ferida de morte. Para Brasília, foi só uma decisão. Para nós, afeta o destino da instituição”, afirma. A escolha de reitores deve cumprir quatro etapas. Na primeira, é feita consulta à comunidade acadêmica. Podem votar professores, técnicos administrativos, de laboratórios e alunos. Porém, o voto dos professores tem peso de 70%; dos técnicos, de 15%; e dos alunos, de 15%. Os nomes mais votados seguem para o Conselho Superior, que elabora a lista de três candidatos que segue para o MEC e, posteriormente, para a escolha do presidente da república.
 
Cinco chapas se cadastraram para concorrer à reitoria da UFVJM, mas uma delas desistiu antes da eleição. A chapa encabeçada por Gilciano obteve 271 votos, seguida pela chapa do professor Alexandre Christófaro Silva, com 228 votos, Marcus Guelpeli, 59, e Janir Alves Soares, 53. Os quatro nomes seguiram para o Conselho Superior da universidade, que indicou a lista tríplice composta por Gilciano, Alexandre e Janir. Nessa instância, também houve mudança. Os conselheiros inverteram as posições do quarto e terceiro lugares: Janir, que era quarto, subiu para a terceira posição.
 
A lista tríplice indicada pelo Conselho Superior seguiu para avaliação técnica do Ministério da Educação e posteriormente para a avaliação do presidente da República. “A decisão do presidente pega a comunidade acadêmica de surpresa”, diz Gilciano. O ex-reitor não sabe ao certo a razão pela qual não foi escolhido, mas suspeita que a motivação não se deu por razões administrativas. O reitor questiona se a decisão do presidente não foi guiada por aspectos políticos. “O presidente diz que não quer reitor com viés de esquerda e quer que tenha capacidade de gestão. Basta olhar os números da universidade. Em termos de viés, passei por seis ministros da Educação. Fui presidente do fórum reitores de Minas Gerais. Se identificou viés em mim, gostaria de saber qual”, diz.
 
O reitor recebeu caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi quem criou a universidade. O momento foi registrado em fotografias. “Recebi o Lula no final de 2017. Recebi o Lula como receberia qualquer outra autoridade. Foi durante a gestão dele que a universidade foi criada e expandida. Foram investidos R$ 500 milhões. Imagino que a foto tenha sido ponto crucial para decisão do presidente”, afirma.
Gilciano disse que mantinha bom relacionamento com o MEC e que, do ponto de vista da gestão acadêmica, os números falam ao seu favor. “Assumi como reitor em momento complicado, em 2015, quando começaram os contingenciamentos de verbas. Assumi com passivo de mais de R$ 70 milhões e uma dívida de custeio de R$ 8 milhões. Com ajuda do MEC, conseguimos sanear as contas. Estamos entregando a universidade financeiramente controlada. Por isso, ganhei a eleição. Meu mérito é administrativo”, diz.
 
Janir Alves Soares é graduado em odontologia pela Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina (Fafeod), além de mestre e doutor em Endodontia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). O novo reitor também tem pós-doutorado em microbiologia bucal pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG (ICB/UFMG) e já desempenhou diversos cargos de liderança dentro da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, como a vice-diretoria da Faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde (FCBS/UFVJM). A reportagem tentou em contato com Janir, mas, até o fechamento desta edição, não obteve retorno.

LISTA TRÍPLICE Em nota, o MEC informou que não há hierarquia na lista tríplice enviada ao presidente e que “qualquer um dos três nomes pode ser indicado para o cargo de reitor e vice-reitor”. A nota informa ainda que, de acordo com a legislação, “o reitor e o vice-reitor de universidade federal serão nomeados pelo presidente da República e escolhidos entre professores dos dois níveis mais elevados da carreira ou que possuam título de doutor, cujos nomes figurem em listas tríplices organizadas pelo respectivo colegiado máximo, ou outro colegiado que o englobe, instituído especificamente para este fim, sendo a votação uninominal”. 


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