Publicidade

Estado de Minas

BR-040: trecho da Grande BH tem maior mortalidade de motociclistas em 936 quilômetros

Com quase 1,6 mil mortes em batidas de moto no estado em 2018, trecho concentra 36% das fatalidades envolvendo motocicletas na BR-040, de Brasília a Juiz de Fora


postado em 26/07/2019 06:00 / atualizado em 26/07/2019 07:34

Motociclistas entre veículos pesados no trecho crítico: percurso representa apenas 3,6% do total administrado por concessionária, mas tem mais de um terço dos mortos(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Motociclistas entre veículos pesados no trecho crítico: percurso representa apenas 3,6% do total administrado por concessionária, mas tem mais de um terço dos mortos (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)

Na véspera do dia dedicado aos motociclistas em todo o Brasil, comemorado amanhã, números relacionados aos acidentes envolvendo um dos tipos de frota que mais crescem no país chamam a atenção para os riscos de quem ganha a vida sobre uma moto ou usa duas rodas para se deslocar na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em um contexto em que os atendimentos a vítimas de batidas com motocicletas cresce quase 15% no maior hospital de pronto-socorro da capital e dados do seguro obrigatório apontam quase 1,6 mil mortes em Minas Gerais em 2018 nesse tipo de desastre, estatísticas relativas à violência em um dos principais corredores rodoviários do país fazem disparar o alerta quanto aos riscos para pilotos, garupas e pedestres em um trecho relativamente curto de estrada na Grande BH.
 
Dos 936,8 quilômetros da BR-040 que fazem parte da concessão da Via 040, entre Brasília e Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, um trecho de apenas 32 quilômetros concentra nada menos que 36% das mortes e 23% de todos os acidentes com motos registrados no percurso total no primeiro semestre deste ano. Enquanto de janeiro a junho a concessionária notificou 574 ocorrências com 22 óbitos desde o Distrito Federal até Juiz de Fora, aconteceram 132 acidentes e oito mortes apenas no trecho entre Esmeraldas e Belo Horizonte, que vai do Km 500 ao 532 e equivale a 3,4% do percurso total. A Via 040 tem observado duas situações que contribuem diretamente para o aumento do risco nessa área: motoqueiros usando smartphones e pressa na hora de ir ou voltar do trabalho.

Pronto-socorro


O resultado da insegurança nesse e em outros pontos da Grande BH traz impactos diretos para os atendimentos médicos. No primeiro semestre deste ano , o Hospital João XXIII, referência em urgência e emergência na capital, atendeu 2.376 acidentados de moto, número 14,6% maior do que os 2.073 atendimentos do mesmo período do ano passado. Outro indicador que mostra as consequências do perigo para motociclistas é a quantidade de indenizações pagas por acidentes envolvendo motos pelo Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (Dpvat) em Belo Horizonte no ano passado. Foram 107 indenizações por morte, 1.802 por invalidez e 537 reembolsos por despesas médicas suplementares – dados que levam em consideração pilotos, passageiros e pedestres. Em Minas, as indenizações são ainda maiores (veja arte).
 
O fluxo intenso chama a atenção para o trecho de 32 quilômetros na Grande BH que concentra o problema. Nele, em meio ao fluxo pesado de carros, caminhões e ônibus, é muito comum ver motociclistas abusando do tráfego nos corredores e ziguezagueando entre carretas e veículos de passeio, alguns deles usando até smartphones. Esse é o principal cenário do perigo, na avaliação do gerente de Operações da Via 040, Fabiano Xavier.
 
“Tem sido um fator de grande preocupação. Se para o condutor de um carro isso já é um problema, imagina em uma moto”, afirma Fabiano Xavier. Outra questão que tem sido abordada em reuniões semanais do Núcleo de Investigação de Acidentes da concessionária é o horário em que as batidas mais acontecem. O levantamento aponta que a maioria ocorre no início da manhã, em direção a BH, e no fim da tarde, no sentido contrário. “São horários de ida e vinda do trabalho. E muitas vezes quem faz motofrete está nesse meio. O pessoal tenta ganhar tempo pegando o corredor, mas essa conduta traz mais chance de acidentes”, acrescenta.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


Aventura em meio a 70 mil veículos 


Na manhã de ontem, a reportagem flagrou inúmeros casos de motociclistas acelerando pelo corredor. O que acontece nesse trecho é que o fluxo de cerca de 70 mil veículos por dia nos dois sentidos obriga a uma redução de velocidade, muito comum em vários pontos dos 32 quilômetros. Aproveitando essa brecha, os motoqueiros invadem os corredores, muitas vezes escapando por pequenos espaços entre caminhões. “As faixas são para todos os tipos de veículo, e a orientação é para que o motociclista evite usar o corredor”, completa o gerente de Operações da Via 040.
 
A Via 040 tem apostado também em blitzes educativas, nas quais tenta conscientizar motociclistas. Hoje, inclusive, em comemoração ao Dia do Motorista, ontem, e do motociclista, lembrado amanhã, a concessionária promove as abordagens em um ponto da BR-040 em Nova Lima, ao Sul da Grande BH, e também no Anel Rodoviário. Os painéis de mensagens variáveis na rodovia também estão sendo usados para tentar mudar as atitudes de condutores.
 
O caminhoneiro Francisley Wendt, de 48 anos, está acostumado a trafegar pela BR-040 e conhece bem o segmento entre BH e Esmeraldas. Ele conta que já viu todo tipo de imprudência e lembra que os motoqueiros precisam redobrar a atenção, pois quando trafegam pelos corredores podem entrar no chamado ponto cego dos espelhos retrovisores dos caminhões. “As vezes você faz tudo certo, sinaliza a mudança de faixa, mas não vê a moto. Já tive um caso em que um motoqueiro bateu na minha lateral. É muito comum ver moto passando pelo corredor entre dois caminhões-baú. Nesse momento, qualquer movimentação do ar pode desequilibrá-lo e causar um acidente”, afirma.

Atenção


Morador do Rio de Janeiro, o militar Júnior Santana, de 40, conversou com a reportagem quando abastecia antes de seguir viagem para Brasília. “Acho que muitas vezes o motociclista de cidades da região metropolitana adquire a moto e não tem experiência para trafegar em um trecho com trânsito rodoviário, o que acaba causando acidentes. Isso não é só em BH, também acontece em outras regiões do mesmo tipo”, afirma.

O auxiliar de produção Gabriel Pimentel Silva Santos, de 21, mora no Bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, bem às margens do trecho crítico da 040. Ele acredita que a distração é um dos fatores que levam quem pilota motocicleta a um acidente. “Tem a imprudência, mas tem a desatenção. De moto, qualquer vacilo é acidente. E acontece demais de as pessoas quererem cortar caminho, aí o perigo fica ainda maior”, diz ele.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade