Depois de discussão acalorada na Câmara Municipal de Belo Horizonte, quatro emendas a projeto de lei que dita regras para a realização de eventos na cidade prometem acalmar os ânimos. Inicialmente, a proposta ia prejudicar ou até impedir festas importantes do calendário belo-horizontino, como o carnaval. Na sexta-feira, vereadores que assinam a proposta apresentaram complementos deixando regras mais claras, que, segundo eles, flexibilizam a regulamentação como forma de garantir o apoio do Executivo e garantindo distância de pelo menos 100 metros entre o local do evento e casas de repouso, templos religiosos e hospitais.
O projeto de Lei 515/2018 acrescenta dispositivos à Lei 9.063/2005, que regula procedimentos e exigências para realização de evento público em BH. Na quinta-feira, ele foi aprovado em primeiro turno. Assinada por 20 vereadores, proposta impede eventos oficiais do calendário da capital a menos de 200m de hospitais, igrejas e outros templos religiosos. Desta forma, ela inviabilizaria qualquer festa, por exemplo, na Avenida Afonso Pena, por causa da proximidade com as igrejas da Boa Viagem e São José, além de uma igreja evangélica.
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Carnaval de BH recebeu 4,3 foliões; 13% a mais do que o ano passadoFrio bate recordes em Minas e em Belo Horizonte, com temperaturas mais baixas do anoCorrida no Inhotim lembra tragédia de Brumadinho e tenta alavancar turismoNa sexta-feira, uma das emendas acabou com o principal imbróglio e enterrou a ideia de impedir deslocamento ou itinerário que não obedecesse a distância mínima de 200 metros. “O carnaval pode passar na frente de qualquer igreja, o que não concordamos é fazer concentração em frente a ela. Se a pessoa não quer ir para a Marcha para Jesus, para o carnaval, para a parada gay, tem o direito também ao sossego e de ir e vir.
As emendas foram apresentadas pelos próprios autores do PL. A distância foi reduzida. A ideia é que, no segundo turno, seja negociado com o Executivo o distanciamento de 100 metros ou 150 metros, apenas em relação à concentração da multidão, à dispersão e à localização das estruturas (como food trucks, barracas e banheiros químicos). “Ninguém põe palco ou caminhão de som em frente a hospital. Mas queremos garantir essa distância mínima. Com as emendas, o projeto ficou positivo. Não atrapalha o turismo de ninguém nem eventos culturais de empresa alguma”, afirma Fernando Borja.
A justificativa é de que os eventos oficiais concentram grandes multidões, logo, estabelecer um ponto mínimo para que as pessoas se concentrem evita confrontos, violência e depredações na porta desses locais.
Borja cita ainda caso da Igreja Presbiteriana da Praça ABC, no Bairro Funcionários, que no carnaval do ano passado também sofreu ação de vândalos e este ano teve de ser revestida de tapumes – o local foi palco de concentração e de dispersão de blocos. “É direito constitucional a liberdade oculta e ao culto, assim como o direito ao sossego, à segurança, à saúde à preservação do patrimônio histórico. Cremos que o carnaval não será afetado. É só ter bom senso.”
Outra mudança é que a Prefeitura poderá atribuir caráter de exceção a espaços públicos que tradicionalmente já são de grande concentração popular. Assim, mesmo se próximo à Praça da Estação houvesse um tempo religioso, ela poderia ser excluída da lei. O mesmo vale para a Praça de Santa Teresa, na Região Leste, por exemplo, se a Prefeitura der o aval.
CONTRÁRIOS
Os autores do projeto terão que convencer outros vereadores para conseguir a aprovação. Durante a discussão do projeto na quinta-feira houve reação de opositores. Pedro Patrus (PT), Arnaldo Godoy (PT) e Bella Gonçalves (Psol) consideraram que a medida vai tolher manifestações culturais populares e tradicionais na cidade, promovidas inclusive pelas próprias igrejas, e sugeriram a suspensão da matéria para possibilitar mais diálogo entre as partes envolvidas.
Gabriel (PHS) afirmou que o projeto é inconstitucional e delega muito poder ao Executivo, que ficará responsável por definir os locais que poderão receber os eventos. Preto (DEM) e Léo Burguês de Castro (PSL) também se posicionaram contra a medida, que, segundo eles, vai burocratizar e inibir ainda mais a realização de eventos culturais e sociais em Belo Horizonte, que atraem turistas e proporcionam diversão gratuita para a população. Borja alegou, no entanto, que eventos promovidos por entes privados não serão afetados pela norma, que se aplica somente a eventos promovidos pelo poder público. Procurada pela reportagem, a prefeitura disse que só se manifestaria depois da publicação das emendas.
Pelas regras da Câmara, depois de aprovado em primeiro turno, os projetos têm dois dias para ir à plenária do segundo turno. Mas, como houve emendas, elas deverão passar primeiro pela apreciação das quatro comissões por onde o PL 515 tramitou: Legislação e Justiça, Meio Ambiente e Política Urbana; Direitos Humanos e Defesa do Consumidor, e Administração Pública..