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Estado de Minas

De Contagem à Pampulha: revelamos riscos e mistério na rota da febre maculosa

Equipe do EM percorre córrego que liga BH ao foco da doença em Contagem e identifica vestígios de animais que podem ter ajudado a alastrar a febre


postado em 14/06/2019 06:00 / atualizado em 14/06/2019 09:27

Repórteres do Estado de Minas usaram macacões vedados para evitar contágio pela doença e por agentes contaminantes no percurso do Córrego Bom Jesus, que pode estar no centro da disseminação da febre maculosa(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Repórteres do Estado de Minas usaram macacões vedados para evitar contágio pela doença e por agentes contaminantes no percurso do Córrego Bom Jesus, que pode estar no centro da disseminação da febre maculosa (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)

Em meio ao surto de febre maculosa na Região Metropolitana de BH, que mobiliza e preocupa órgãos municipais, estaduais e federais, uma área que funciona como uma espécie de corredor entre Contagem e a área da Lagoa da Pampulha é alvo de atenção especial de autoridades sanitárias e de defesa civil. Como uma estrada tortuosa que se estende entre remanescentes de mata, pastos e moradias, a Microbacia do Córrego Bom Jesus, entre Contagem e Belo Horizonte, é considerada a principal fonte de disseminação dos carrapatos-estrela, transmissores da doença. Os parasitas contaminados propagam um mal grave, que já matou quatro pessoas na cidade vizinha a BH, deixou um doente comprovado e pode ter infectado outros 47 pacientes. Para investigar as particularidades desse manancial e o potencial de avanço da doença por suas margens e bancos de areia poluídos, a reportagem do Estado de Minas percorreu cerca de cinco quilômetros do curso d'água, identificando um cenário e poluição e degradação ambiental, em que se esconde um mistério: qual o agente responsável por ativar a ameaça?

Em meio às ações emergenciais na área de contágio confirmado no Bairro Nacional, que passa por processos de descontaminação e eliminação de carrapatos, duas hipóteses para o surto da febre são investigadas pela força-tarefa intersetorial do Meio Ambiente e da Saúde de Contagem: a dispersão dos parasitas teria se dado por meio das capivaras que transitam entre a Lagoa da Pampulha, em BH, e o município vizinho, ou pelos cavalos que trabalham no transporte de entulho em carroças, já que pastam ao longo da mesma bacia. Percorrendo a área, a equipe do EM identificou roedores na área da lagoa, mas não nos limites de Contagem, o que reforça a suspeita sobre os animais de carga como dispersores da doença.   

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


Tido como corredor de disseminação dos carrapatos-estrela e da febre maculosa, o Córrego Bom Jesus é também vítima de anos de degradação ambiental. Sua foz original na Lagoa da Pampulha, em frente ao zoológico de BH, agora deixou de existir, devido ao assoreamento do reservatório. No local, o que era espelho d'água foi completamente soterrado. Com isso, as águas poluídas serpenteiam atualmente por um canal até encontrar o Córrego Ressaca, que vem do vizinho Parque Ecológico, também por leito assoreado. Os dois mananciais se unem apenas na altura da Ilha dos Amores, 1,5 quilômetro após a foz original. As águas poluídas mantêm afastadas pessoas que frequentam a área turística, inclusive pelo perigo dos carrapatos. Foi nessa altura que a equipe de reportagem do EM ingressou no leito, usando macacões vedados para evitar o contágio pela doença e contato com agentes contaminantes. 

O local da antiga foz é repleto de bancos de areia e brita, principalmente sob a ponte da Avenida Otacílio Negrão de Lima, que margeia a lagoa. Ali, entre lodo, algas e musgo, as pegadas de capivaras de diversos tamanhos se destacam, impressas no solo fofo, demonstrando que os roedores ainda frequentam a região. Contudo, sua presença física não foi notada nesse local. Pelas pegadas, suspeita-se que ainda haja filhotes entre os bandos desses mamíferos, podendo constituir uma geração ainda fértil que tenha escapado dos trabalhos de castração promovidos pela Prefeitura de BH. 

Em vários terrenos na chamada zona quente moradores atearam fogo à vegetação, na esperança de acabar com parasitas. Buscas não encontraram carrapatos nem capivaras na área(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Em vários terrenos na chamada zona quente moradores atearam fogo à vegetação, na esperança de acabar com parasitas. Buscas não encontraram carrapatos nem capivaras na área (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Subindo o curso, o lixo espalhado se destaca pelo leito e pelas margens. Pneus de carros e caminhões, esqueletos de motocicletas, pedaços de móveis, embalagens e tampas de toda sorte formam corredeiras no fundo escuro ou se equilibram sobre a vegetação. O córrego passa dentro da área do zoológico e reaparece na divisa de BH e Contagem, entre os bairros Tijuca e Parque Industrial, na Rua Pedro Celestino Mendonça. Mais uma vez, o lixo e o cheiro forte de esgoto dominam a paisagem. 

Também naqueles bancos de areia há pegadas de capivaras, demonstrando que os animais também circulam por ali. Contudo, a presença de cavalos de carroceiros pastando ao longo do manancial se dá em diversos pontos, sobretudo em áreas próximas a passeios, em um espaço muito usado pelas autoescolas para treinar manobras de estacionamento, e que é frequentado inclusive por crianças. 

Cães, gatos e porcos


Daquele ponto em diante, o córrego entra na área mais crítica para a ameaça da febre maculosa, onde as máquinas pesadas revolvem o solo e o tratam com cal para matar carrapatos. É a chamada zona quente, onde a entrada só é permitida com roupas vedadas. Dali em diante, o córrego percorre terrenos onde ficam moradias da Vila Boa Vista. Neles, criações de porcos, além de cães e gatos domésticos, constituem outro veículo para que carrapatos possam chegar até as pessoas. 
Uma preocupação da prefeitura, que já sendo trabalhada pela administração municipal. Depois das primeiras mortes, alguns vizinhos chegaram a atear fogo aos matagais em seus quintais, temendo que os carrapatos chegassem por esses espaços. Porem, em todo esse percurso a equipe de reportagem não encontrou capivaras – um roedor foi avistado nadando, em outra área da Pampulha – e não foram percebidos carrapatos nos macacões. Um mistério que desafia inclusive técnicos que investigam e tentam conter o surto de maculosa na cidade.

Isolamento, cal e investigação

Placa indicando local de risco(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Placa indicando local de risco (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)

Logo que os primeiros casos de febre maculosa foram confirmados em Contagem, as imediações do Bairro Nacional, próximo ao Córrego Bom Jesus, foram interditadas. Foi isolada uma área de cerca de 230 mil metros quadrados, delimitada pelo curso d'água e pela Rua 1º de Maio, onde fica o terreno no qual se identificaram as primeiras vítimas. Tratores e motoniveladoras revolveram o solo do espaço e um carregamento de cal foi despejado sobre a terra para tornar o ambiente mais alcalino e hostil aos carrapatos e suas larvas.

Os parasitas precisam se enterrar no solo para passar pelos seus ciclos de vida. A época de atividade só termina entre agosto e setembro, antes das chuvas. Em mais uma etapa da mobilização emergencial para combater a doença, hoje está programada dedetização das residências da Vila Boa Vista, uma comunidade à beira da zona de contaminação em uma área de atenção de 150 mil metros quadrados onde o acesso é regulado pela Guarda Municipal e pela Defesa Civil de Contagem. Enquanto isso, mais de 100 cavalos recebem banhos carrapaticidas.   

A segunda fase já está em andamento e consiste numa busca meticulosa de campo pelos carrapatos, capivaras e cavalos infestados. Os roedores surgiram como principais suspeitos pela dispersão dos parasitas, já que os animais foram diagnosticados com a doença na Lagoa da Pampulha, onde o Córrego Bom Jesus deságua. Por esse motivo, as capivaras foram castradas na capital mineira. Contudo, equipes de meio ambiente que esquadrinharam a bacia do córrego e seus afluentes não conseguiram localizar capivara ou carrapatos. “É um trabalho meticuloso e que começou na terça-feira. Os agentes percorreram os locais suspeitos e não viram nenhuma capivara transitando”, afirma a diretora de Fiscalização Ambiental da Prefeitura de Contagem, Sirlene Almeida. Mais estranho ainda, segundo ela, foi o fato de nem mesmo carrapatos-estrela terem sido identificados nesses trabalhos. “Os agentes levam panos brancos e vão passando pela vegetação para que os carrapatos se agarrem e possam ser coletados. Estranhamente, não encontramos nem um exemplar”, disse a diretora. 

Essa situação levou a responsável pela fiscalização ambiental a levantar suspeitas sobre os cavalos que pastam pela bacia. “Pode ser que as capivaras sejam inocentes desta vez. Em levantamentos que fizemos, foi constatado que vários cavalos que percorrem as áreas onde a doença foi identificada participaram de cavalgadas, que são comuns nesta época do ano, podendo ter adquirido os carrapatos contaminados em outros municípios, espalhando-os ao retornar”, suspeita a diretora. 

“Realmente, nunca vi capivaras na região aqui do bairro (Nacional). A gente sabe que tem em outros lugares, na Pampulha, mas aqui, não. Mas carrapato aqui sempre teve, porque os carroceiros trazem muitos cavalos para pastar na beira do córrego (Bom Jesus)”, conta o metalúrgico Emanuel Júnior, de 37 anos, que mora perto da área de atenção. 

Desde que o medo da maculosa passou a habitar a vizinhança, o morador conta que crianças pararam de brincar nas ruas próximas e pessoas tomam caminhos alternativos para evitar possíveis contatos com áreas onde suspeitam que possa haver parasitas. “Essa situação deixou todos nós assustados. Antes, vinha andar de bicicleta com meus filhos, de 6 e de 8 anos, jogava bola com eles. Agora, ninguém mais confia. Os meninos estão tendo de ficar em casa, já que os pais não querem arriscar”, contou Emanuel, resumindo um sentimento que se tornou companhia da comunidade.


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