Jornal Estado de Minas

Confira dicas de cartilha lançada para evitar o assédio nos estúdios de tatuagem

As estatísticas mostram um quadro desalentador: 86% das brasileiras já sofreram assédio em lugares públicos. Metade contou que já foi seguida nas ruas, 44% tiveram seus corpos tocados e 37% disseram que homens já se exibiram para elas, aponta a mais recente pesquisa da ActionAid –  organização internacional que trabalha por justiça social, igualdade de gênero e pelo fim da pobreza –, feita este ano. 



Em março, a prisão de um tatuador por por esse tipo de crime chamou a atenção de mulheres sobre a segurança nos estúdios, o que resultou na criação de um manual assinado por elas com orientações para evitar esse tipo de comportamento criminoso durante sessões de tatuagem. Ontem, as cartilhas começaram a ser distribuídas em estúdios de toda a capital.


As autoras da cartilha são tatuadoras, que se reuniram a convite da ativista e professora de literatura Duda Salabert para discutir o tema, logo depois de Leandro Caldeira Alves Pereira, de 44 anos que trabalhava em um estúdio na Savassi, ter sido indiciado por violação sexual mediante fraude contra pelo menos 19 mulheres. “A gente se uniu para criar um material informativo, visto que o ponto em comum nos relatos era a falta de informações das vítimas em relação aos procedimentos de tatuagem”, explica a tatuadora Thereza Nardelli, de 30 anos, que participou da produção do manual, o primeiro do tipo no país. “A gente se inspirou na cartilha que o coletivo “Não é Não” fez durante o carnaval. Foi um trabalho muito legal e nos juntamos para adaptar o texto”, complementa. Infelizmente, sustentou, esse tipo de caso de assédio no ambiente de tatuagem é mais comum do que possa parecer. “É algo que sempre aconteceu e vai acontecer”, afirma.


A cartilha orienta sobre os limites entre o que é uma conduta adequada de um profissional de tatuagem e o que pode ser considerado assédio ou algo mais grave. Antes de fazer uma tatuagem, o primeiro conselho é: conheça o profissional e seu ambiente de trabalho, mesmo que ele tenha boas referências.”Temos que ficar espertas, principalmente, com os toques impróprios. Um bom profissional não vai precisar encostar em você ou se apoiar em alguma região íntima se não tiver completa necessidade desse apoio. Se você estiver se sentido invadida já não é um procedimento padrão”, explica a tatuadora Bruna Martins, de 25, cocriadora da cartilha. Além do mais, alguns dizeres e expressões faciais e pedidos para a cliente se colocar em posições constrangedoras também podem ser considerados assédio.





A cliente deve ser avisada e consentir sobre a necessidade de contato do seu corpo com o do profissional, especialmente em áreas íntimas. “Se (a tatuagem) for em uma área íntima, aconselhamos sua cobertura com papel toalha ou fita crepe. A cliente também pode pedir alguma dica sobre que roupa usar. Por exemplo, se for uma tatuagem nas costas, você pode vestir uma blusa de botão de frente para trás para não ficar nua”, disse Thereza. Segundo a cartilha, não é necessário ficar nua antes, durante nem após a tatuagem – como para o registro fotográfico. A mulher também pode chamar alguém de confiança para a acompanhar ao estúdio de tatuagem. “Levar um acompanhante é um direito seu. Ou também é legal deixar uma pessoa de confiança avisada. Assim, você tem um contato na mão caso aconteça alguma coisa. Não só em situações de assédio, mas, às vezes, a pressão pode cair durante a sessão e você terá uma pessoa pra te ajudar”, complementou Bruna.

(foto: Arte/EM)


PARA OS HOMENS
O manual também traz dicas importantes para os tatuadores e donos de estúdios sobre como orientar sua equipe profissional no que diz respeito ao combate ao assédio e como proceder e definir uma pessoa responsável para o acolhimento de possíveis denúncias. A sugestão é ter uma mulher de referência ou um grupo de mulheres com contatos de órgãos públicos. Outro ponto essencial é combater posturas coniventes dos colegas: “É o ‘coleguismo’ que protege os assediadores em seu meio profissional. É preciso formar uma rede de aliados para que as vítimas sejam acolhidas, e o assédio não pode ter lugar”, diz Thereza. Portanto, converse com todos os profissionais do estúdio e se posicione a respeito de casos de assédio no seu ou em outros estúdios. “Nosso objetivo principal é que qualquer procedimento de tatuagem seja feito de maneira segura – tanto para o cliente quanto para o tatuador”, concluiu Bruna.
Caso ocorra abuso, a orientação é que a vítima reúna o maior número de provas, tais como data, horário, local do assédio, testemunhas e características do agressor. Outro quesito imprescindível é buscar uma rede de apoio, especialmente mulheres que estejam próximas e possam auxiliar. A cartilha também aconselha que se verifique se há câmeras de segurança no local, pois as imagens podem ser úteis para a comprovação da violência. E para que as autoridades possam agir é necessário fazer o boletim de ocorrência.