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Estado de Minas

Morre Dídimo Paiva, referência no jornalismo mineiro

Atuante por mais de 40 anos só no Estado de Minas, Dídimo foi editor de Internacional, Nacional, Opinião e também trabalhou como editorialista do EM. Ele tinha 90 anos


postado em 09/03/2019 09:00 / atualizado em 09/03/2019 16:33

Natural de Jacuí, no Sul de Minas, Dídimo também presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS - 14/10/2011)
Natural de Jacuí, no Sul de Minas, Dídimo também presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS - 14/10/2011)
Morreu na madrugada deste sábado o jornalista Dídimo Miranda de Paiva, de 90 anos, que trabalhou por mais de 40 anos no Estado de Minas, entre 1964 e 2009. Natural de Jacuí, no Sul de Minas, Dídimo foi editor de Nacional, Internacional, Opinião e também trabalhou durante muitos anos como editorialista do EM.

Internado no último sábado por conta de complicações de uma pneumonia, deixou a esposa, Maria Aparecida Murta dos Santos, seis filhos de dois casamentos e sete netos. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) publicou um documentário  sobre o jornalista. Assista.

O jornalista foi um dos símbolos da resistência ao autoritarismo, à censura, à intolerância e também da solidariedade, da amizade, do jornalismo em sua essência, independente. Ao longo de nove décadas, colecionou inúmeros amigos, mesmo entre aqueles que não comungavam com seus ideais. 
 
Dídimo foi um dos precursores do renascimento do movimento sindical brasileiro – desestruturado e massacrado durante a ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964. O protagonismo como jornalista intransigente e defensor das liberdades civis, audaz e destemido, o levou a assumir, em 1975, a presidência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG/Casa do Jornalista), dando início a um novo sindicalismo.
Corpo é velado na Casa do Jornalista, sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG)(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)
Corpo é velado na Casa do Jornalista, sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)
A Casa do Jornalista de Minas Gerais tornou-se, a partir de então, referência dos movimentos sociais e de oposição à ditadura, chegando mais tarde a ser alvo de atentado a bomba atribuído ao grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC), em 27 de agosto de 1980.

Assim que empossado, o jornalista convocou sindicalistas de vários estados para um encontro “de reestruturação do movimento sindical no Brasil”, ocasião que recebeu um telefonema do então governador do estado nomeado pelos militares, Aureliano Chaves (Arena), na tentativa de demovê-lo do encontro que foi proibido pelo governo federal e considerado “subversivo”.

“Ele foi veemente na decisão de realizar essa reunião e apelou ao 'espírito democrático' do então governador para que não obstruísse a iniciativa”, conta o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Monlevade, João Paulo Pires de Vasconcelos, um dos ícones do sindicalismo, ao lado do ex-presidente Lula, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista. “Foi o início da resistência que viria a reunir todas as forças políticas e sociais de oposição ao autoritarismo”, lembra o sindicalista.

Naquele instante, o jornalista reafirmava seu papel de personagem preponderante no cenário político nacional do período, marcado por prisões, sequestros, torturas e, principalmente, pela censura. Tudo o que fosse entendido pelo governo como transgressor ou subversivo deveria ser reprimido e severamente punido.

Dídimo Paiva foi responsável por importantes manifestos políticos e culturais no Brasil, redigidos no Sindicato dos Jornalistas, em favor das liberdades civis, contra a violência ditatorial e exigindo restabelecimento da legalidade constitucional no país (1964), além de ser autor de outro manifesto contra a Lei de Segurança Nacional (1967).

Por seu perfil ético e combativo, Paiva chegou a ser cogitado para ser ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), mas agradeceu a honraria. Em 1985, foi foi convidado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) para participar da discussão e redação do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em 1985.

Resistência

A entrada de Dídimo Paiva no Estado de Minas foi em 8 de abril de 1964, sete dias depois do golpe militar, com a missão de implementar modificações e modernizar o periódico. Em editorial na edição do Estado de Minas de 24 de outubro de 1972, Dídimo optou por falar de liberdade em plena ditadura, usando o Manifesto dos Mineiros, documento publicado em 1943, em outro período ditatorial do país, desta vez sob o governo de Getúlio Vargas. Mais tarde Dídimo passou a editar a primeira página e o noticiário internacional e, a partir de 1994, assumiu o comando da editoria de Opinião.

Mineiro de Jacuí, nascido em 13 de julho de 1928, Dídimo era o sexto de nove filhos de Sebastião José Paiva e Carolina Borges de Miranda. Em 1943, deixou a terra natal e foi para São Paulo, onde trabalhou no jornal Estado de São Paulo e O Tempo. Chegou em Belo Horizonte em 1948, para trabalhar na Tribuna da Imprensa e no oposicionista Binômico (classificado pelos militares como subversivo), marco da resistência da imprensa nacional à censura e à ditadura. Em 1960, vai para o Última Hora, e em 1962, a convite de Guy de Almeida, para o Correio de Minas, além de trabalhar na TV Belo Horizonte e no O Diário.
 

 
Veja alguns depoimentos sobre Dídimo Paiva 


 “Uma das figuras mais importantes da vida política do país. Na década de 70 assumiu a presidência dos jornalistas. Era de uma grandeza, destemor, uma visão social espetacular, de uma importância como pessoa humana excepcional, afetivo amigo, sério só temos boas lembranças”
João Paulo Pires de Vasconcelos, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade.

“Uma figura importantíssima, uma referência na luta pela liberdade de expressão, pelo jornalismo ético, jornalista independente em momentos difíceis. Além disso, um Sindicalista de primeira que revolucionou nosso sindicato abrindo-o aos demais sindicatos, movimentos sociais numa visão muito elevada de um sindicalismo que não está aqui só para tratar de questões trabalhistas específicas de uma categoria mas para abrigar uma gama trabalhadores e suas demandas, além de figura amorosa, gentil querida no Estado de Minas, onde trabalhamos juntos”
Alessandra Mello, presidenta do SJPMG

"Meus sentimentos à família e aos muitos amigos do companheiro Dídimo Paiva. Jornalista corajoso que teve importante papel na construção e articulação nacional do novo sindicalismo. Para sempre em nossa memória"
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República 

“Lembro-me da presidência de Dídimo no sindicato, aqui nesta casa, quantas vezes eu vim aqui e o vi, com sua autoridade moral, de um homem que não seria apedrejado nem de um lado nem de outro, libertar jornalistas presos pelo governo militar. Como sindicalista, Dídimo era um conselheiro dos sindicalistas. Dídimo é um jornalista que tem história, que fez história. Ele teve seus atos e construiu uma memória de dignidade. Quando nos recordarmos dela, com orgulho diremos que fomos amigos de Dídimo Paiva”
Carlos Velloso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal

“Amava a democracia, a liberdade de imprensa, o respeito entre os poderes. Na minha infância, em Belo Horizonte, meados dos anos 70, nossa casa era uma espécie de quartel-general das liberdades democráticas. A casa vivia cheia - eram longas conversas com gente da esquerda, da direita e do centro. Acho que foram alguns dos anos mais ativos - e felizes - da vida dele"
Esdras Paiva, jornalista, filho de Dídimo 


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