“Lá, o pessoal fala que separa as crianças dos adultos. Qualquer erro ou fatalidade resulta em morte”. É assim que o jornalista especializado em montanhismo, Luciano Fernandes, se refere ao monte Fitz Roy, na Patagônia argentina. Nesta quarta-feira, pelo segundo dia consecutivo, as autoridades argentinas interromperam as buscas pelos escaladores brasileiros Leandro Iannotta e Fabrício Amaral. Eles estão desaparecidos desde o último domingo, quando deveriam voltar pela via Franco Argentina, uma das rotas mais utilizadas para se chegar ao cume.
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Homem morre ao cair em cachoeira na Grande BHIdoso perdido é resgatado pelos bombeiros preso em cerca em SalinasAlpinistas brasileiros desaparecidos na Patagônia estão mortosTerminam buscas por escaladores brasileiros desaparecidos na PatagôniaQuem decide se arriscar no paredão argentino, precisa aguardar pelo momento certo. Os montanhistas se deslocam ao local durante a temporada de escalada para o hemisfério sul, entre os meses de novembro e março. Quando chegam, esperam pelas 'janelas': períodos nos quais o vento e a neve dão uma trégua.
“É um ambiente muito complexo para se movimentar, principalmente para se chegar ao paredão. Leva um dia de caminhada, dois para subir e mais um para descer. As últimas 24 horas são as mais perigosas, porque você já está cansado”, relata Edemilson Padilha. Segundo ele, todo o trajeto é feito com o mínimo de equipamento. Além da comida, um fogareiro é primordial para derreter a neve e conseguir água.
A previsão do tempo é a maior amiga dos aventureiros durante todo o trajeto. “As pessoas usam equipamentos avançados para diminuir a possibilidade de erro. Qualquer virada de tempo repentina, os ventos podem atingir velocidades enormes. Mas, as pessoas sabem o risco que correm”, salienta o jornalista Luciano Fernandes. Ele nunca escalou o Fitz Roy, mas já subiu em outras montanhas do país vizinho.
Situação dos brasileiros
Nesta quarta-feira, as buscas por Leandro Iannotta e Fabrício Amaral se mantiveram interrompidas. “Devido às extremas condições climáticas da zona, a busca pelos montanhistas brasileiros se encontra interrompida. Aguarda-se uma janela de melhores condições meteorológicas para garantir a segurança dos socorristas”, informou o Parque Nacional Los Glaciares, órgão oficial empenhado nos trabalhos.
Além de ter escalado o Fitz Roy, Edemilson Padilha tem experiência em salvamentos no local. Em 1995, ajudou a resgatar um estadunidense que sofreu um acidente na montanha. Para ele, a situação dos brasileiros é crítica, mas sempre há chances. “A cada dia que passa, o cenário fica mais complicado”, disse.
Perguntado sobre o trabalho das autoridades argentinas, Edelmison defendeu a estrutura oferecida pelo Parque Nacional Los Glaciares. “Ao chegar, o escalador ganha um registro em Fitz Roy. Toda escalada que você faz, precisa informar quando sairá e quando chegará. Isso é justamente para eles terem um controle”, explica.
Amigo pessoal
O jornalista Luciano Fernandes conhecia o mineiro Leandro Iannotta há 10 anos, quando veio escalar na Serra do Cipó. Segundo ele, Iannotta é fascinado pelo esporte e largou o ramo de origem para se dedicar a uma empresa especializada em guiar escaladores em Minas.
“No final do ano passado, convidei o Leandro para ir a um evento de filmes de escalada que promovemos em Lagoa Santa. Ele ficou muito lisonjeado com meu convite e me disse para escalarmos juntos em Minas. Ele é uma pessoa bastante querida e respeitada no ramo”, disse.
O mineiro era conhecido como Mr. Bean entre os colegas, justamente por sua semelhança com o humorista britânico protagonizado pelo ator Rowan Atkinson.
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