Publicidade

Estado de Minas

Mapa interativo: novos grafites colorem muros em diversos pontos da capital

Pelo menos 24 trabalhos de artistas contratados por meio de projeto da prefeitura já podem ser apreciados a céu aberto na capital, em telas gigantes que colorem de muros a viadutos


postado em 12/01/2019 06:00 / atualizado em 12/01/2019 08:53

A artista Bel Morada se inspirou no poema Liberdade, de Carlos Drummond de Andrade, para homenagear o escritor no elevado que leva o nome dele, na Avenida Cristiano Machado(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
A artista Bel Morada se inspirou no poema Liberdade, de Carlos Drummond de Andrade, para homenagear o escritor no elevado que leva o nome dele, na Avenida Cristiano Machado (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

A arte é livre. Na disputa pela atenção de quem que está no trânsito ou tem à frente os arranha-céus do belo horizonte da capital, as pinturas avançam e ganham cada vez mais espaço, colorindo cada ponto da cidade. Por meio do projeto Arte Urbana – Gentileza, 40 trabalhos de pintura livre, grafite, estêncil e outras técnicas já mudam o visual das ruas. Múltiplas cores começaram a ocupar e vão ganhar ainda mais espaço em equipamentos públicos, viadutos, metrô, escolas, praças e muitos outros pontos espalhados por BH. Hoje, já podem ser visitadas pelo menos 24 telas a céu aberto, num movimento que conta com recursos de R$ 300 mil da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

Nessa onda, começa a tomar forma um desenho na fachada lateral do Viaduto Carlos Drummond de Andrade, na Avenida Cristiano Machado, no Bairro União, Região Nordeste. “O pássaro é livre/na prisão do ar.o espírito é livre/na prisão do corpo./Mas livre, bem livre,/é mesmo estar morto”, diz o poema Liberdade, do próprio Drummond (1902/1987), que inspirou a artista urbana Bel Morada para homenagear o poeta – considerado por muitos o mais influente da literatura brasileira do século 20 – no elevado que leva o nome dele numa das vias mais movimentadas da cidade. Ela foi escolhida por meio de seleção pública da PBH, cujo edital foi lançado em 2017. “Fiz a inscrição com proposta de dialogar com versos de Drummond, usando como referência o Liberdade”, contou. O trabalho dela começou no fim de dezembro e estava sendo finalizado esta semana.

“Meus trabalhos são muito associados às referências da cidade e da memória. Drummond faz muito isso e eu me identifiquei com ele”, contou a artista. Mesmo antes de ficar prontos, os desenhos e frases pintados por ela no viaduto já chamavam a atenção: “Outro dia, enquanto eu pintava, um catador de lixo passou. Ele olhou, leu e se emocionou. Para mim, isso já fez valer todo o meu trabalho”, completou a jovem.

Foto tirada na década de 1980 no Aglomerado das Pedras serviu de base para a pintura de Dágson Silva num dos prédios mais altos da comunidade(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Foto tirada na década de 1980 no Aglomerado das Pedras serviu de base para a pintura de Dágson Silva num dos prédios mais altos da comunidade (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Grafite de Kakaw, sob o Viaduto Congo, na Lagoinha(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Grafite de Kakaw, sob o Viaduto Congo, na Lagoinha (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Durante a seleção para o projeto Arte Urbana – Gentileza foram recebidas 198 inscrições de artistas individuais ou coletivos. Dessas, foram selecionadas 40 propostas de murais artísticos de intervenção no espaço urbano, em suas diversas técnicas e linguagens. Ao todo, serão 15 novos grafites, oito trabalhos de lambe-lambe e oito de muralismo. A cidade também receberá cinco intervenções de estêncil (técnica usada para aplicar um desenho ou ilustração), três de pintura livre e outras técnicas inspiradas na “street art”. A escolha foi feita por meio da Comissão de Habilitação e Seleção, formada por representantes da sociedade civil e do Poder Público e cada proposta selecionada é contemplada com R$ 7,5 mil. “O edital surgiu como uma forma de materializar e expressar o reconhecimento das manifestações artísticas desenvolvidas nas ruas, muros e edifícios do município por meio da arte urbana”, disse Grazi Medrado, presidente da Comissão de Avaliação do Edital de Arte Urbana.


Obra de Karina Amaral, no Parque Municipal Renné Gianetti(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Obra de Karina Amaral, no Parque Municipal Renné Gianetti (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

MULHERES
Em um universo até então dominado por homens, a arte urbana tem acrescentado novos olhares com as mulheres que resolveram se entregar à arte do spray. São muitos talentos espalhados pela cidade – tanto de mulheres emergentes quanto das que estão na luta há muitos anos, mas não tinham visibilidade. O movimento se reflete na seleção municipal, com forte participação feminina: 45% dos artistas escolhidos pelo projeto. Outros 50% se autodeclararam homens e 5% não identificaram o gênero. “O perfil dos selecionados é bastante diverso. Recebemos muitas propostas de artistas já experientes e um volume grande também de jovens, com trajetória ainda curta, mas com propostas muito ricas e interessantes. Os artistas individuais lideraram o número de inscrições e as mulheres são quase metade do total de selecionados”, informou Grazi Medrado.

Trabalho de Ágatha Andrade na Avenida Olegário Maciel(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Trabalho de Ágatha Andrade na Avenida Olegário Maciel (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

O sexo feminino são também tema de trabalhos. É uma mulher negra com uma criança em seu colo que dá vida à empena de uma das unidades dos conjuntos habitacionais do programa de urbanização Vila Viva, no Aglomerado das Pedras, na Região Oeste da capital mineira. O prédio de quatro andares, um mais altos na área, se destaca entre as casas de tijolos. A pintura, feita pelo artista Dágson Silva foi inspirada em uma fotografia da década de 1980 de moradores que ali estavam. “Sou morador, pesquisador e artista do aglomerado e a ideia era fazer uma arte que dialogasse com esse universo.  Foi então que me deparei com a fotografia de duas mulheres em frente a uma casa, possivelmente uma das primeiras do aglomerado. Os olhares delas eram de esperança”, contou. A pintura tenta justamente resgatar a história local. Na imagem, as mulheres seguram crianças, de pés descalços em contato com o barro.

Telas em todos os cantos da cidade

Tateto Kkisi Ria Yalemi, zelador do Centro Espírita São Sebastião, diante do grafite de Cata Preta: 'É uma maneira de trazer a umbanda para fora dos portões do terreiros'(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Tateto Kkisi Ria Yalemi, zelador do Centro Espírita São Sebastião, diante do grafite de Cata Preta: 'É uma maneira de trazer a umbanda para fora dos portões do terreiros' (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Não importa onde você mora nem aonde costuma ir. As intervenções do projeto Arte Urbana – Gentileza estão em toda parte da capital mineira. Nenhuma regional ficou de fora. “Uma das condições impostas pelo edital que selecionou os 40 trabalhos artísticos em execução na cidade era residir no município e tivemos inscrições de várias partes de Belo Horizonte. A região com maior número de propostas inscritas foi a Nordeste. Mas todas receberão pelo menos duas obras artísticas, a maioria em ruas e equipamentos públicos municipais”, informa Grazi Medrado, presidente da Comissão de Avaliação do Edital de Arte Urbana. São 10 trabalhos na regional Centro-Sul, oito na Leste, cinco na Noroeste. As regiões Oeste e Venda Nova receberão quatro intervenções cada uma, e a Pampulha contará com três trabalhos artísticos. Barreiro e as regiões Nordeste e Norte tiveram duas propostas aprovadas.

No Bairro Sagrada Família, na Região Leste, o muro do Centro Espírita São Sebastião, que fica na Rua Geraldo Menezes Soares, foi o escolhido para ganhar nova cara. A pintura, do artista Cata Preta, representa entidades da umbanda, religião formada no início do século 20 no Sudeste do Brasil a partir da síntese com movimentos religiosos como o candomblé, o catolicismo e o espiritismo. “Fui criado na umbanda desde criança e faço parte desta casa. É uma das mais antigas, com mais de 80 anos de história”, contou o artista. Curiosamente, muitos que moram no tradicional bairro não conhecem o centro, porque não há uma grande fachada na frente da casa explicitando seu uso. A ideia é justamente expor a função da casa. “Vamos dar a cara a tapa, externalizar (a umbanda) de uma forma artística, pensei”. E a ideia foi aprovada pelo zelador do prédio, Tateto Nkisi Ria Yalemi: “É uma maneira de informar o que é feito na cultura de tradição dessa religiosidade, de a trazer para fora dos portões dos terreiros. A intenção é mostrar que é possível conviver com o diferente.”

O projeto que levou à abertura do edital para contratação edital nasceu de outro, o Gentileza, que surgiu como um movimento de estímulo a ações gentis para com a cidade e com o cidadão. O Gentileza atua na cidade em várias áreas, como cultura, educação, saúde, políticas sociais, política urbana e meio ambiente. Diversas ações já foram promovidas, como o Mural Liberdade, que cobriu de arte os tapumes que cercaram a Praça da Liberdade durante sua reforma, os muros do Centro de Referência da Pessoa Idosa e cinco instituições de longa permanência para idosos – a meta é contemplar 28.

A idealizadora do Movimento Gentileza é a primeira-dama de Belo Horizonte, Ana Laender. Para ela, a ação agrega muito para a população belo-horizontina, já que, além de valorizar a arte, presenteia a cidade. “É uma ação que colore a cidade, traz uma leveza e sensação de pertencimento”. E o projeto se sustenta com doações. Além de intervenções artísticas, o movimento trabalha em diversos projetos sociais, que vão desde ações para o Natal belo-horizontino, como uma exposição, arrecadação de doações e uma “caravana” natalina, até ações que visam ao cuidado com o idoso. Entre as ações voltadas para esse grupo está o Gentileza Digital, que pretende promover a inclusão digital em 28 instituições de longa permanência de idosos na capital.

Lixeiras revitalizadas

Pinturas enfeitam as lixeiras instaladas na Praça da Liberdade: 'recordação' dos grafites que foram usados nos tapumes durante a reforma do cartão-postal(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Pinturas enfeitam as lixeiras instaladas na Praça da Liberdade: 'recordação' dos grafites que foram usados nos tapumes durante a reforma do cartão-postal (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

A arte chega também às lixeiras. Onze equipamentos que ficam na Praça da Liberdade foram revitalizados por artistas mineiros a convite da Prefeitura de Belo Horizonte. De acordo a administração municipal, a intenção é conscientizar as pessoas da importância de jogar lixo no local certo e valorizar o patrimônio da capital. A iniciativa é da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), em parceria com o Movimento Gentileza, e contou com artistas que trabalham com grafite e muralismo. Ed-Mun, Ramar, Gude, Tão, Kaos, Perdigão, Fênix, Kawany, Bolinho, Clara Valente e Rato, de forma voluntária, fizeram as intervenções artísticas na praça.

A artista mineira Maria Raquel ‘Bolinho’, conhecida por mais de 600 bolinhos grafitados em toda Belo Horizonte desde 2009, foi uma das que participou da ação da prefeitura. Ela conta que a revitalização funcionou como uma segunda etapa da pintura dos tapumes que coloriram a Praça da Liberdade no período que ela esteve em obras. “As pessoas gostaram dos tapumes, tiraram fotos, e continuar o projeto com as lixeiras é uma forma de ‘eternizar’ a pintura que ficou lá por um tempo”, diz.

Ramar, artista que nasceu em Ouro Preto, começou sua carreira em Belo Horizonte, também deixou a marca dele em uma das lixeiras. Além de se sentir honrado com a participação, ele diz que a repercussão tem sido boa e que ajuda a fortalecer a cena do grafite na capital. “Atingimos pessoas que eu nem imaginaria. Além disso, vários artistas, com trabalhos diferentes, linguagens distintas entre si puderam participar da ação. Isso fortalece o nosso movimento”, explica. (DL)

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade