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Estado de Minas

Moradores de Minas relatam dramas vividos em cavernas

Diante do que viram são unânimes: a provação dos meninos resgatados na Ásia foi extrema


postado em 15/07/2018 06:00 / atualizado em 15/07/2018 11:25

Para o espeleólogo Leonardo Giunco, que ficou preso pelas águas em uma lapa de São Paulo, o mergulho em cavernas é o mais arriscado dos esportes radicais (foto: Eduardo Gomes/divulgacao)
Para o espeleólogo Leonardo Giunco, que ficou preso pelas águas em uma lapa de São Paulo, o mergulho em cavernas é o mais arriscado dos esportes radicais (foto: Eduardo Gomes/divulgacao)

Eles nunca se esqueceram dos momentos de angústia que viveram em grutas acuados pela água. Uma tensão que voltou à tona ao acompanhar o drama dos meninos presos por 17 dias em uma caverna na Tailândia, que exigiu um resgate dramático, com equipes de mergulhadores (leia texto nesta página). Leonardo Giunco, Marco Antonio Fernandes e Thiago Neves Silva já sentiram na pele o medo no interior de lapas. Para todos, uma coisa é certa: a situação dos garotos no país asiático foi de sofrimento extremo.

Morador de Montes Claros, no Norte de Minas, o empresário e espeleólogo Leonardo Giunco sentiu a tensão da subida das águas anos atrás, no interior da Gruta da Água Suja, no município de Itaporanga, no Sul de São Paulo. Era período de carnaval e havia outros grupos de turistas, totalizando cerca de 50 pessoas, dentro da mesma caverna. “De repente, choveu na cabeceira do rio e a água da caverna começou a subir rapidamente, deixando várias pessoas presas em galerias diferentes”, relembra Giunco. O grupo que ele comandava encontrou um lugar seguro, onde ficou até conseguir sair sem problemas, já que dispunha de equipamentos e alimentos. Mas o mesmo não ocorreu com outros turistas, que viveram uma situação de pânico.

“Por ser uma gruta de escoamento rápido, passadas quatro horas, o rio da caverna foi baixando e voltamos para seu curso, pois já era possível caminhar novamente dentro dele. Foi quando descobrimos que muitos turistas não conseguiram sair da gruta porque ficaram presos entre os trechos de teto baixo e estavam desesperados. Embora não corressem risco de afogamento, pois a passagem que sifonava era apenas um pequeno trecho, todos estavam muitos alterados depois de horas de medo, molhados e sem saber o que aconteceria com eles”, relembra o empresário.

“Aos encontrá-los no caminho de volta por dentro da gruta, fomos aglutinando os turistas em nosso grupo e todos saíram sem nenhum ferimento, embora estivessem apavorados”, conta Giunco. Mas os apuros não haviam terminado. “Na volta, já fora da caverna, precisamos atravessar outro rio, que estava muito alto e com forte correnteza. Foi preciso fazer uma tirolesa para a travessia. Já era tarde da noite, todos estavam molhados, com fome e apavorados. Havia mulheres, crianças, homens, várias pessoas chorando, outras querendo buscar soluções nada corretas, como atravessar o rio a nado contra a correnteza. Se não estivéssemos ali com um pouco de treinamento e orientação, poderia ter havido mortes”, recorda.

Giunco já comandou um grupo de resgate numa cidade de São Paulo e lembra que era comum levar a equipe para treinamento em grutas inundadas. Para ele, o mergulho em caverna é “a atividade de aventura mais perigosa do mundo, até mesmo que escalar o pico do Everest”. A atividade “requer muita técnica, experiência e os riscos são iminentes”, ressalta.

Sobre o episódio dos garotos no país asiático, comenta: “A situação foi complicadíssima. Estavam com pouquíssima comida, poucas pilhas, sem roupa seca, confinados por um longo tempo num lugar pequeno e sem saber se conseguiriam sair. O estresse e o fator ambiental também afetavam o grupo psicologicamente. Mas eles fizeram o certo: sentar no único lugar seguro que encontraram e esperar”.

QUATRO DIAS

Outro que viveu a angústia de ficar retido no interior de uma caverna foi Marco Antonio Fernandes, espeleólogo, morador de Belo Horizonte. Três décadas não foram suficientes para que ele esquecesse os quatro dias em que ficou preso, com três amigos, numa caverna da Lapa Encantada, no distrito de Santa Rosa de Lima, no município de Montes Claros. Com 3.350 metros de extensão, a caverna é considerada muito perigosa: tem dois abismos e um grande volume de água em seu interior, pois é percorrida por um rio, com cachoeiras e corredores inundados. O grupo usou cordas, mas cometeu um engano ao desamarrá-las e ficou preso em um ponto alto, impedido de sair, principalmente por causa de uma cachoeira.

“A diferença é que eu tinha ideia da nossa situação dentro da caverna. A angústia vinha de não saber se alguém estava fazendo algo por nós lá fora, se estavam agindo de forma adequada”, avalia Marco Antonio. O resgate foi feito por companheiros dele, do Núcleo de Atividades Espeleológicas (NAE), que se deslocaram de Belo Horizonte para o Norte de Minas para socorrer os colegas. Na época não existia resgate desse tipo pelo Corpo de Bombeiros. “Mas o que passamos foi fichinha perto da situação dos meninos na Tailândia”, diz o espeleólogo, que dá um conselho: “Sempre que entrar em uma caverna, faça-o de forma a criar condições de sair”.

Também o turismólogo Thiago Neves Silva viveu momentos de apreensão dentro d’água em uma gruta, ao lado de um grupo de 15 pessoas. Ele sofreu uma luxação no ombro esquerdo no interior da caverna do Andorinhão – entre os municípios de Montes Claros e Claro dos Poções, no Norte de Minas –, que o impediu de nadar como exigia a travessia da lapa, de quatro quilômetros de extensão. “Parecia com a caverna onde os meninos ficaram presos na Tailândia”, conta.

Foi necessário usar uma boia para completar a travessia, que demorou mais de duas horas até que conseguisse chegar à superfície, depois de percorrer dois quilômetros de rio e rochas no interior da caverna. Pode parecer pouco tempo, mas para Thiago foi uma eternidade. “Minha maior preocupação era em relação à (possibilidade de) hipotermia (diminuição da temperatura do corpo abaixo dos 36°C). Fiquei com medo de não conseguir sair a tempo lá de baixo. Lá dentro é escuro e frio. Como temos alguma experiência, conseguimos controlar os ânimos, diz o turismólogo, que já fez curso de resgate de pessoas em cavernas com uma equipe da França.

“Se no meu caso pouco mais de duas horas preso dentro da caverna foram momentos de tensão, fico imaginando a situação dos meninos da Tailândia, que ficaram nove dias lá dentro sem contato com ninguém até que fossem localizados por um mergulhador”, comenta.

 

final feliz


Há cerca de 10 anos, o ambientalista Eduardo Gomes viveu a feliz experiência de socorrer duas crianças perdidas no meio da escuridão dentro da caverna Lapa sem Fim, que tem 12 quilômetros de extensão, no município de Luislândia, no Norte de Minas. “As crianças eram da zona rural e entraram na caverna usando velas, que acabaram. Estávamos fazendo um trabalho dentro da gruta, quando ouvimos vozes das crianças, que tinham entrado no local no mesmo dia”, relembra Gomes. Segundo ele, na caverna da Lapa sem Fim há risco de inundação, como na da Tailândia. “Ela é percorrida por um curso d’ água. Na época das cheias, a água entra na caverna com muita violência”, disse Eduardo Gomes.



memória

Resgate dramático


Com uma operação que durou mais de duas semanas e terminou na terça-feira para salvar o grupo, 12 garotos e o técnico de futebol deles foram resgatados de uma caverna inundada no extremo norte da Tailândia, todos em segurança. Devido ao risco de infecções, o grupo está isolado em um hospital e deverá ter alta na quinta-feira. A difícil situação chamou a atenção na Tailândia e de grande parte do mundo, desde a notícia do desaparecimento e as primeiras imagens em vídeo do time, quando foi achado 10 dias depois do sumiço por dois mergulhadores britânicos. Eles estavam presos na caverna Tham Luan Nang Non, que sofreu inundações pelas chuvas de monção durante uma visita ao local, após um treinamento dos garotos ocorrido em 23 de junho.

 

 

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