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Estado de Minas

Execução na Câmara de Contagem alerta para escalada de assassinatos de mulheres

Mortes de secretária em Contagem, assassinada por escrivão, e de mãe e filhas, em Santa Luzia por investigador, revoltam parentes pela frieza e por falha na segurança pública


postado em 17/05/2018 06:00 / atualizado em 17/05/2018 08:06

No segundo assassinato de mulheres por policiais civis em dois dias na Grande BH, escrivão mata secretária de vereador em plena Câmara Municipal de Contagem(foto: Polícia Militar)
No segundo assassinato de mulheres por policiais civis em dois dias na Grande BH, escrivão mata secretária de vereador em plena Câmara Municipal de Contagem (foto: Polícia Militar)

Manhã de quarta-feira: ao mesmo tempo em que em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma família velava mãe e duas filhas, de 15 e 18 anos, ainda devastada pelo triplo assassinato praticado por um policial civil, outra tragédia se desenrolava a poucos quilômetros dali, em circunstâncias tragicamente parecidas. Eram cerca de 9h de ontem quando o escrivão de Polícia Civil Cláudio Roberto Weichert Passos, de 41, passou pela segurança da Câmara de Contagem, também na Grande BH, apresentando-se como autoridade. Minutos depois, o servidor que deveria zelar pela proteção da população invadia o gabinete do vereador Jerson Braga Maia, conhecido como Caxicó, para executar a secretária Ludmila Leandra Braga, de 27, com quem já havia tido um relacionamento amoroso e a quem vinha fazendo ameaças. É o terceiro crime com indícios de motivação ligada à questão de gênero ou violência doméstica envolvendo policiais em Minas nos últimos dois meses. E chama a atenção para estatísticas que indicam o crescimento dos assassinatos cometidos no estado contra mulheres, entre 2016 e o ano passado, enquanto os homicídios em geral recuaram no período.

Assim como o primeiro assassino, o escrivão atirou contra a própria cabeça logo após cometer o crime. Porém, diferentemente do atirador de Santa Luzia, que morreu após ser socorrido, o executor de Contagem sobreviveu e estava internado em estado grave no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, até a noite de ontem. A ambas as famílias das vítimas, restaram a dor e a revolta. “Machismo! Ele achou que era dono dela. A gente nunca espera algo desse tipo na família”, disse o pai da secretária Ludmila, Leandro Braga, de 74 anos, ainda incrédulo. Com os olhos marejados, o senhor era apoiado por amigos e familiares.

Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) mostram que não são casos isolados. Nos últimos três anos, os episódios de feminicídio e tentativa, tipo de crime praticado contra mulher por menosprezo ao gênero ou por violência doméstica, vêm aumentando no estado. Os números saltaram de 335 em 2015 para 433 em 2017, alta de 29%. Além disso, os assassinatos de mulheres  cresceram nos últimos dois anos, passando de 353 em 2016 para 376 no ano passado, alta de 6,1%, enquanto os crimes de homicídio em geral recuaram em 5,5%. O comparativo também indica que a proporção de mulheres executadas vem crescendo no cálculo geral de homicídios em Minas.

"Eu a encontrei. Estava muito bem-vestida, com um vestido colorido, salto alto. Estava feliz. Era muito tranquila, serena, simpática com t odo mundo. Gostava muito de trabalhar lá."

Comerciante, amiga da vítima, que preferiu não se identificar



A secretária Ludmila Leandra Braga, de 27 anos, morreu na hora(foto: Reprodução)
A secretária Ludmila Leandra Braga, de 27 anos, morreu na hora (foto: Reprodução)
No crime de ontem, segundo testemunhas, Cláudio Roberto Weichert passou pela porta principal da Câmara, mostrou a carteira em que constava o registro de escrivão da Polícia Civil e conseguiu entrar com a arma no prédio, em que não há detector de metais operando. Após tirar uma foto e cruzar a roleta, Cláudio entrou no gabinete em que Ludmila estava sozinha. A jovem levou quatro tiros de pistola calibre .40.

Depois que matou a secretaria, o policial atirou contra a cabeça e foi socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que o levou até a Prefeitura de Contagem, onde o helicóptero Arcanjo do Corpo de Bombeiros já aguardava para encaminhá-lo ao Hospital João XXIII, em BH. Por causa do crime, o prédio da Câmara foi evacuado e o quarteirão, isolado. O expediente foi suspenso e o presidente da Casa decretou luto por três dias. Ludmila deixa duas filhas de 3 e 5 anos. 

1 Ludmila Leandra Braga, de 27 anos, chega à Câmara de Contagem entre 8h40 e 8h50 e abre o gabinete do vereador Jerson Braga Maia, conhecido como Caxicó. Pouco depois, às 9h, o escrivão da Polícia Civil Cláudio Roberto Weichert Passos passa pela roleta identificando-se aos seguranças como autoridade policial (foto: Arte EM)
1 Ludmila Leandra Braga, de 27 anos, chega à Câmara de Contagem entre 8h40 e 8h50 e abre o gabinete do vereador Jerson Braga Maia, conhecido como Caxicó. Pouco depois, às 9h, o escrivão da Polícia Civil Cláudio Roberto Weichert Passos passa pela roleta identificando-se aos seguranças como autoridade policial (foto: Arte EM)

2 O policial é fotografado e tem a entrada permitida. Após passar pela roleta, o escrivão vira à direita. O assassino entra no gabinete em que estava a secretária, o primeiro de um corredor próximo à portaria, entre as 9h e as 9h05 (foto: Arte EM)
2 O policial é fotografado e tem a entrada permitida. Após passar pela roleta, o escrivão vira à direita. O assassino entra no gabinete em que estava a secretária, o primeiro de um corredor próximo à portaria, entre as 9h e as 9h05 (foto: Arte EM)

3 A secretaria estava sozinha, em uma mesa na primeira sala do escritório parlamentar. O assassino atira quatro vezes contra Ludmila, antes de disparar a pistola .40 contra a própria cabeça. Ainda com vida, é levado pelo Samu até a Prefeitura de Contagem, de onde helicóptero do Corpo de Bombeiros o leva a um hospital (foto: Arte EM)
3 A secretaria estava sozinha, em uma mesa na primeira sala do escritório parlamentar. O assassino atira quatro vezes contra Ludmila, antes de disparar a pistola .40 contra a própria cabeça. Ainda com vida, é levado pelo Samu até a Prefeitura de Contagem, de onde helicóptero do Corpo de Bombeiros o leva a um hospital (foto: Arte EM)


Às famílias, resta indignação


Depois do assassinato, Câmara de Contagem foi interditada. Vereador nega falha em sistema de proteção (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
Depois do assassinato, Câmara de Contagem foi interditada. Vereador nega falha em sistema de proteção (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
Apesar da falta de detectores de metal no prédio da Câmara de Contagem e do fato de o escrivão da Polícia Civil Cláudio Roberto Weichert Passos ter entrado armado no prédio para executar a secretária Ludmila Leandra Braga, o presidente da Comissão de Segurança Pública do Legislativo, vereador Leo Motta (PSL), descartou falha que possa ter facilitado o crime. “Todas as providências para garantir a segurança aos vereadores, funcionários e pessoas que passam pela Câmara estão sendo tomadas. Nós temos o circuito interno de segurança, as roletas e os detectores estão em fase final de instalação”, disse. Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que o assassinato ficará sob a responsabilidade da Delegacia de Homicídios em Contagem e ressaltou “que os trabalhos estão sendo acompanhados pela Corregedoria-Geral de Polícia Civil”.

O pai da vítima contou que a filha havia terminado o relacionamento com Cláudio no fim do ano passado. “Eles ficaram juntos por pouco tempo, cerca de um ano mais ou menos. Ela não comentou comigo nada de ameaça. Eu não entendo isso, tantas maneiras diferentes de resolver um problema... Não quer, vai embora, cada um segue seu caminho, não precisa matar”, lamentou o pai.

"Machismo. Ele achou que era dono dela. Era uma menina boa, jamais a gente ia pensar que aconteceria uma coisa dessas. Eu sabia que ele estava fazendo tratamento. Mas não entendo isso, tantas maneiras de resolver um problema... Não quer, vai embora, cada um segue seu caminho, não precisa matar" - Leandro Braga, de 74 anos, pai da secretária executada (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
Uma comerciante, que não quis se identificar, contou que Ludmila almoçava no mesmo local pelo menos duas vezes na semana e que já havia relatado indícios de uma relação abusiva com o policial. “Ela contou que ele era muito difícil e possessivo. E o que eu fiquei sabendo é que as pessoas o tempo todo falavam para ela terminar, mas ela respondia que sabia como lidar com a situação. Depois, finalmente ela rompeu com ele. Semana passada ele mandou flores e ela mandou jogar fora. Ele estava tentando se reaproximar, mas ela não queria”, contou.

Ludmila estava reatando o relacionamento com o ex-marido, com quem tem duas filhas, de 3 e 5 anos. O caso chocou a vizinhança e colegas de trabalho da vítima. O vereador Jerson Braga Maia, o Caxicó, com quem ela trabalhava, publicou nota no Facebook sobre o episódio. “Ludmila, além de uma excelente profissional, era uma mãe maravilhosa e uma luz em nossas vidas. Sempre sorrindo e disposta a ajudar, irradiava alegria por onde passava. Lud como carinhosamente a chamávamos, estará sempre em nossas mentes e corações”, diz trecho do texto. A Prefeitura de Contagem também emitiu nota de pesar: “A violência contra a mulher, infelizmente, é recorrente no Brasil e um dos temas que mais nos preocupam”.

"Era uma pessoa generosa, sempre disposta a ajudar. É uma ferida que vai sangrar por muito tempo. É uma tragédia que lamentamos muito."

Luzia Ferreira, secretária de Desenvolvimento Social e Habitação de Contagem

 

O Estado de Minas entrou em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Civil para confirmar a informação de que o policial estava afastado do cargo por problemas psicológicos e se a vítima já havia procurado a corporação para denunciar algum tipo de ameaça ou agressão, mas nenhuma das questões foi respondida. “A Polícia Civil de Minas Gerais trabalha com técnicas investigativas avançadas, inclusive com o setor de inteligência. Todos os casos são apurados com responsabilidade, imparcialidade e transparência. Os inquéritos embasam a Justiça nas tomadas de decisões, portanto, devem obedecer critérios de investigação e não expor qualquer pessoa de forma indevida e leviana, para que isso não possa ser questionado judicialmente”, limitou-se a divulgar, afirmando que as informações seriam repassadas “em momento oportuno”.  *Estagiário sob supervisão do editor Roney Garcia

 

Sem respostas

O que a Polícia Civil não esclarece

» Há boletins de ocorrência ou crimes atribuídos ao policial que executou a secretária?
» O escrivão autor do assassinato estava afastado de suas funções na corporação?
» O policial fazia acompanhamento psicológico?

(foto: Arte/Paulinho Miranda)
(foto: Arte/Paulinho Miranda)

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