Jornal Estado de Minas

Insegurança ronda mirante abandonado no Bairro Mangabeiras, em BH


Um local que deveria servir para contemplação de uma das vistas mais bonitas de Belo Horizonte virou símbolo do abandono, marcado pela depredação do patrimônio público, descarte de lixo, falta de manutenção e violência. A denúncia é dos moradores do Bairro Mangabeiras, uma das áreas mais nobres da cidade, na Região Centro-Sul de BH, que relatam uma série de problemas no fim da Rua Ministro Vilas Boas, na área conhecida como Mirante da Caixa D’água ou Mirante da Copasa. Os problemas, segundo a população local, começam com uso de drogas, sexo dentro de veículos, descarte de lixo em qualquer lugar, invasão da caixa d’água de responsabilidade da Copasa, música alta nos equipamentos de som dos veículos e chegam até a denúncia mais grave: vários assaltos são cometidos no local, conforme os vizinhos.

Descarte de lixo em bueiros mostra situação de abandono do Mirante da Copasa, como é conhecido - Foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press

A Associação de Moradores do Bairro Mangabeiras aponta como a melhor opção para resolver o problema uma intervenção urbana que transforme o local público em um mirante oficial, com controle de acesso das pessoas e horário de funcionamento. A intenção é ter um mirante nos mesmos moldes do Mirante das Mangabeiras, que já funciona ao lado do Palácio das Mangabeiras. Segundo o presidente da associação, Rodrigo Bedran, em 2016 o assunto chegou a ser debatido e esteve em vias de ser adotado, mas a mudança na gestão municipal teria esfriado o assunto. A Polícia Militar garante que vai até 20 vezes por dia ao local e que foca na prevenção de crimes no mirante, mas a corporação também admite que tem dificuldades de agir de forma repressiva, pois muitas vezes os criminosos que conseguem ver a aproximação das viaturas dispensam materiais ilícitos antes de serem abordados.


Presidente da Associação de Moradores do Bairro Mangabeiras, Rodrigo Bedran aponta o portão arrombado na estrada do mirante - Foto: Paulo Filgueiras/EM/DA PressAo subir a Rua Ministro Vilas Boas já é possível ter uma noção do estado de abandono do lugar por conta do mato alto e também do lixo que já aparece espalhado. Na chegada ao mirante, o visitante é recebido por um portão arrombado, que dá acesso a uma caixa d’água da Copasa – daí o nome do ponto de visualização da cidade. Na parte de dentro do portão, o lugar que deveria ser de acesso restrito concentra garrafas de bebidas alcoólicas, preservativos e vários tipos de lixo.

Segundo Rodrigo Bedran, há casos de pessoas que sobem até a caixa d’água e ficam em cima do reservatório, dançando embaladas pelo som alto dos veículos que estacionam no mirante. “Essa é uma caixa d’água que abastece a cidade e desse jeito a água pode ser contaminada”, afirma.


Esse é apenas um dos problemas, conforme Rodrigo. A grande concentração de pessoas praticamente todos os dias, que chegam em carros e motos, é um atrativo para bandidos que cometem roubos na região. Em 4 de março, um domingo, a Polícia Militar foi chamada depois que três homens saíram do matagal e roubaram oito celulares e um carro de sete vítimas que estavam no mirante. Os bandidos estavam com duas armas, segundo relato das pessoas roubadas, e fugiram no veículo tomado de assalto. O rastreamento de um dos telefones roubados permitiu à PM deslocar uma unidade até o Bairro Maria Goretti, Nordeste de BH, onde os três foram presos, os celulares e o carro recuperados.

- Foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press

SURPREENDIDO O jovem Walef Stenio, de 20 anos, que é conferente em uma distribuidora de Contagem, na Grande BH, tinha ido pela primeira vez ao mirante nesse dia. Morador de Contagem, ele tinha ouvido falar da beleza da vista por amigos e resolveu ir com um colega de moto.

“Tinha outras pessoas que a gente não conhecia. Cheguei, desci da moto e tirei uma foto da vista. Logo que terminei, três caras saíram do mato já gritando que a gente tinha perdido. Eles levaram carteiras e celulares, mas quando percebi que era assalto joguei a chave da moto no mato”, afirma o jovem.


Apesar de essa atitude ter garantido que a motocicleta não fosse levada, ele conta que os bandidos perceberam a tentativa de esconder a chave e agrediram Walef e o amigo. “Nós ficamos muito nervosos porque eles deram vários chutes na gente. Nós fomos os únicos que apanhamos e eles saíram levando um carro de outra pessoa. Fui lá apenas para ver a vista, que realmente é muito bonita, e acabou acontecendo isso”, afirma.


Segundo um morador da região, que prefere não se identificar por questões de segurança, muitas pessoas se aproveitam da possibilidade de entrar no meio do mato e sair na Vila Acaba Mundo para surpreender quem está no mirante para cometer assaltos. “Muitas vezes, a polícia e Guarda Municipal aparecem e dão um suporte, mas quando terminam de revistar as pessoas vão embora e chegam até a encontrar outros que já estão subindo de novo.

O movimento é o tempo todo”, diz o morador.


Essas razões motivam, desde 2016, segundo Rodrigo Bedran, discussões com a Prefeitura de BH, Copasa, Polícia Militar e Ministério Público para que a área se torne um mirante com controle de acesso e horário de funcionamento. “A Copasa inclusive agradeceu, pois seria uma solução para a empresa, já que ela não consegue manter o portão fechado por conta dos arrombamentos”, diz Rodrigo. Mas desde o ano passado o assunto não vingou mais, após a troca de comando na PBH. Recentemente, Rodrigo diz que recebeu um retorno da administração municipal de que tanto a BHTrans quanto a Secretaria Municipal de Políticas Urbanas tinham reprovado a ideia, porém, sem informar os motivos. “Se realmente nada for feito, a associação pretende acionar o Judiciário para transformar o local em um mirante. A prefeitura precisa intervir porque esses problemas acontecem todos os dias”, afirma.

Trilha fácil para bandidos

 

 

O tenente Jerferson Costa, que é o responsável pelo policiamento no Bairro Mangabeiras, diz que no momento a principal demanda de segurança da PM relacionada ao bairro é o Mirante da Caixa D’água. Segundo ele, o máximo possível de recursos da corporação está empenhado no local, o que significa que 10 equipes passam duas vezes por dia cada uma no mirante, totalizando 20 visitas a cada 24 horas. Porém, ele admite que as condições do local facilitam a vida dos bandidos. Como o mirante tem um único acesso de carro, quem está em cima consegue ver todo mundo que sobe, inclusive as viaturas mesmo que apagadas. Com essa possibilidade, muitos bandidos dispensam e escondem materiais de crimes, como armas e drogas, antes de serem abordados.

Além disso, há trilhas por meio da mata que levam à Vila Acaba Mundo.


“Dentro do que é possível o serviço de segurança tem sido feito. A gente fica com a dificuldade de confirmação dos delinquentes em virtudes dessas vantagens. O trabalho preventivo é garantido e muitas vezes evitamos os crimes ao abordar pessoas que estão na iminência de cometer algum ato, mas encontramos algumas dificuldades na repressão”, afirma. Ainda segundo o militar, a demanda de segurança da PM independe do fechamento do local para se transformar ou não em mirante, mas ele acredita que o trabalho seria mais facilitado caso haja uma intervenção que crie controle de acessos e horário de funcionamento. “Existe uma demanda da comunidade pela criação de um mirante. Nesse caso, o serviço de prevenção seria facilitado”, afirma.


A Copasa informou que desconhece qualquer projeto de melhoria para o mirante, já que não é a responsável pelo local. A caixa d’água tem capacidade para 76 mil litros de água e abastece a população do bairro. “Quanto à segurança do reservatório, recentemente foram reformadas todas as cercas laterais. O portão de acesso é trancado por correntes e cadeados, que, no entanto, são violados frequentemente pela ação de vândalos”, informou, em nota, a empresa. A BHTrans se manifestou via assessoria de imprensa dizendo que recebeu um processo, encaminhado por moradores à Prefeitura de BH, que previa o fechamento da Rua Ministro Vilas Boas.

“A negativa da empresa se deve a esse fechamento”, informou a BHTrans.

A reportagem do EM procurou a Secretaria Municipal de Políticas Urbanas na última quarta-feira, mas a pasta não retornou os contatos.

 

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

 

Falta de segurança

 

A reportagem esteve no Mirante da Caixa D'Água tanto de dia quanto de noite e encontrou o supervisor Davi Granato,   de 22 anos, que já foi assaltado duas vezes no local. A última delas no fim do ano passado. "Eu estava com meu irmão, a namorada dele e um primo. Subiu uma moto e um carro e desceram duas pessoas, sendo uma mulher armada muito nervosa. Eles levaram a moto do meu irmão, além dos celulares", afirma Davi, que reclama da falta de segurança. "A gente vem pra cá com o objetivo de pensar na vida e refletir, por ser um lugar muito bonito principalmente no início da noite por conta das luzes, e encontra essas condições." 

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