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Estado de Minas

Dinheiro desviado para pagar pistoleiro deixa Saúde de Santa Luzia em penúria

Quem depende do setor na cidade está sujeito à falta de remédios básicos e dificuldades para conseguir atendimento


postado em 17/09/2017 06:00 / atualizado em 17/09/2017 08:09

O posto de saúde de Santa Luzia teria sido usado para encobrir verba usada para pagar pistoleiro(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press.)
O posto de saúde de Santa Luzia teria sido usado para encobrir verba usada para pagar pistoleiro (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press.)

As filas para conseguir uma consulta ou tomar vacina no posto de saúde Virgem dos Pobres, no Bairro São Benedito, em Santa Luzia, testam a paciência das pessoas e fazem muitos desistirem de receber atendimento. Quem precisa de medicamento reclama de desabastecimento no pronto atendimento do bairro. “Meu marido tem a pressão muito alta e precisa se medicar, mas nunca que tem o remédio dele. Eu, também, tinha de me tratar com injeções de anticoncepcional e nunca encontrei. É uma tristeza. Um sofrimento: ninguém liga para pobre doente”, reclama a manicure Gleice Duque de Oliveira, de 43 anos.

Com tantos problemas, o posto de saúde frequentado por Gleice é justamente o que a Polícia Civil afirma ter sido usado pela então prefeita de Santa Luzia Roseli Ferreira Pimentel (PSB) para encobrir a verba de R$ 19.996,84 usada para pagar o pistoleiro que executou, em 17 de agosto de 2016, o jornalista Maurício Campos Rosa, de 64, que chantageava a política.


Com 218.897 habitantes, o município da Grande BH é a 13ª maior população de Minas Gerais. Mas essa grandeza não se reflete em qualidade de vida para a população. No município em que a prefeita é suspeita de ter desviado dinheiro da saúde para contratar a execução de seu desafeto, crianças sofrem com uma estrutura educacional deficiente e o povo com falhas na saúde pública.

Esquema de corrupção na saúde


De acordo com as investigações da Polícia Civil, a prefeita, que está presa desde o dia 7 último no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, em Belo Horizonte, teria se beneficiado de R$ 80 milhões em recursos da saúde. Com essa verba, teria, inclusive, arcado com o aluguel de uma suntuosa mansão no Bairro Industrial Americano.

A reportagem do Estado de Minas apurou junto a imobiliárias locais que o imóvel tem 1.500 metros quadrados (m²) de área construída, em um terreno de 5.300m² na área nobre da cidade. O valor do aluguel não é conhecido, pois foi acertado entre a prefeita e a proprietária, que é funcionária do Ministério Público.

(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press.)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press.)


Mas o luxo de que a prefeita desfrutava destoa de uma cidade com apenas 45 estabelecimentos de saúde credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para atender à população – o único grande hospital, o São João de Deus, está fechado –, ocupando apenas o 27º lugar no ranking mineiro desse tipo de oferta, segundo o IBGE. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que é a riqueza dividida pela população, não passa de R$ 15.105,19, o sétimo pior entre os 34 municípios da Grande BH.

Pistoleiro


Segundo a polícia, o dinheiro usado para pagamento do acusado de ser o executor do crime, Paulo César Florindo de Almeida, de 28, foi prometido por Alessandro de Oliveira Souza, homem com livre trânsito no gabinete da prefeita, durante uma festa na Vila Ferraz. “Fizemos o mapeamento financeiro e chegamos à namorada do Gustavo (motorista do pistoleiro). A conta dela foi usada para receber R$ 11 mil usados como primeiro pagamento a Paulo César, transferidos pelo Alessandro”, conta o delegado responsável pelo caso, César Matoso.

Para honrar o pagamento, Alessandro havia recebido por meio de parentes depósito de R$ 19 mil da prefeitura, encoberto como se fosse o aluguel do posto de saúde Virgem dos Pobres. “Quando pedimos documentos, a prefeitura nos apresentou uma nota referente à aquisição de mamão para a merenda escolar. A assessoria jurídica e contábil da indiciada tenta calçar essa transferência ao Alessandro utilizando-se dessa nota. Depois disseram que foi um pagamento errado para um homônimo, e que iriam recuperar o dinheiro”, conta o policial.

Assassinato calou O grito

A violência que silenciou o jornalista ainda traz medo. O jornal O Grito fechou as portas depois de 20 anos de publicação. No interior do prédio onde ficava a redação, a equipe do Estado de Minas encontrou um dos jornalistas que trabalhavam lá, que estava com muito medo. Ele só concordou em falar se sua identidade não fosse revelada. “É claro que a gente quer voltar a trabalhar, mas até que se saiba realmente o que aconteceu, ninguém quer ser uma nova vítima. Estou apavorado. A gente espera, um dia, poder voltar a escrever livremente e sem medo”, disse.

A mulher do jornalista assassinado também mudou de vida. Trabalhava num posto de saúde e começou a ser perseguida pelo grupo político da prefeita afastada, segundo a Polícia Civil. “Ela se mudou para São João del-Rei para se afastar de tudo isso”, disse o delegado. “Por isso também a necessidade da prisão da prefeita: ela vinha empregando testemunhas e suspeitos na prefeitura para tentar comprar o silêncio deles, atrapalhando o processo da investigação”, afirmou o policial.

A reportagem procurou a prefeitura para saber se houve mudanças e se os recursos que a polícia informou terem sido desviados seriam reavidos, mas até o fechamento desta edição não houve resposta. O escritório Marcelo Leonardo, do advogado da prefeita, também foi procurado, mas não retornou as ligações.

 

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