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Estado de Minas

Refugiado do Congo em BH é finalista de prêmio da Unesco com projeto para combater malária

O jovem estudante de medicina na UFMG também tem o sonho de levar o Sistema Único de Saúde para seu país


postado em 17/09/2017 06:00 / atualizado em 17/09/2017 08:46

Louison Mbombo disse que o SUS foi o que mais o encantou no Brasil(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Louison Mbombo disse que o SUS foi o que mais o encantou no Brasil (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

A instabilidade política que assola a República Democrática do Congo levou o jovem Louison Mbombo, de 22 anos, a se refugiar no Brasil. Em 2013, ele cruzou o Atlântico para tentar uma nova vida no país tropical. Não desistiu dos sonhos e seguiu os passos do pai: ingressou em medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e já concorre a um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com um projeto para reduzir mortes de crianças por malária na África.

Ainda receoso de comentar sobre os motivos que o trouxeram para cá, ele disse que não foi uma escolha: “Não escolhi o Brasil, mas na hora que eu tive que sair a oportunidade que surgiu foi essa. Foi uma decisão rápida”, lembra Louison, que, apesar do desejo de voltar para o Congo, está há dois anos se habituando à capital mineira. A primeira escala de Louison no Brasil foi na capital paulista, onde de imediato retomou os estudos interrompidos em seu país. Porém, logo enfrentou uma barreira: a língua portuguesa.

O jovem, que hoje fala seis idiomas (inglês, francês, português, árabe, turco e a língua nacional do Congo) e já viajou por mais de 40 países conta que nunca tinha visitado o país e não falava português: “Não sabia nada, só sabia ‘tchau’ porque todo mundo fala isso no Congo. Tive que aprender, fiz português para estrangeiro durante três meses. Esforcei-me bastante. No início, ficava muito triste por não entender as pessoas.”

O desejo pelo curso de medicina, um dos mais concorridos do país, nasceu da necessidade de melhorar a qualidade de vida do seu país. A escolha pelo jaleco branco e pelo estetoscópio pendendo do pescoço foi feita desde a infância. “Lá no Congo meu pai era dono de um hospital. Minha rotina era escola, hospital, escola, hospital, escola. Gostava de acompanhar meu pai”, lembra-se com orgulho. Já com o português na ponta da língua, mas ainda com sotaque, focou no sonho de cursar medicina.

Apesar de ter concluído o ensino médio em sua cidade natal, precisou retomá-lo no Brasil. No Congo, o sistema de ensino não é igual ao brasileiro: “Aqui, me explicaram que o sistema é diferente. Entrei no terceiro período do ensino médio e conclui. Depois, tive que fazer cursinho.” Pesquisando sobre as universidades, optou pelo vestibular da UFMG e passou no primeiro semestre de 2015. O jovem ingressou na universidade por meio de vaga para refugiados políticos.

Descobertas

Assim começou uma nova etapa de Louison: a mudança dele para a capital mineira foi um processo de descobertas e desafios. Hoje, mora sozinho em um apartamento no Centro da capital. Apesar de estar aqui há mais de dois anos, ele conta que ainda não conhece muito sobre a cidade. Sua rotina se reveza entre casa e faculdade, onde passa a maior parte do dia se dedicando aos estudos. Mas, entre as descobertas, está o queridinho pão de queijo com café: “Passei a comer quase todos os dias”, brinca o estudante. Curiosamente, a alimentação do Congo e de Belo Horizonte tem semelhanças. “Lá, depende de cada etnia. Na minha etnia, o feijão e o arroz são bem tradicionais. O gosto é o mesmo do daqui”, conta. O avô de Louison é líder tradicional da etnia “Mobngoitimbira”.

O gostinho de casa traz saudades do Congo. “Sinto falta da minha casa, da minha família. Sinto falta do lugar onde nasci, do qual tenho muito orgulho.” Entre os desafios de ser um refugiado político está não ter um prazo para voltar ao seu país. Inicialmente, Louison retornaria em 2016, mas a situação política do país o impediu. Como ele mesmo disse, não é como o Programa Ciências Sem Fronteiras, quando o estudante tem data para ir e voltar. “Não sei quando voltarei e nem onde estarei nos próximos anos”, diz. Entretanto, segundo ele, essas adversidades foram minimizadas pelo apoio dos colegas de faculdade e amigos que fez na capital mineira.

Louison encontrou uma forma de unir Belo Horizonte ao Congo. Em contato com amigos médicos da República do Congo, ele criou a ONG Solidariedade na Mokili. O nome da ONG é em português mesmo, segundo ele, para homenagear o que aprendeu em seu novo lar. A ONG tem o intuito de fazer atividades humanitárias e entre seus objetivos está o combate à desnutrição infantil – problema comum no país natal. “Lá, a situação é muito grave. Mas, em dois anos, conseguimos beneficiar 7.500 pessoas. Administro tudo por meio da tecnologia”, conta.

Projeto para prevenir a malária

 


Mas Louison sonha mais alto. O desejo de ajudar seu país o levou a entrar em uma competição de um programa de ação global da Unesco. A Youth Citizen Entrepreneurship Competition mobiliza jovens empreendedores em todo o mundo para submeter ideias e projetos inovadores que tenham impacto social e sejam adequados a uma ou mais das 17 metas de desenvolvimento sustentável da ONU. Louison não perdeu a oportunidade e se inscreveu com um projeto voltado para a prevenção de mortes de crianças por malária na cidade de Gungu, a mais pobre de seu país.

O objetivo do estudante é oferecer curso gratuito para 100 pessoas da comunidade para torná-las aptas a diagnosticar a malária e a procurar ajuda especializada, como também fornecer mosquiteiros a 15 mil famílias. Louison prevê que seu projeto poderá reduzir em até 70% o índice de mortalidade infantil por malária na cidade, em 24 meses. E, agora, o sonho de Louison ganha novo impulso: Ele foi o mais votado na competição.


A proposta desenvolvida com os integrantes da ONG Solidariedade na Mokili recebeu 51.360 votos de diversos lugares do mundo. “Fui pedindo para as pessoas votarem pelas redes sociais, tive o apoio de todas as partes. Recebi o dobro de votos em relação ao segundo lugar. Eu me dediquei muito ao projeto”, diz. Agora, ele espera ser um dos três escolhidos, entre 10 finalistas, para receber financiamento e colocar suas ideias em prática. Os vencedores serão anunciados em outubro, em cerimônia na cidade de Berlim, na Alemanha. Independentemente do resultado, Louison segue fazendo a diferença para o mundo.

Ao fim da entrevista ao Estado de Minas, Louison nos surpreendeu com mais um desejo audacioso que surgiu após iniciar os estudos no Brasil. “Entre tudo o que conheci no país, o que mais me encantou foi o Sistema Único de Saúde. Um dia, eu estava em um posto de saúde e vi uma pessoa entregar a carteira de identidade para fazer uma limpeza nos dentes. No fim, ela só agradeceu e foi embora. Meu maior sonho é conseguir implantar o SUS no Congo”, conta.

De acordo com o estudante de medicina, a saúde não é um direito garantido para os moradores de sua terra. Apesar de a população pagar impostos, nenhum tipo de serviço gratuito é oferecido. “No Congo, poucas pessoas morrem dentro do hospital. Elas não têm nem dinheiro para ir lá, elas morrem em casa.”

 

De portas abertas

 

Considerando a responsabilidade institucional de prever alguma forma de ingresso de alunos refugiados políticos na universidade, a UFMG recebe estudantes de todas as partes. Portanto, é permitido o ingresso de refugiados políticos como alunos dos cursos de graduação mediante matrícula com a comprovação de que seu pleito de refugiado político foi referendado pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare).

O estudante só é aceito caso tenha completado o ensino médio no país de origem, até dois anos antes de ter sido seu pleito referendado pelo Conare, ou que o tiver completado no Brasil, até dois anos após o referendo do Comitê. Em um documento publicado no site da UFMG, a universidade informa que cada colegiado de curso de graduação da UFMG estabelecerá o número de vagas para matrícula especial de refugiados político, e os critérios de seleção, com aprovação da Câmara de Graduação, garantindo-se o mínimo de uma vaga por curso.

As solicitações de ingresso de alunos refugiados na UFMG são protocolizadas pelo Departamento de Registro e Controle Acadêmico, mediante requerimento e apresentação de cédula de identidade expedida pela Polícia Federal, e deverão ser encaminhadas ao colegiado do curso para análise, seleção e decisão. O número de alunos refugiados políticos na universidade não foi divulgado pela instituição até o fechamento desta edição.

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