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Estado de Minas

Matéria do EM sobre projeto de Niemeyer será usada pela Comissão da Verdade

Relatório anexará reportagem exclusiva do EM sobre Marina, projeto de Niemeyer para município sustentável e crimes da ditadura no local que o abrigaria


postado em 05/09/2017 06:00 / atualizado em 05/09/2017 07:58

Para Antônio Sidekum, professor emérito da Unisinos, o projeto de Niemeyer tinha forte ênfase social, humanista e comunitária(foto: Luiz Ribeiro/EM/DA Press)
Para Antônio Sidekum, professor emérito da Unisinos, o projeto de Niemeyer tinha forte ênfase social, humanista e comunitária (foto: Luiz Ribeiro/EM/DA Press)

As informações exclusivas divulgadas pelo Estado de Minas sobre a Cidade Marina, o município sustentável desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para o Sertão de Minas e a violação de direitos pela ditadura militar na região escolhida para abrigar o projeto sufocado vão integrar o relatório da Comissão da Verdade de Minas Gerais, que apura crimes ocorridos durante o período. A decisão foi anunciada ontem pelo coordenador estadual da Comissão da Verdade, sociólogo Robson Sávio dos Reis.



Em reportagem especial publicada em sua edição de domingo, o Estado de Minas revelou que, em meados da década de 1950, Oscar Niemeyer projetou a cidade Marina, que seria erguida ao lado de uma colônia agrícola, numa extensão de 95 mil hectares, na antiga Fazenda Menino no Vale do Urucuia (Noroeste do estado). Mas, o projeto foi sufocado pela ditadura militar com o argumento de que a área supostamente recebeu a visita de líderes guerrilheiros e serviria para depósito de armas para a luta armada, tendo em vista que o dono das terras, o empresário Max Hermann financiava o Partido Comunista. Hermann foi delatado, perseguido e preso e o projeto morreu no nascedouro. Antigos moradores da Fazenda Menino fazem relatos de tortura e da presença da polícia política – do Doi-Codi e do antigo Dops – no local no auge da repressão da ditadura, entre 1968 e 1972.

Sávio Reis salienta que a Comissão da Verdade recebeu informações da passagem, na Região do Urucuia, do guerrilheiro Carlos Marighella, coordenador da Ação Libertadora Nacional (ALN), como revelou o EM, e que também tomou conhecimento de que no Instituto Nacional de Colonização Agrária (Incra) haveria mapas das áreas onde seria erguida a Cidade Marina. Porém, não tinha detalhes do projeto. “Com a reportagem, temos outros elementos. Vamos fazer uma reanálise de todo o caso. Inclusive, vamos citar a reportagem”, anunciou o coordenador. Ele disse que vai requisitar documentos da antiga fazenda para os trabalhos da comissão.

Ele lembrou que a comissão vai destacar a história da aposentada Geralda Brito de Oliveira, ex-administradora da Fazenda Menino, que relata ter sofrido tortura por parte de militares no local. O relatório da Comissão da Verdade já está em sua fase final e deverá ser encaminhado às autoridades em dezembro, com sugestões de medidas e reparação de direitos para as vítimas da ditadura.

Sávio dos Reis afirma que as informações levantadas pela Comissão da Verdade revelam que a região do Vale do Urucuia, no auge da repressão da ditadura, virou alvo dos militares, pois na época circularam informações de que na área era base da luta armada liderada por Marighella. Ele salienta que o fato de a região ser ocupada por trabalhadores rurais contribuiu para que fosse visada pela ditadura “Obviamente, como aconteceu na guerrilha do Araguia, sempre havia uma desconfiança – e isso é uma hipótese – de que os camponeses ajudavam os guerrilheiros. E aí acaba que a repressão era contra os trabalhadores rurais –e não somente em relação aos líderes (guerrilheiros). Por isso, que estamos bastante interessados nessa questão, porque o fato de o Oscar Niemeyer ser do Partido Comunista e a Cidade Marina ter uma concepção comunitária – vamos dizer assim., socialista – pode ter aguçado ainda mais essa vigilância e perseguição na região”.

INSPIRAÇÃO COMUNISTA O Projeto da Cidade Marina, de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, que seria implantado no sertão mineiro, foi reprimido pela ditadura militar porque foi inspirado em ideais comunistas na Europa, ainda do início do século. A afirmação é do professor emérito da Universidade Vale dos Sinos (Unisinos/RS) Antônio Sidekum, que estudou a obra de Niemeyer ao lecionar a disciplina História da Arquitetura Contemporânea na instituição, e integrou a Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, onde atuou na Universidade Federal Fluminense /Câmpus Volta Redonda.

O especialista destaca que, ao elaborar projetos como o da Cidade Marina, Oscar Niemeyer seguiu a “arquitetura pós-moderna e contemporânea francesa”, que surgiu nos primeiros anos do século 20, liderada pelo arquiteto Le Corbusier e por arquitetos e artistas alemãos da Escola de Bauhaus, que era influenciada pelo partido comunista da Alemanha. “Eram projetos de reformulação e de criação de um novo modelo de cidades, em virtude das transformações sociais que se anunciavam”, disse Sidekum, citando a Alemanha, a França e o México como locais onde esses projetos eram realizados.

A Cidade Marina seria construída ao lado de uma colônia agrícola. Segundo o especialista, isso mostra a relação com os ideais comunistas na Europa por volta de 1920. Ele ressalta que, na década de 1950, a proposta foi concebida por líderes políticos da esquerda como Leonel Brizola, que chegou a implantar projeto de uma agrovila no Rio Grande do Sul. “A finalidade da agrovila era produzir e abastecer a cidade. Essa também era uma concepção urbanística nos ideais de Oscar Niemeyer, em que se teria uma produção agrícola acompanhada com técnicas para abastecer a cidade, que ficava nas imediações”, comenta.

Segundo ele, Niemeyer tinha o intuito de conceber e criar esta forma de cidade, com ênfase forte no sentido social – ‘socialista’ – humanista e comunitário. Só que, lembra o professor, esse aspecto “humanista e comunitário” não agradava aos militares, que entendiam que uma cidade sustentável poderia se transformar em meio de organização social e de resistência contra o regime ditatorial.

ASSASSINATO Em um terreno dentro da extensa área da Fazenda Menino, onde seria erguida a Cidade Marina, no Noroeste do estado, ocorreu a morte do ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Francisco, Eloi Ferreira da Silva, em 16 de dezembro de 1984. O caso ficou conhecido nacionalmente, com Eloi sendo um considerado um dos símbolos da luta pela terra no Brasil. Com o sufocamento do projeto da Cidade Marina, as 95 mil hectares da Fazenda Menino foram invadidas por posseiros, com incentivo da extinta Fundação Rural Mineira (Ruralminas), que alegava que as terras eram devolutas. Iniciou-se uma demorada disputa judicial.

Filho de Eloi, o atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Francisco, Paulo Ferreira da Silva, o “Paulo de Eloi”, afirma que o pai  dele foi assassinado por causa da luta que travou contra os fazendeiros e grileiros, que tentavam tomar as terras os posseiros, quando Hermann não tinha mais domínio na área. Segundo Paulo, assumiu o a autoria do crime o “grileiro” Paulo Leonardo Pereira, que chegou a ser condenado a sete anos de cadeia, mas o defensor dele (um conhecido advogado de Belo Horizonte) e recorreu e ele morreu sem nunca ter sido preso.

Surpresa com a descoberta


De autoria de Alexandre Guzanshe, Luiz Ribeiro e Renan Damasceno, a reportagem “Cidade Marina – o sonho de Niemeyer no sertão mineiro que a ditadura abafou”, publicada em caderno especial no Estado de Minas, domingo, e no formato multimídia em em.com.br/especiais/cidademarina, recebeu centenas de manifestações dos leitores nas redes sociais. A maioria dos comentários relatava surpresa diante da história. “Eu nunca soube disso!”, escreveu a urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, responsável pelo projeto urbanístico de Brasília – Niemeyer projetou os principais prédios e cartões-postais. “Baita reportagem sobre a cidade projetada por Niemeyer”, escreveu Mário Magalhães, jornalista e biógrafo de Carlos Marighella, que na década de 1960 passou pela Fazenda Menino, na zona rural de Arinos, onde seria erguida Marina. “Ansiamos por mais reportagens assim”, afirmou o jornalista Rudolfo Lago. “Conheço esta região, sou morador do município e se fosse à frente, nossa cidade seria outro nível”, escreveu o leitor Dissim Vaz.

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