Faculdade de Odontologia da UFMG faz 110 anos lapidando a saúde e os sorrisos

No aniversário de sua criação, Odontologia se destaca entre as melhores do país. Referência internacional, mantém seu papel social em ações voltadas para pessoas carentes

Ivan Drummond
O prédio da Rua Guaicurus , no Centro da capital, que abrigou inicialmente a Escola Livre de Odontologia - Foto: Reprodução/Beto Novaes/EM/D.A Press

Uma jovem de 110 anos. Assim pode ser considerada a Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais, que iniciou nessa quarta-feira os festejos de sua criação, ocorrida em 1907, por sete jovens mineiros que tinham vindo para Belo Horizonte para trabalhar na nova capital. Curiosamente, nem todos eram dentistas. Na verdade, apenas três: Austen Drummond, Manoel Magalhães Penido e Fernando Carvalho Soares Brandão – era também advogado –, que foram os três primeiros profissionais dessa área na nova capital, chegando aqui em 1897. Os outros eram dois médicos, Benjamin Moss e José Fernando de Barros; um farmacêutico, Antônio Joaquim Teixeira Duarte, e um engenheiro e advogado, Antônio Prado Lopes Pereira. Foi a partir do ideal deles de criar a Escola Livre de Odontologia, que nasceu a que era a quarta escola universitária do Brasil nesse segmento, e que hoje é referência internacional, sendo uma das três maiores e melhores do país, junto com a da Universidade de São Paulo (USP) e a da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Contar a história da Faculdade de Odontologia da UFMG é falar sobre a história desse segmento no Brasil. Quando o Brasil foi descoberto, não existia profissão de dentista. O profissional que exercia essa profissão era, pasmem, o barbeiro.

Era ele quem cuidava dos dentes dos pacientes, na verdade, os arrancava. E a chegada dos barbeiros ao Brasil se deve à vinda da família real para o país, em 1808.

Nessa época, em Portugal, já existia o segmento de odontologia, como parte da medicina e da farmácia. De ano em ano – às vezes até mesmo de dois em dois –, um cirurgião-dentista que atuava em Portugal vinha ao Brasil para inspecionar as tais barbearias e renovar as licenças dos profissionais. A chegada da família real à Bahia fez com que surgisse lá a primeira escola livre da profissão. Não existiam ainda as universidades federais. Com sua mudança para o Rio de Janeiro, instalou-se lá a segunda escola. Mas foi somente por meio de um decreto assinado pelo imperador D. Pedro II, em 1884, que a odontologia se tornaria independente da medicina e da farmácia (leia texto nesta página).

Anos depois, surgia a terceira escola de odontologia, em Juiz de Fora. E com a criação da nova capital mineira, os então fundadores passaram a sonhar com a possibilidade da criação de uma faculdade igual em Belo Horizonte.

O professor Marcelo, descendente de Austen Drummond, ao lado da primeira cadeira de dentista acionada por pedal - Foto: Beto Novaes/EM/D.A PressPois Austen, Manoel Penido, Fernando Brandão, Moss, José Fernando de Barros, Antônio Duarte e Antônio Prado passaram a se reunir e a trabalhar nesse sentido. No ano de 1907, com o plano elaborado, era preciso conseguir a autorização do governo federal para a criação da nova escola. Austen e José Fernando foram os escolhidos para irem à então capital federal, para a aprovação e registro.

Os dois seguiram viagem, a cavalo, obtendo a aprovação do projeto. No retorno a BH, a comemoração e a criação oficial, datada de 3 de fevereiro de 1907. A primeira sede da Escola Livre de Odontologia foi na Rua Guicurus, no Centro, onde mais tarde viria a ser construído o prédio da Escola de Engenharia da UFMG, hoje abandonado.
Em 1913, a sede mudaria para a Praça da Liberdade, onde é hoje o Palacete Dantas.

Em 1917, a terceira sede, na Rua Timbiras, 1.497, onde funciona uma escola da PBH. Dois anos mais tarde, a mudança da escola para a Rua da Bahia. A quinta mudança ocorreria em 1927, para a Rua Thomas Gonzaga, esquina com a Praça da Liberdade. Somente em 1953, a chegada a um prédio próprio, na Cidade Jardim, que está desocupado e desativado desde 2000, quando a faculdade se mudou para o Câmpus Pampulha da UFMG.

OPÇÕES Simone Dutra Lucas, de 55 anos, e Cláudia Felipe, de 49, professoras e coordenadoras das comemorações dos 110 anos, contam a evolução da escola durante os anos. A odontologia brasileira recebia uma forte influência da francesa. Mas isso mudaria ao longo dos anos, o que fez crescer a importância de trabalhos e profissionais brasileiros e a Faculdade de Odontologia da UFMG tem participação direta sobre isso.

“Aos poucos, a nossa odontologia passou a seguir a norte-americana, uma das que mais havia evoluído em meados do século XX, a ponto de termos hoje um contato direto com os EUA, seja na formação de profissionais seja na pesquisa. É comum, por exemplo, termos estudantes que começam uma pós-graduação aqui, vão para os Estados Unidos e retornam para concluir a pós”, conta Simone.

Os fundadores: Fernando Brandão e Benjamin Moss (em pé), Antônio Duarte (E), Antônio Pereira, Austen Drummond, Manoel Penido e José Fernandes de Barros - Foto: Reprodução/Beto Novaes/EM/D.A Press

PROJETOS SOCIAIS A Faculdade de Odontologia da UFMG tem projetos periódicos em andamento, todos visando ajudar a sociedade, em especial as pessoas carentes, conta Marcelo Drummond Naves que cita dois em hospitais da capital, Sofia Feldman e Odilon Behrens. No primeiro, “Doenças Peridentais em Grávidas”. No segundo, “Lesão de Boca e Estomatologia”. Um terceiro projeto, realizado na faculdade, que tem gabinetes abertos à população em geral, um convênio com o SUS.
“Cirurgia e Traumatologia Maxilofacial”. “Em todos esses casos, existem consequências dentárias. É assim também com outro projeto, de “Pacientes Transplantados”, de qualquer órgão, especialmente de rins, cujo reflexo imediato é nos dentes, na boca”, diz Marcelo. A universidade faz ainda um projeto de “Internamento Rural”, destinado ao campo mineiro.

HISTÓRIAS No prédio da Faculdade de Odontologia há hoje um minimuseu, que registra equipamentos usados pelos dentistas mineiros desde sua fundação. Lá estão, além do quadro que registra a reunião dos sete fundadores, quando da criação da escola, muitos equipamentos.

Alguns chamam a atenção, como por exemplo, uma cadeira de dentista portátil, que segundo Simone Dutra e Cláudia Felipe era levada por Austen quando viajava para congressos no Rio de Janeiro. “Ele seguia em lombo de burro, atendendo quem precisava de ajuda pelo caminho. Era assim que conseguia dinheiro para participar dos eventos”, contam.

Simone ressalta também a importância de Tiradentes para a profissão no Brasil. “Ninguém fala sobre o assunto, mas Tiradentes foi o primeiro dentista do Brasil a fazer implante. Essa parte da nossa história está oculta, mas registrada aqui na faculdade.”

 

SAIBA MAIS
Reforma Sabóia

O ano de 1884 marcou a criação oficial do Curso de Odontologia nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, através do Decreto 9.311, promulgado pelo imperador D. Pedro II, em 25 de outubro, data que transformada no “Dia do Cirurgião-Dentista Brasileiro”. Com a colaboração do então diretor da Faculdade de Medicina do Rio, Vicente Cândido Figueira de Sabóia, os Estatutos das Faculdades de Medicina do Império foram alterados dando independência à odontologia. No decreto constava, pela primeira vez, que o segmento formaria um curso anexo, além dos de Farmácia e de Obstetrícia e Ginecologia. A mudança deu grande impulso à odontologia moderna, com o aprimoramento do ensino e da tecnologia.

 

Gerações de dentistas

Professor da Faculdade de Odontologia, Marcelo Drummond Naves, de 57 anos, é bisneto direto de um dos fundadores, de Austen Drummond. Ele guarda com carinho o certificado de participação do antepassado num congresso latino-americano no Rio de Janeiro, assim como um diploma de um formando de 1949, Dr. Olavo Machado Brandão, que ficou esquecido na escola, feito em pele de carneiro. Lembra também a tradição de família. “O pai de meu bisavô, Izidro, também era dentista. São seis gerações de dentistas, pois meu avô, Vitor Drummond, era dentista. Na geração seguinte meu pai, Zé Milton Naves, também. Não era filho, mas genro do Vitor. Depois venho eu e agora tem a caçula, Raphaela Drummond. Tem sempre alguém, um por geração.”

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