Pelo 10º ano, ativistas abraçam a Serra da Moeda pela conservação da área

Manifestação no Topo do Mundo, no alto do maciço, defende paisagem rica em nascentes e aquíferos, essenciais para abastecer a população da Grande BH

Gustavo Werneck
- Foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press
A gravidez de sete meses traz muitas alegrias no presente, mas também um pouco de preocupação com o futuro. Ao lado do marido, Ronaldo Ribeiro de Morais, pedreiro, e do filho Victor, de 7 anos, a auxiliar de produção Rosana de Jesus Fernandes, de 40, quer um mundo saudável agora e inteiro para as próximas gerações. “Devemos preservar a natureza, principalmente a água, para que nossos filhos e netos também tenham direito a ela”, disse, no início da tarde de ontem, a moradora da comunidade de Aranha, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ao meio-dia em ponto, junto da família e de cerca de 10 mil pessoas, conforme os organizadores, Rosana participou do ato público Abrace a Serra da Moeda, realizado pela 10ª vez no local conhecido como Topo do Mundo, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.


Diante da cadeia de montanhas que atravessa oito municípios próximos à capital, a advogada Beatriz Vignolo, da organização não governamental (ONG) Abrace a Serra da Moeda, entidade promotora do ato público, explicou que “o pior conflito na região está em Brumadinho, Itabirito e Nova Lima”. “A pressão vem das mineradoras e da especulação imobiliária. O fundamental é que esta área seja declarada, pelo estado, monumento natural, a exemplo do que já ocorreu com o Monumento Natural Municipal Mãe D’Água, iniciativa de Brumadinho. É o único instrumento jurídico efetivo para evitar a degradação completa e garantir proteção”, alertou, lembrando que a criação do Mãe D’Água foi resultado da mobilização na Serra da Moeda. E observou que apenas um lado do maciço, na região de conflito, está hoje protegido.

Sempre realizado em 21 de abril, data da Inconfidência Mineira, o ato público desta vez fez um protesto para que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) tenha mais responsabilidade sobre a segurança hídrica da Grande BH, já que “o órgão ambiental estadual vem se posicionando favoravelmente à viabilidade de empreendimentos que produzem significativos impactos na região da serra, sem qualquer estudo conclusivo sobre a viabilidade hídrica dessas atividades”, segundo a advogada da ONG Abrace a Serra.

Beatriz Vignolo destacou que, “embora a Semad solicite estudo de impacto ambiental na região, esse se apresenta insuficiente para uma avaliação mais profunda sobre a disponibilidade hídrica do aquífero, cenário de demanda atual e futura”.

SEM ÁGUA Uma denúncia da ONG se refere ao esgotamento de algumas das nascentes que compõem o Monumento Natural Municipal da Mãe d’Água, após o início das operações, em 2015, de uma fábrica de refrigerantes na região. Conforme levantamento da Abrace a Serra da Moeda, a indústria, com capacidade para produzir 2,4 milhões de litros da bebida por dia, fica na estrutura geológica conhecida como Sinclinal da Moeda e demanda grande quantidade de água a ser retirada do aquífero. “A nascente do Campinho, que abastecia cerca de 1 mil famílias, já secou. Agora, elas dependem de quatro caminhões-pipa”, disse Beatriz.
Famílias como a de Adriene (E) e Edmar Vieira deram apoio ao movimento na Moeda - Foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press
Em documento distribuído à imprensa, o vice-presidente da Abrace a Serra da Moeda, Ênio Araújo, relata a existência de vários empreendimentos previstos para a região “sem estudos conclusivos que atestem se o lençol freático da Serra da Moeda suportará a alta demanda de água quando todos atingirem o seu auge”. Ele adverte ainda que “mineradoras, empreendimentos imobiliários, fábrica de refrigerantes e polos industriais poderão consumir um volume de água muito superior à taxa de recarga do aquífero, o que poderá provocar a seca das nascentes da encosta da serra que abastecem diversas comunidades históricas e servem de recarga para a região metropolitana.”

DEPOIMENTOS

"Devemos preservar a natureza, principalmente a água, para que nossos filhos e netos também tenham direito a ela" - Rosana de Jesus Fernandes, de 40 anos, moradora da comunidade de Aranha, em Brumadinho

"Venho aqui ao Topo do Mundo desde o início do projeto. É uma iniciativa importante para conquistas ambientais e também informar a população" - Kátia de Lima Pereira, de 25, estudante de pedagogia, ao lado da amiga Letícia Cássia Rodrigues, de 18, moraores de Palhano, em Brumadinho

"Temos que nos preocupar com a questão da água, pois ela está escasseando na região. No Campinho, a fonte já secou" - Alexandre Gloor, professor, e Keila, projetista, residentes em um sítio em Brumadinho

Mobilização para todas as gerações


Protegidos do sol forte com bonés, chapéus e às vezes com as próprias bandeiras com letras brancas e verdes, os manifestantes, em grupos, muitos formados por famílias inteiras, começaram a subir a serra cedo – de ônibus, carro, moto, bicicleta ou a pé. “Sem água não tem vida”, disse o estudante Pedro Neto, de 12 anos, ao lado da mãe, a professora Cássia Aparecida de Souza, ambos moradores de Moeda. De Mário Campos, Merlyn Eynne Tavares foi passear no Topo do Mundo com a filha Lanna Stefany, de 5 anos, e familiares, e aproveitou para vestir a camisa do projeto. “Foi pura coincidência estar aqui hoje, mas valeu muito, pois devemos conservar o meio ambiente”, afirmou, seguindo o cortejo inicial, antes do abraço simbólico, que teve à frente o grupo de congado Nossa Senhora do Rosário de Vargem de Santana, da vizinha cidade de Belo Vale.

Certas de que a união é o melhor jeito de lutar pela preservação dos recursos naturais, duas famílias do distrito de Suzana, em Brumadinho, deram as mãos e depois abriram os braços diante da paisagem: estavam lá, de camisa branca e bandeiras, Edmar Vieira, sua mulher, Adriene, e, no colo da mãe, a pequena Emanuele, de apenas 3 meses; e também Ronei Vicente Pimenta e Marinete Ferreira Silva, com a filha Franciele, de 6 anos, e Davi, de 11, irmão de Marinete. Perto dali, as amigas Kátia de Lima Pereira, de 25, estudante de pedagogia, e Letícia de Cássia Rodrigues, de 18, moradoras de Palhano, também em Brumadinho, aplaudiam a iniciativa. “Venho aqui desde o início do projeto.

É importante para conquistas e também para informar a população”, disse Kátia.

MAIS VERDE Quem foi ao ato público não saiu de mãos vazias, já que houve distribuição de mudas de espécies frutíferas e decorativas. O casal Alexandre Gloor, professor, e Keila, projetista, residente em um sítio em Suzana, em Brumadinho, ganhou uma castanheira-do-maranhão e um ipê-branco. “Já temos um rosa e um amarelo, agora será a vez de plantar este no quintal”, disse Kátia, que considera fundamental o uso racional da água para garantir o abastecimento da população. “No Campinho, a fonte já secou”, reforçou Alexandre.

No meio do ato público, o empresário Lúcio Dantas, de Moeda, chamava a atenção para a preservação dos rios Paraopeba e Velhas, que abastecem a região metropolitana. “O foco do governo estadual deve ser a conservação das águas nesta região”, disse, ao lado da mulher, a professora Diana Murta.

AUTORIZAÇÃO Em nota, a Semad informou que “todas as autorizações ambientais são analisadas de acordo com estudos de impacto ambiental (EIA/RIMA) apresentados pelo empreendedor e seguem o rigor estabelecido na legislação ambiental”. Segundo a secretaria, na época do licenciamento da fábrica de refrigerantes que preocupa ativistas, a Superintendência Regional de Meio Ambiente Central Metropolitana solicitou à empresa um estudo com pesquisa hidrológica. “O objetivo do estudo era avaliar a disponibilidade hídrica subterrânea na região, bem como seus impactos”, diz a nota.

O documento informa ainda que a Serra da Moeda é protegida por diversas unidades de conservação, tais como o Monumento Natural da Mãe D’Água, o Monumento Natural Serra da Calçada, de Nova Lima, e o Monumento Natural Estadual da Serra da Moeda, que abrange os municípios de Moeda e Itabirito. O Parque Estadual da Serra do Rola-Moça também protege uma parte do chamado Sinclinal Moeda. “A unidade de conservação estadual Monumento Natural Estadual da Serra da Moeda foi criada em 2010 e protege as riquezas naturais, arquitetônicas, históricas e arqueológicas do local e é administrada pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF)”.

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